Crítica | A Visita

estrelas 4,5

Antes de ser um cineasta inteligente, Shyamalan é um cineasta de não-desistências. Desde que deixou de atender as expectativas dos que lhe taxavam de “novo Hitchcock” (uma desilusão que teve início com Corpo Fechado e só se agravou desde então), era notável a insistência do diretor em enveredar por caminhos cada vez mais amplos para si e suas ideias, mas constantemente renegadas pelo público que torcia o olho para cada nova abordagem onde Shyamalan servia seus toques autorais. Com A Dama na Água, fantasia onde ele resolveu bater de frente com quem lhe atacava, Shy comprou a briga e foi vítima das piores investidas do público e crítica, colecionando fracassos e sendo levados para projetos comerciais, mas apenas para fracassar novamente.

Diante dessa decaída constante (algo que nunca foi por completa culpa do próprio), só restou a Shyamalan recorrer ao que lhe marcou no início de carreira: projetos de baixo orçamento que lhe permitiriam maior controle sobre o material em mãos. E visando abraçar modernismos que também lhe trouxessem atenção ao seu nome, Shyamalan recorreu ao artifício cansado do found footage (ou o falso documentário) para dar vida a este A Visita e narrar a história dos irmãos Becca (Olivia DeJonge) e Tyler (Ed Oxenbould) que irão passar um tempo na casa dos avós (Deanna Dunagan e Peter McRobbie), o qual nunca conheceram devido a atritos do passado com a mãe dos meninos (Kathryn Hahn). Munida de sua câmera para fazer um documentário sobre a convivência com os avós, Becca começa a registrar atitudes estranhas dos idosos e percebe que eles podem não ser exatamente o que parecem.

O primeiro grande trunfo de Shyamalan aqui, ao transformar sua protagonista em uma cinéfila voraz e desejosa de dizer o melhor possível com suas imagens (um alter-ego do diretor, talvez), é a potência dramática que o artifício da câmera na mão concede a experiência. Justificada por este fato (e notem como o diretor por vezes captura os diálogos entre os irmãos sem necessariamente um deles estar empunhando a câmera, quase um filme dentro do filme), o artifício banalizado pelo gênero do horror como uma mera forma de potencializar seus jump scares vira na mão de Shyamalan um instrumento de ironia e experimentação com o alcance dramático da filmagem. Nisso, Shyamalan transforma a câmera em sua principal personagem, muito interessado no que se esconde no extra-campo ou na estabilidade da imagem, que ao desafiar seus atores (especialmente as crianças, reparem no momento da confissão de Becca), consegue significar muito mais do a correria desenfreada ao qual o found footage era submetido ao gênero (e exemplos não faltam, desde O Último Exorcismo até “estranhices” como [REC], Quarentena ou o recente Bruxa de Blair). Desde Atividade Paranormal que o recurso não era tão bem servido ao público.

Inusitada, mas também muito bem-vinda, é a forma com que Shyamalan faz uso do humor escrachado que, numa espécie de potencialização do que vimos lá em Fim dos Tempos, se torna uma opção que faz da experiência algo ainda mais bizarro e delicioso de se acompanhar. Pois sim, antes de estar lá apenas para gerar risadas (nem todas as tentativas são felizes, precisamos admitir), o humor ressalta a estranheza da convivência dos irmãos com seus avós, e até onde despreocupação com a caricatura farsesca de suas personas pode estar escondendo algo sobre suas personalidades. E aqui é o momento de ressaltar o grande trabalho da dupla que dá vida aos idosos, em especial Deanna Dunagan, que faz da avó uma figura realmente a ser temida, ao ponto de ebulição de sua loucura. Lembra em muito a sinistra Sra. Jones de Betty Buckley no já mencionado Fim dos Tempos.

E tão notável quanto qualquer uma dessas formas com a qual Shyamalan constrói seu filme, é o seu poder de sugestão sobre o que há por detrás de cada porta, janela, escadas, e mais ainda, sobre a crença/descrença do que pode ser sobrenatural ou não. E é com isso que Shyamalan dá seu principal toque autoral, novamente levantando o poder da crença x dúvida dentro de um contexto familiar conturbado. E assim A Visita foge exponencialmente do formato feito para agradar as grandes massas, oferecendo muito mais uma profundidade psicológica sobre suas sensações e personagens (há composições de cenas belíssimas e extremamente significativas ao filme, como o confronto final de Becca diante de um espelho) do que meros sustos gratuitos (e reparem novamente como o diretor brinca com essa expectativa na cena da vó andando pela casa).

A Visita foi um retorno extremamente feliz de Shyamalan aos holofotes e à sua liberdade em conduzir uma história com seus próprios toques fabulosos. Tendo custado misérias e se pagado nas bilheterias em grandes números, é a prova de que o indiano ainda pode fazer a felicidade do público sem recorrer aos clichês já tão saturados gênero afora.

E que venha Fragmentado!

A Visita (The Visit) — EUA, 2015
Direção: M. Night Shyamalan
Roteiro: M. Night Shyamalan
Elenco: Olivia DeJonge, Ed Oxenbould, Deanna Dunagan, Peter McRobbie, Kathryn Hahn, Samuel Stricklen, Jorge Cordova.
Duração: 93 minutos.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.