Crítica | A Volta do Incrível Hulk

O clássico televisivo O Incrível Hulk, estrelado por Bill Bixby e Lou Ferrigno, certamente está guardado no imaginário popular de muita gente. Muito antes dos fãs de quadrinhos espernearem pelas adaptações feitas nas produções cinematográficas baseadas no personagem, tanto a de 2003 quanto a de 2008, Kenneth Johnson desenvolvia a telessérie que rasgaria a mitologia “sagrada” envolta do personagem criado 16 anos antes do primeiro episódio do programa. Hulk não era mais o Bruce Banner que conhecíamos, e sim David Banner, um personagem com dimensões diferentes das que aprendemos a conhecer nos quadrinhos de Stan Lee. A busca por um distanciamento do material fonte fora uma decisão do próprio Kenneth, produzindo uma série completamente independente de qualquer amarra. A série, embora seja próxima a muito do que essa  obra é, não é o alvo desta crítica, e sim o filme que marcaria o retorno do personagem às televisões, anos após o cancelamento do show.

A primeira coisa que precisamos deixar por entendido é que todo esse universo da série televisiva não é uma adaptação convencional, como as que aprendemos a amar e a odiar nos últimos anos. O que era levado para as telas era apenas uma ideia central – a de um homem que se transforma em um monstro esverdeado – e não os quadrinhos de fato. Por isso, é surpreendente o encontro do Hulk com um parceiro dos gibis, o Poderoso Thor, algo que se repetiria no ano seguinte, em O Julgamento do Incrível Hulk, que mostra o Gigante Esmeralda ao lado do Demolidor. Essa adaptação, contudo, ou no caso, a falta dela, não é nenhum demérito, entendendo-se o mundo que estamos prestes a adentrar, algo que certamente não é nada fácil para os fãs, até mesmo os menos xiitas, de ambos os personagens.

Mesmo assim, o Thor de A Volta do Incrível Hulk continua bastante diferente do original, e da própria mitologia nórdica. A premissa do longa coloca Donald Blake (Steve Levitt) a ser um estudante que revela ao Dr. David Banner estar em posse de um martelo mágico que contém a alma de Thor, guerreiro imortal banido por Odin. Conflitos acontecem e Banner, em busca da cura de sua condição, torna-se o Incrível Hulk novamente, transformando pela primeira vez o clássico duelo das HQs entre Thor e Hulk em uma realidade live-action.

Se a direção de Nicholas Corea segue todos os padrões televisivos da época, o roteiro denota uma indecisão de abordagem, que acaba tornando a história completamente incoerente por ambas as vias que ameaça explorar. O seriado do Incrível Hulk sempre trouxe problemáticas mais terrenas, coisas que personagens mais urbanos resolveriam, enquanto que a presença de Thor já indica uma aura mais mística, que nunca é abordada competentemente. Os vilões da obra, no final, são meros corruptos que sequestraram o interesse amoroso de Banner, a Dra. Margaret Shaw (Lee Purcell).

O Thor do telefilme é extremamente farofeiro, e infelizmente, Eric Kramer não consegue segurar as pontas de sua versão do loiro. Apesar do orçamento limitado, porém, o figurino do personagem até que é vistoso. O que dá a sensação de oportunidade desperdiçada, entretanto, é o pequeno enfoque do roteiro em duelar Thor e Hulk. O confronto entre os dois é diversão televisiva oitentista de qualidade questionável, e mesmo assim, precisava mais para saciar até o espectador de gosto mais duvidoso possível. Por outro lado, Bill Bixby e Lou Ferrigno cumprem o que prometeram com a própria série televisiva, mesmo que Bixby já esteja muito mais velho para o papel se comparado com a sua contraparte dos quadrinhos. Ferrigno, particularmente, continua sendo um Hulk icônico e divertidíssimo.

Para completar, a trilha sonora da obra é certamente um ponto a favor do telefilme, provavelmente não pela sua qualidade magistral, mas provavelmente por trazer algo um pouco memorável, alusivo à telessérie, é claro. Sendo assim, A Volta do Incrível Hulk não consegue sustentar, pela sua duração, uma narrativa coesa e fluida, mesmo sendo divertido para o contexto da época que fora lançado e para os nostálgicos de plantão. O roteiro abusa das exposições para situar o público médio no telefilme, mas se esquece de explorar uma linguagem televisiva mais inteligente, percorrendo caminhos abobados e superficiais. Se querem um crossover de verdade entre Thor e o Gigante Esmeralda, com direito à combate e tudo, fiquem com Os Vingadores, de 2012 e Thor: Ragnarok, de 2017.

A Volta do Incrível Hulk (The Incredible Hulk Returns) — EUA, 1988
Direção:
Nicholas Corea
Roteiro:
Nicholas Corea
Elenco:
  Bill Bixby, Lou Ferrigno, Jack Colvin, Steve Levitt, Eric Kramer, Tim Thomerson, Charles Napier, Lee Purcell, John Gabriel, Jay Baker
Duração: 100 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.