Crítica | A Volta do Monstro do Pântano

O Monstro do Pântano, primeira adaptação live-action do personagem vegetal da DC Comics, foi razoavelmente bem recebido e funcionou como a fagulha que reacendeu o interesse da editora sobre seu personagem, levando-a a entregá-lo a Alan Moore a partir de 1984. O resultado prático disso foi que o roteirista britânico virou o personagem de cabeça para baixo, expandiu sua mitologia e, no processo, acabou criando A Saga do Monstro do Pântano, uma das melhores e mais cultuadas HQs dos anos 80, quiçá de toda a história da Nona Arte mainstream.

A manutenção do ser elemental no imaginário popular, portanto, levou a uma improvável continuação nos cinemas, com equipe criativa completamente nova. Wes Craven, que escreve e dirigiu o primeiro, sai do cenário e entram Neil Cuthbert e Grant Morris no roteiro e Jim Wynorski na direção, três nomes então completamente desconhecidos e que, com exceção de Cuthbert, que viria a co-escrever o fraco, mas razoavelmente cultuado Abracadabra, permaneceram assim. Em outras palavras, o desastre era certo.

No entanto, para minha surpresa, ao abraçar o lado cômico sem hesitação, A Volta do Monstro do Pântano consegue ser superior ao original em quase todos os aspectos. O que antes era uma clara dúvida na cabeça de Craven entre fazer um filme B de terror e uma comédia camp de monstros, resultando em uma obra oscilante demais e sem personalidade, na continuação o roteiro de Cuthbert e Norris desvia de todo o semblante de seriedade e mergulha profundamente na pegada mais leve que, apesar de nem sempre funcionar, é consistente do começo ao fim.

E esse lado mais engraçado vai desde a criatura titular que ganha uma roupa de borracha muito superior à original, com menos aparência de um macacão verde e mais de algo orgânico, efetivamente vegetal, até o uso constante de uma hilária (e por vezes irritante, confesso) dupla de crianças como alívio cômico (Omar, vivido por RonReaco Lee e Darryl, vivido por Daniel Taylor), e isso sem contar com a escalação da estonteante Heather Locklear para viver Abigail Arcane, a enteada de Anton Arcane (Louis Jourdan, que volta ao papel) e uma completa loira burra que só está lá para desfilar seu belo corpo para lá e para cá. Além disso, Dick Durock, o dublê que vivera o monstro na obra original também volta, desta vez com muito mais espaço para trabalhar, já que a criatura não mais urra como o monstro de Frankenstein e sim fala normalmente, mas com uma voz que definitivamente não combina com seu porte.

A trama é básica e não mais do que uma repetição da anterior: Arcane, que, sem muita explicação, está vivo e não mais é um javali gigante, precisa da fórmula de Alec Holland para reverter o envelhecimento rápido (e imperceptível) que está sofrendo. No processo de descobrir a fórmula, ele testa variações em humanos incautos que, claro, se transformam nos mais variados monstrengos (os Un-Men dos quadrinhos), com especial destaque para um que parece a mistura de um polvo com uma sanguessuga e que funciona como elemento externo de coesão narrativa. Nesse aspecto – das monstruosidades – vê-se também um cuidado maior da produção no design de criaturas e na execução das próteses mecânicas, algo realmente surpreendente para o orçamento da fita. No entanto, o roteiro praticamente não sabe como enxertar o Monstro do Pântano organicamente na história, fazendo-o surgir do nada – com direito a trilha sonora quase de circo – para salvar as vítimas.

Abby (Locklear) surge na história da maneira mais aleatória possível, como uma botanista californiana que batiza suas plantas com nomes humanos e que decide tomar satisfações com seu padrasto Anton Arcane (Jourdan). É quase como duas histórias conectadas com a função exclusiva de transformar a moça em uma dama em perigo com o mínimo de roupa possível em um filme endereçado a crianças. Aliás, nesse aspecto, é particularmente interessante – e, diria, ousado – a forma como o roteiro bebe da viagem lisérgica de Alan Moore no arco Amor e Morte para lidar com o sexo(!!!) entre o Monstro do Pântano e Abby. Da mesma forma, é bom ver que o aspecto mais orgânico e parte do mundo vegetal da criatura também é trabalhado quando a vemos se desfazer e se reformar momentos a frente.

A Volta do Monstro do Pântano é uma agradável e divertida surpresa que, mesmo entregando-se à comédia, acaba fazendo jus, de seu próprio jeito, ao atormentado personagem da DC Comics. Pelo menos não é um filme que não sabe é ou que se fia em uma roupa borrachuda para dar credibilidade ao seu protagonista.

A Volta do Monstro do Pântano (The Return of Swamp Thing, EUA – 1989)
Direção: Jim Wynorski
Roteiro: Neil Cuthbert, Grant Morris (baseado em criação de Len Wein e Bernie Wrightson)
Elenco: Louis Jourdan, Heather Locklear, Dick Durock, Sarah Douglas, Joey Sagal, Ace Mask, Monique Gabrielle, RonReaco Lee, Daniel Emery Taylor, Ralph Pace, Timothy Birch, Alex Van, Christopher Doyle, Rex Pierson, Tony Sears, Bill Eudaly
Duração: 88 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.