Crítica | A Voz da Lua

estrelas 3

É noite, em Roma. No subúrbio, vemos um poço envolto em névoa no meio de uma ravina descuidada e de grama alta. Ivo Salvini, um louco que há pouco deixara o hospício, segue em direção ao poço, certo de que ouvia vozes. No céu, uma lua  de luz filtrada por nuvens brancas ilumina o local. É o início de uma jornada de descobertas noite a dentro, dias a fora, madrugadas e tempestades dali em diante. É o momento de se ouvir e tentar entender a voz da lua. É o último momento de Federico Fellini no cinema.

A produção deste último filme de Fellini começou em 1989, com uma ideia surgida rapidamente de um tratamento-base em parceria com Tullio Pinelli e baseado no romance O Poema dos Lunáticos, de Ermanno Cavazzoni. A ideia central do diretor era fazer uma visita surrealista e caricata ao mundo dominado pelo barulho e pela mídia, um ambiente já visitado por ele com o mesmo teor mas em contextos diferentes em Ginger e Fred (1986) e Entrevista (1987).

O protagonista do filme é o injustamente odiado Roberto Benigni, a quem muitos cinéfilos culpam pelo insucesso de A Voz da Lua, o que é uma grande bobagem. Na pele de Ivo, Benigni realiza um trabalho muito bom, com a delicadeza necessária para esse tipo de personagem, com a cara de alumbramento constante, a descoberta a cada nova situação, a bobagem demente de um inocente nem tão inocente assim. O ator não faz nada diferente do que uma personagem como a sua deveria fazer, levando-a para um patamar de pureza rara de se ver, ao mesmo tempo que a traz de volta para a descoberta do sexo e do amor platônico. A Voz da Lua tem sim alguns problemas, mas Roberto Benigni não é um deles.

A jornada que Ivo Salvini realiza e as pessoas que encontra pelo caminho são, na verdade, estereótipos dos próprios motivos surreais e alegóricos de Fellini, indo da vagabundagem jovem de Os Boas-Vidas, passando pelos percalços sociais e pessoais (mesmo que sutilmente) de A Estrada da Vida e Noites de Cabíria; cercando o ambiente geográfico tão caro às suas personagens e a ele mesmo em Roma ou recobrando momentos da infância sexualizada e afetuosa de Amarcord, atribuindo a Ivo Santini memórias românticas e angelicais para imediatamente borrá-las com toques de libido, uma perfeita deixa cínica vinda de Oito e Meio e que chega à maturidade, na reta final do filme, tal como o cineasta fizera em A Doce Vida.

Esse desfile por sua própria filmografia, no entanto, é melhor quando analisado do que quando visto na tela. Mesmo que reconheçamos os toques do mestre e entendamos a sua intenção, não é possível ver muita força na trama que se desenvolve. Muitas vezes a história perde totalmente o seu apelo atrativo para então recobrá-lo mais adiante, com um pouquinho menos de graça do que na vez anterior. Essas idas e vindas dramáticas, aliadas a uma corrente de eventos relativamente insossas tornam A Voz da Lua um filme fraco de modo geral e por outro lado, bom em sua concepção e intenção.

Federico Fellini se despede do cinema com um ode ao mundo repleto de signos e distrações e para isso faz uso da loucura como forma lírica e poética, uma evolução dramática que tem grande valor para a trama e para o próprio espectador. É pena que o roteiro não tem força o bastante para segurar toda a história de modo atrativo para o público, fazendo-o apenas em alguns casos e de maneira muito rápida. Mesmo assim, identificamos no filme tudo o que fez parte da gloriosa filmografia de Fellini e, pelo bem pelo mal, acabamos presos à loucura de Ivo Salvini e seus companheiros, talvez pela entrega cobrada pelo diretor desde o início da fita e que nos faz caminhar também, como loucos, por essa estrada amarela iluminada pela voz da lua.

A Voz da Lua (La Voce Della Luna) – Itália / França, 1990
Direção: Federico Fellini
Roteiro: Federico Fellini, Tullio Pinelli (baseado no romance O Poema dos Lunáticos, de Ermanno Cavazzoni).
Elenco: Roberto Benigni, Paolo Villaggio, Nadia Ottaviani, Marisa Tomasi, Angelo Orlando, Sim, Syusy Blady, Dario Ghirardi, Dominique Chevalier, Nigel Harris, Vito
Duração: 122 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.