Crítica | Abaixo o Amor

Abaixo o Amor é um filme sobre relacionamentos e sentimentos envolvidos numa época de ebulição social. O amor, neste segmento, passava por muitas restrições, sendo a consumação dos desejos um problema quando não ligado aos aspectos da família tradicional. As revoluções femininas e o surgimento da pílula anticoncepcional mudaram bastante o cenário, uma época onde as mulheres lutavam por igualdade perante o mercado de trabalho machista, bem como as regras familiares embebidas de patriarcalismo e rigidez comportamental. Como amar diante de tantos obstáculos?

Peyton Reed dirigiu o roteiro assinado pela dupla formada por Eve Ahlert e Dennis Drake, texto dramatúrgico que deu origem ao filme de 94 minutos inspirado na canção Down With Me, de clássico interpretado por Judy Garland. Tendo como destaque a atenuada referência aos filmes coloridos e purpurinados de Rock Hudson e Doris Day, Abaixo o Amor é uma comédia romântica que versa sobre a trajetória de Barbara Novak (Reneé Zelwegger), uma jovem escritora do interior ao chega em Nova Iorque para revolucionar a sua vida e a de outras mulheres, pois o seu best-seller (que nomeia o filme) propõe algo novo para as mulheres da época.

Os problemas começam a surgir depois que as propostas de liberação sexual e emocional em relação aos homens incomodam Catcher Block (Ewan McGregor), jovem jornalista que é a representação cabal do homem machista. Ele vai tentar mostrar o contrário, tendo em vista refutar os argumentos da escritora. Entre idas e vindas e muitas confusões, eles vão descobrir o amor e se apaixonar, numa história romântica que segue a cartilha hollywoodiana do amor idealizado, mas sem deixar de tocar nos pontos nevrálgicos de um filme contemporâneo que mergulha na história para traçar algumas críticas bem pontuais.

Com diálogos humorados e cenas que emulam o legado dos musicais clássicos, o elenco solta a voz e nos faz mergulhar numa época conturbada, mas apresentada com ludicidade e magia. O design de produção de Andrew Laws é kitsch, mas não no sentido negativo que o conceito artístico ganhou em alguns segmentos, ao contrário, é propositalmente carregado para a criação da atmosfera ideal. A condução musical de Marc Shaiman cumpre bem o seu papel narrativo, orquestrada com equilíbrio quando posta em paralelo ao trabalho de edição assumido por Larry Bock.  Os figurinos de Daniel Orlandi nos fazem mergulhar ainda mais na moda dos anos 1960, contemplados pelo bom trabalho de design, bem como das escolhas narrativas de Jeff Cronenweth na direção de fotografia.

Dentre os destaques temáticos e contextuais, Abaixo o Amor é um filme sobre o início da quebra de paradigmas sociais no que diz respeito aos relacionamentos amorosos. Há uma interessante crônica de Arnaldo Jabor sobreo período, algo que dialoga bastante com o contexto em questão. Segundo o cronista, a pílula foi a maior invenção, pois muitas meninas tinham medo de engravidar, por isso, deixavam os rapazes fazer de “tudo”, exceto chegar aos “extremos”. Com isso, muitos iam com dores nos rins para casa e perpetravam masturbações que “ejaculavam nos banheiros como foguetes à lua”. Eis uma forma paciente de amar. A cena de sexo por telefone entre os protagonistas é bem elucidativa quando o foco é a pertinência entre a crônica citada e o conteúdo do filme.

Abaixo o Amor — (Down With Love) Estados Unidos, 2003.
Direção: Peyton Reed
Roteiro: Dennis Drake, Eve Ahlert
Elenco: David Hyde Pierce, Ewan McGregor, Renée Zellweger, Sarah Paulson, Tony Randall, Jack Plotnick, Chris Parnell, Jeri Ryan, Dorie Barton
Duração: 94 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.