Crítica | Abismo do Medo 2

estrelas 3

Continuações sempre estão no alvo da polêmica. No geral as comparações com o (ou os) filme (filmes) anteriores são inevitáveis: quando não há exaltação, algo que dificilmente acontece, os espectadores apontam a falta de substância para expressar o caráter frágil ou desnecessário de uma produção deste quilate. Abismo do Medo 2 ocupa o segundo tipo: é dinâmica, diverte, funciona como aventura, apresenta alguns personagens ainda interessantes, mas se comparado ao filme anterior, perde feio.

Sob a direção do iniciante John Harris, a produção começa coma polícia à procura do grupo de amigas que desapareceram durante a expedição do primeiro filme. Em paralelo, somos apresentados a um motorista salvando a vida de Sarah, aparentemente a única sobrevivente da sangrenta jornada anterior, histérica a percorrer uma estrada. Ela não consegue recordar-se de nada e mantem-se internada durante algum tempo, tendo em mira recobrar a sua saúde.

Logo, um xerife decide ir ao hospital e investigar Sarah, levando-a, posteriormente, para a caverna novamente, tendo em mira recuperar a sua memória e resgatar as informações necessárias para solucionar o mistério. Eis que ao chegar ao local, Sarah começa a recobrar a sua memória, lembrando-se dos aterrorizantes momentos com as suas amigas. Tarde demais para retornar, a moça se encontra novamente no mais denso e terrível espaço claustrofóbico, tendo que lutar pela sua vida.

No que tange aos problemas narrativos e semióticos, Abismo do Medo2 coleciona uma série de deslizes: primeiramente, parece uma refilmagem do anterior. Os personagens são rasos, com exceção de Sarah e Juno, mostrando-se facilmente como cardápio para a ceia das criaturas animalescas, feias, grotescas e asquerosas, iluminadas e apresentadas através de closes, sem o poderoso recurso da sugestão trabalhado no filme anterior.

Mas também não é só de problemas que o filme se ergue. Sarah retorna como um personagem crível, que ao reestabelecer os laços com a memória, assumirá uma postura animalesca, pronta para o ataque. Como alguns profissionais do marketing não sabem realizar as peças promocionais adequadamente, e no cinema, isto acontece com frequência nos trailers, Abismo do Medo 2 revela, já no trailer, que Juno, personagem que foi ferida por Sarah no final do filme anterior, está viva, sedenta por sangue, vingança e decidida a qualquer coisa para sobreviver.

Na época de lançamento do primeiro, a crítica apontou a narrativa como o filme de monstros mais assustador desde o clássico Alien – O Oitavo Passageiro, de 1979. A relação, plausível, estava ligada ao fato de ambos não apresentarem os seus monstros tão facilmente, chocando o público mais adiante. Este efeito causou surpresa e agradou aos espectadores. Abismo do Medo conseguiu ir além dos ferrões musicais e da edição contemporânea, presenteando o público com um filme que é puro medo.

Infelizmente, a sua sequência não consegue alcançar excelência, pois depois do final pessimista do primeiro, teria sido melhor deixar as coisas como estavam. No entanto, estamos falando de uma produção industrial, ligada ao capital, rentável e com uma fatia de público despreocupada com as possíveis fragilidades de uma obra que talvez tivesse pouco a oferecer em termos de continuidade. Resumo da ópera: não é ruim, mas também não é muito bom, enfim, uma obra de múltiplas sensações.

Ao longo dos seus 94 minutos de duração, Abismo do Medo 2 se mostra um filme eficiente, dinâmico, mas inferior ao seu antecessor. A pergunta, à priori, paradoxal, é inevitável: e por acaso precisa ser melhor que o anterior para justificar a sua realização? A resposta, caro leitor, deixarei por sua conta.

Abismo do Medo 2 (The Descent 2) – Reino Unido, 2005
Direção: Jon Harris
Roteiro: James Watkins, J. Blakeson, James McCarthy
Elenco: Michael J. Reynolds, Shauna Macdonald, Jessika Williams, Douglas Hodge, Josh Dallas, Anna Skellern, Doug Ballard, Josh Cole, Saskia Mulder.
Duração: 94 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.