Crítica | Abismo do Medo

estrelas 4

Abismo do Medo estreou em uma época de bons frutos para o terror. Apesar do excesso de refilmagens que só entrariam em desgaste ao final da década, em 2006, os fãs do gênero não tinha do que reclamar: O Albergue, Wolf Creek – Viagem ao Inferno e Viagem Maldita foram sucessos de crítica de bilheteria, cada um potencialmente relevante dentro da sua seara. Abismo do Medo faz parte deste grupo. Sob a direção do competente Neil Marshall, o filme é sufocante, dinâmico, catártico e absurdamente assustador.

O cineasta, também responsável pelo roteiro, nos mostra um grupo de seis mulheres que se aventuram por uma caverna em busca de diversão e são surpreendidas por um desmoronamento que as impede de retornar com facilidade à superfície. Sem o mesmo acesso, as amigas precisarão achar outro caminho para sair daquele espaço escuro e claustrofóbico. Juno (Natalie Mendonza) lidera o grupo, seguida de Sarah (Shauna MacDonald), Beth (Alex Reid), Rebecca (Saskia Mulder), Sam (Myanna Buring) e Molly (Nora-Jane Noone).

Após a situação elas são obrigadas a buscar outra saída, mas o inesperado se revela: criaturas grotescas, dotadas de características humanas e animalescas, num tom extremamente primitivo, violentas e carnívoras, habitam os espaços mais densos da caverna, revelando-se como empecilho não apenas para a saída, mas para a sobrevivência das mulheres que enfrentarão os piores pesadelos de suas vidas.

Com direção de arte, montagem e mixagem de som eficientes, o filme ganha potencial por apostar no protagonismo feminino sem recorrer aos famigerados clichês, tendo ainda a dinâmicas entre as amigas um ponto positivo para o desenvolvimento da narrativa. Sarah, oriunda de um trauma recente, revela-se a personagem mais poderosa do filme. Inicialmente frágil, demonstra poder e determinação, numa alusão bem direta a Tenente Ripley, da franquia Alien.

O roteiro é funcional e a sua transformação em filme idem: a câmera mergulha na escuridão e evoca tensão, através de planos fechados, a maquiagem, igualmente brilhante, nos apresenta criaturas repulsivas, apresentadas aos poucos, em doses homeopáticas, sem excessos, o que cria uma progressão calculada do suspense e das altas doses de horror. Os efeitos sonoros destes seres animalescos são angustiantes, mais potentes quando associados aos planos das personagens em pleno desespero.

Na época de seu lançamento, o tema caverna parecia estar preste a se tornar uma vanguarda. A Caverna e A Caverna do Medo foram lançados em curto espaço de tempo, mas no entanto, nenhum deles tinha o estilo e a eficiência catártica de Abismo do Medo. O filme ganhou uma continuação com doses generosas de suspense, entretanto, sem a mesma eficiência da obra ponto de partida.

Abismo do Medo (The Descent) – Reino Unido, 2005
Direção: Neil Marshall
Roteiro: Neil Marshall
Elenco: Shauna MacDonald, Natalie Mendoza, Alex Reid, Saskia Mulder, MyAnna Buring, Nora Jane Noone, Julie Ellis, Sophie Trott, Stephen Lamb.
Duração: 99 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.