Crítica | Abutres (2010)

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Vinte e dois mortos por dia, seiscentos e oitenta e três por mês, mais de oito mil por ano e cem mil mortes na primeira década do atual milênio. Acidentes de trânsito são a principal razão pela qual menores de trinta e cinco anos perdem a vida na Argentina. É através de todos esses dados e informações que o diretor Pablo Trapero nos apresenta a uma história de amor em meio ao cruel e perigoso mundo da máfia argentina de indenizações de acidentes rodoviários.

Sosa (Ricardo Darín) é um advogado que perdeu sua licença para exercer a profissão e se envolve com a máfia de indenizações para conseguir se manter até restituir a permissão de seguir atuando na área da jurisprudência. Ele trabalha como “carancho” (algo como um abutre, que procura sua presa em corpos sem vida) e passa boa parte de seu tempo em hospitais atrás de quem sofreu algum acidente ou dos familiares de alguma vítima fatal, pois são clientes em potencial que poderão acionar seus seguros para garantirem altas indenizações (as quais, geralmente, são tomadas quase em totalidade, através das comissões, pela máfia que Sosa trabalha).

Em meio a todo esse universo onde o lucro é mais importante que a vida, o advogado conhece Luján (Martina Gusmán), uma enfermeira que trabalha no mesmo hospital em que ele busca seus clientes. Devido às suas rotinas, os dois começam a se cruzar mais frequentemente e até Pico (Fabio Ronzano), o motorista da ambulância, serve como um elo de ligação entre os dois, já que conhece Sosa há anos. Essa nova convivência abre espaço para o surgimento de uma bonita e controversa relação amorosa.

É bonita pela forma como as personagens têm sua relação construída através do roteiro. Primeiramente, o desejo carnal sendo o guia para as intenções de Sosa, que demonstra rapidamente interesse na jovem enfermeira, a qual não hesita em corresponder aos encantos de seu pretendente. Não demora muito para que seus corpos estejam entregues um ao outro no quarto de um apartamento. E controversa pois seus trabalhos são completamente opostos: enquanto ela tenta a todo custo salvar a vida de seus pacientes, ele tenta lucrar com a possível morte de algumas dessas pessoas (e eventualmente causa propositalmente os acidentes em busca da melhor indenização possível). Por descobrir essas armações com a morte de um paciente, Luján decide banir Sosa de sua vida.

Nesse momento vale o destaque para as atuações de Darín e Gusmán, visto que passam com extrema competência e veracidade todos os sentimentos das personagens como indivíduos e casal e criam uma relação totalmente crível. Algo que evolui para muito além da carne, pois é evidente todo o amor envolvido, principalmente após reatarem, quando os espectadores terão vários momentos de sorriso bobo ao evidenciar os dois em cenas de profunda conexão e afeto.

O ponto mais interessante da obra, no entanto, fica a cargo da particularmente eficiente fotografia de Julián Apezteguia. Presente em praticamente toda a película, a fotografia agrega mais do que simplesmente uma beleza técnica, possui um importantíssimo papel dentro da narrativa e complementa com maestria o roteiro. As diversas cenas nas quais as personagens, em especial Luján e Sosa, encontram-se conversando em algum local passam constantemente a sensação de que estão aprisionados, como se fossem reféns do atual momento de suas vidas e/ou profissão.

Pode-se citar, por exemplo, a cena do primeiro encontro de Luján e Sosa, onde estão tomando um café enquanto olham pela janela e acompanham o movimento do trânsito. As barras da estrutura da janela passam a clara impressão de que ambos estão presos, impedidos de saírem daquela vida por mais que queiram. Um simbolismo que é válido em equidade, pois apesar de Sosa estar envolvido com uma máfia (organizações que sabemos a dificuldade de se desligar totalmente), Luján trabalha todos os dias da semana quase sem folga e está sempre cansada por conta da exaustiva rotina do hospital, mas precisa acumular o maior número de horas possíveis para que tenha mais chances de efetivação no cargo.

Através da fotografia, com uma análise atenta, é possível perceber qual caminho a trama pretende traçar e o que o futuro reserva para os protagonistas, já que Apezteguia entrega, mesmo que sutilmente, a intenção do roteiro para com as personagens. Não me prolongarei muito mais sobre o assunto a fim de evitar spoilers, porém a dica aos que pretendem assistir a obra é prestar bastante atenção em sua fotografia.

Abutres conta uma improvável história de amor entre duas pessoas que possuem profissões com objetivos totalmente opostos em uma realidade dura e visceral. Apesar de um ambiente pouco favorável para o desenvolvimento de um conto amoroso, a competência da direção torna a façanha possível, especialmente através da excelente fotografia, e o resultado é um ótimo filme sobre esse universo indenizatório e a máfia argentina dos acidentes.

Abutre (Carancho) — Argentina, Chile, Coréia do Sul, França, 2010
Direção: Pablo Trapero
Roteiro: Pablo Trapero, Alejandro Fadel, Martín Mauregui, Santiago Mitre
Elenco: Ricardo Darín, Martina Gusmán, Carlos Weber, Fabio Ronzano, José Luis Arias, Loren Acuna, Gabriel Almirón, José Manuel Espeche
Duração: 107 minutos

RODRIGO PEREIRA . . . Certa vez um grande amigo me disse que após entendermos o que estamos assistindo, o cinema se torna uma experiência ainda mais fascinante e fantástica. Não poderia estar mais correto. O tempo passou e a vontade de me aprofundar cada vez mais só aumentou. Hoje, vejo no cinema muito mais do que meramente entretenimento, é um maravilhoso artifício que encanta, emociona, provoca e possui um grande potencial de transformação social. Pode me encontrar em alguma aventura pela Terra Média, lutando ao lado da Aliança Rebelde, tentando me comunicar com Heptapods ou me escondendo de Jack Torrance no labirinto de um fauno em alguma linha temporal criada por Dr. Brown e Marty McFly.