Crítica | Aconteceu Naquela Noite

estrelas 5,0

Aconteceu em quatro semanas. Frank Capra gravou o filme que ia encantar gerações e dar o tom para futuras produções de comédia romântica, com um orçamento enxuto e um cronograma apertadíssimo. Com base no conto de Samuel Hopkins Adams, Capra dirigiu Clark Gable em um dos poucos papéis que fogem da estirpe de galã com a qual o ator havia sido carimbado.

Gable interpreta Peter, um jornalista respondão que acaba de ser demitido. Ele gosta de beber e não tem meias palavras, mas que percebe que tem um furo nas mãos e vai fazer o possível para reaver o emprego com alto estilo. Para isso, ele tem de suportar as manias de Ellie, uma mulher mimada, filha de um milionário, interpretada por Claudette Coubert. Sim, você já viu alguns filmes que beberam deste enredo, mesmo que tenha sido uma gota apenas ou vários litros.

E o motivo é simples. Este filme se tornou uma referência para a dinâmica de casais na tela e é revisitado pelo cinema desde então. Casais que se estranham de início e parecem se odiar, mas que por conta de uma proximidade forçada pelo acaso acabam caindo de joelhos um pelo outro, sentiu o drama né?! Foi assim com A Princesa e o Plebeu (1953) e Como Arrasar um Coração (2010), para citar extremos temporais.

Mas ainda há outros como: Um Dia Especial (1996) onde George Clooney é um jornalista que tem de passar o dia enrolado com as idas e vindas de Michelle Pfeiffer. Já em Vida Bandida (2001) tem uma cena claramente em referência a Aconteceu Naquela Noite, na qual Bruce Willis e Cate Blanchett armam um muro de Jericó entre eles com uma coberta.

O lucro para o diretor foi de 50 dólares e este pequeno filme da Columbia surpreendeu a todos ao ser indicado para as principais categorias da sétima edição do Oscar, em 1935, e ainda mais quando subiu ao palco para receber as 5 estatuetas.

Entre os concorrentes estavam Cleópatra e Imitação da Vida, ambos interpretados por Claudette Coubert, que era uma das mais prestigiadas atrizes de Hollywood à época, e ainda assim temia que perderia o Oscar de Melhor atriz para Bette Davis. Ela cobrou o dobro do cachê habitual para estar no filme de Capra, só tinha quatro semanas livres, e não demonstrou nenhuma simpatia durante as filmagens, mas o que vemos é pura química entre ela e Clark Gable.

São muitos os pontos à favor deste filme. Ele é um road movie despretensioso e cheio de detalhes humorísticos e ao mesmo tempo bastante arraigado na humanidade dos personagens, à primeira vista muito bem etiquetados como: malandro e mimada. Mas Capra consegue ir além da superfície e criar simpatia e tensão sexual entre as personagens. As meias no muro de Jericó, erguido para proteger a pureza da donzela, são uma comprovação dessa quebra de pudores.

A cena que marcou época, de Colbert levantando a saia para mostrar a Gable como se faz para conseguir uma carona tem reflexos sobre como a mulher passava a se tornar a protagonista da sua própria história. Sim, havia o casamento e o homem impregnados ali, mas havia também uma vontade extrema de independência. Independência para fazer as próprias escolhas e ser mais do que um troféu para os pais ou maridos. Por isso, mesmo mimada ela se saiu bem ao fugir do casamento, como uma Noiva em Fuga (1999) imitaria anos mais tarde.

Aconteceu Naquela Noite (It Happened One Night, EUA – 1934)
Diretor: Frank Capra
Roteiro: Robert Riskin (baseado no conto de Samuel Hopkins Adams)
Elenco: Clark Gable, Claudette Colbert, Walter Connolly, Roscoe Karns, Jameson Thomas, Alan Hale, Arthur Hoyte, Blanche Friderici, Charles C. Wilson
Duração: 105 min.

GABRIELA MIRANDA . . . Cinéfila inveterada, sigo a estrada de ladrilhos amarelos ao som de Jazz dos anos 20 enquanto escrevo meu caminho entre as estrelas. Com os diálogos de Woody Allen correndo soltos na minha cabeça, me pego debatendo entre gostar mais do estilo trapalhão ou de um tipo canalha de personagem. Acima de tudo, acredito que tenho direito de permanecer com minha opinião. Mas acredite, nada do que eu disser poderá ser usado contra os filmes.