Crítica | Across The Universe

Across The Universe

estrelas 4

“Todo texto se constrói como mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de outro texto”, afirmou a escritora Julia Kristeva no livro Introdução à semianálise. Este tipo de atividade é o que a cineasta Julie Taymor faz com maestria em Across The Universe: um exercício incrível de recriação dos Estados Unidos nos idos da década de 1960, época conturbada devido aos conflitos internos e externos que aplacavam a sociedade, tendo como base o extenso repertório musical do fenômeno The Beatles.

O musical retrata a história de amor entre Jude (Jim Sturgess) e Lucy (Evan Rachel Wood). Ele é um jovem rapaz de Liverpool que um dia decide partir para os Estados Unidos, interessado em conhecer o seu pai. Ao chegar ele conhece o irreverente Max (Joe Anderson), ambos tornam-se amigos, o que por tabela o levará a Lucy, uma enérgica garota envolvida num movimento pacifista do bairro que mora.

 Vai ser nesta jornada de autoconhecimento que o rapaz também conhecerá os demais integrantes da linha de frente do filme: Sadie (Dana Fuchs), o músico Jo-Jo (Martin Luther McCoy) e Prudence (T.V. Caprio). Libertários e pacifistas, os personagens representam uma época de intensa profusão cultural. Jack Kerouac e seu On The Road, Aldous Huxley e seu Admirável Mundo Novo, as letras não conformistas de Bob Dylan, Judy Davis e Joni Mitchell, a postura “selvagem” de Jimi Hendrix, o movimento hippie e o Flower Power, dentre tantos outros acontecimentos marcantes.

Como estamos diante de um musical, impossível analisar sem se deter aos principais números. No geral todas as apresentações são belas, graças ao ótimo design de produção, um mergulho nos elementos da arte psicodélica. Let It Be, o mais emocionante segmento musical, nos fala sobre tempos difíceis, a necessidade de fé e o sentimento de esperança. A canção é apresentada num formidável paralelo: enquanto assistimos a uma criança negra chorar e depois aparecer morta num velório, a narrativa foca no enterro de um rapaz branco oriundo da guerra, a receber toda a assistência por ter servido aos militares.

Em I Am The Walrus, canção irônica escrita por John Lennon, o psicodelismo e as cores vibrantes dialogam, transformando as imagens numa espécie de composições de pinturas exuberantes. O mesmo estilo é adotado em Strawberry Fields Forever, trecho que nos remete aos trabalhos de Andy Warhol.  Dear Prudence surge como um hino para a contestação do povo cansado dos conflitos sociais e das suas consequências.

Nenhum destes números, entretanto, tem a força metafórica de I Want You, trecho que resgata o famoso personagem Tio Sam, talvez a maior publicidade de guerra da história moderna, utilizado em 1917 pelas Forças Armadas dos Estados Unidos, interessadas em recrutar soldados para a Primeira Guerra Mundial. O cartaz com o personagem já cristalizado pela memória coletiva traz a sentença imperativa que nomeia a apresentação musical. Os personagens recrutados são embalados, jogados numa esteira, carimbados, em suma, além de empolgante musicalmente, o trecho é denso no que tange aos aspectos da carga dramatúrgica do filme, haja vista o roteiro simplório.

Across The Universe traz todo o talento de Julia Taymor na direção. A profissional, responsável pela cinebiografia da artista Frida Kahlo e pela adaptação de O Rei Leão para os palcos da Broadway, também assina o roteiro, juntamente com Dick Clement e Ian La Frenais, num enredo que traz participações especiais de Joe Cocker, Bono e Salma Hayek.

A história é simplista e a montagem deveria ter se preocupado em reduzir o filme, pois são 133 minutos que tranquilamente se adaptariam num formato menor. Mesmo com estes “detalhes”, Across The Universe possui a vantagem de ser um musical que vai além dos interessados na “boy band” que sacudiu o planeta e se tornou uma das maiores referências da cultura pop.

Across The Universe (Across The Universe) – EUA/2007
Direção: Julie Taymor
Roteiro: Dick Clement, Ian La Frenais, Julie Taymor
Elenco: Dana Fuchs, Evan Rachel Wood, Jim Sturgess, Joe Anderson, Lisa Hogg, Martin Luther, Spencer Liff, T.V. Carpio
Duração: 133 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.