Crítica | Action Comics #1000

Conjunto da obra:

Manter uma publicação viva continuamente por 80 anos é uma tarefa que poucos conseguem. Se um periódico diário ou semanal tem o dia-a-dia para alimentá-los, uma HQ precisa de um time criativo em suas duas pontas principais – roteiro e arte – para que seja possível produzir novas histórias constantemente. E, ao longo de oito décadas, hábitos mudam, ideais mudam, a economia muda, o mundo muda, com cada mudança afetando, de uma forma ou de outra, a publicação. Mais do que isso tudo, para uma HQ viver por tanto tempo, ela precisa de uma âncora, de algo realmente especial, de algo que sim, é uma raridade: um personagem que seja tão amado, mas tão amado que a manutenção da revista em publicação contínua tornar-se algo natural para a editora. Seria impensável o contrário.

Esse é o caso de Action Comics e esse é o caso do Superman. O veículo e o personagem se confundem aqui, ambos servindo como marcos iniciais de todo o gênero de quadrinhos de super-heróis como nós os conhecemos hoje. Tenho plena consciência de que Action Comics não foi a primeira HQ e Superman não foi o primeiro super-herói, mas, se olharmos para trás, o efetivo marco zero da indústria de quadrinhos e, mais especificamente, a indústria de quadrinhos de super-heróis se deu naquele longínquo 18 de abril de 1938, quando chegava às ruas uma revista colorida com um sujeito vestido de azul e vermelho levantando um automóvel verde como se fosse a coisa mais fácil do mundo. Oitenta anos se passaram e o Superman continua firme e forte no imaginário popular, inspirando novas criações, fomentando o prazer da leitura e gerando infinitos derivados.

E, em 18 de abril de 2018, a Action Comics chega a seu marco de MIL edições. Novamente, há outras publicações em quadrinhos com mais edições como a 2000 AD e a impressionantemente longeva The Beano, mas, por mais importantes que elas sejam, Action Comics merece a coroa de mais influente, de mais citada, de mais copiada, de mais adorada publicação imortal já feita. E isso, vejam bem, vem de um crítico que nunca gostou tanto assim do Superman. Mas há que se reconhecer esse divisor de águas incontestável.

Em comemoração, a DC Comics lançou, no exato dia de aniversário da publicação, uma HQ especial, de mais de 90 páginas, com diversas histórias escritas e desenhadas por um batalhão de medalhões do meio. Um sem-número de capas alternativas foram providenciadas, algumas não só exclusivas de determinados revendedores, como também de certos países, tornando a caça pelo conjunto completo uma tarefa hercúlea e, claro, bem cara (o preço de capa da revista padrão, em vista de seu tamanho avantajado é de nada baratos US$ 7.99). A estratégia deu certo e as encomendas nos EUA forma de estratosféricos 500 mil exemplares o que é, para título de comparação, algo como cinco vezes mais que uma publicação blockbuster vende por lá. Nada mal para um senhor de 80 anos que veste collant azul e cuecão vermelho por fora, não é mesmo?

Aliás, como parte da estratégia de marketing, o polêmico calção vermelho volta ao uniforme do herói, revertendo-o quase que integralmente à sua forma clássica que, confesso, jamais deveria ter deixado. Outro elemento de “venda” da revista foi que ela contém a primeira história escrita por Brian Michael Bendis para a DC Comics, depois de quase 18 anos revolucionando a Marvel Comics. Ou seja, é uma publicação importante de várias maneiras. Mas será que ela é boa? Essa, talvez, seja a pergunta realmente definidora e a resposta que todos queiram.

E há duas respostas para essa pergunta, a longa e a curta. A curta é que sim, Action Comics #1000 é uma edição para ser guardada próxima do coração não só por ser absolutamente eficiente em ser o que pretende ser, ou seja, uma baita homenagem ao Azulão, como também por suas histórias conseguirem, em linhas gerais, capturar magnificamente bem – umas mais, outras menos, claro – o que faz do Superman o Superman. O desfile de roteiristas derramou inspiração em narrativas simples, mas gostosas de ler e o time artístico estava realmente inspirado em trabalhar o Superman de várias maneiras diferentes, mas sempre capturando sua imponência e importância ao longo das décadas.

A resposta longa é… bem… longa. E só pode ser dada com análises de cada história dentro da HQ. Vamos lá?

From the City that Has Everything

A primeira história que, claro, brinca com o título de uma das melhores histórias do Superman, Para o Homem que Tem Tudo, lida com Metrópolis querendo agradecer o Superman por tudo o que ele fez pela cidade e pelo mundo, instituindo o Dia do Superman. Claro que o herói não se sente bem em receber esse tipo de agradecimento e ele ainda tem que enfrentar uma invasão alienígena à Terra, mas Lois Lane e seu filho Jon insistem em sua presença.

Com relatos de pessoas que devem sua vida ao Superman e com a ajuda de seus amigos, o que Dan Jurgens quis fazer, aqui, foi tirar algumas lágrimas do leitor. A simplicidade é a ordem do dia e essa simplicidade está tanto no roteiro quanto na arte (do próprio Jurgens), assim como no espírito humilde do Superman que simplesmente não compreende a magnitude do que ele significa para os outros, para as pessoas comuns.

A história, que abre a HQ, é um lembrete do que o Superman significa. E não é pouco.

Never Ending Battle

Narrada pelo Superman, que está tentando chegar em casa para comemorar seu aniversário com a família, a história é brilhantemente simples: usando Vandal Savage como o inimigo que coloca o Superman em um loop temporal no passado, Peter J. Tomasi nos faz caminhar pela evolução do super-herói desde os anos 30 até hoje em dia, com a arte de Patrick Gleason trabalhando o Superman e todo o pano de fundo de acordo com a época retratada, com as respectivas alterações de uniforme.

Em 15 rápidas páginas, passeamos não só pela continuidade normal do herói, como também por universos paralelos como os clássicos Batman – O Cavaleiro das Trevas e Reino do Amanhã, passando pelo uniforme preto, pelo uniforme sem cuecão vermelho e assim por diante. É uma história que deixa o leitor desesperado para ler Superman desde seus primórdios até hoje em dia. E isso é muito mais do que Tomasi tinha direito de fazer com uma quantidade tão pequena de páginas.

An Enemy Within

A terceira história do Superman não tem o Superman. Ou melhor, ele apenas narra a história informando que está no Japão, mas acompanhando o dramático caso de um diretor de escola que usa seus alunos como refém. De certa forma, o texto de Marv Wolfman é a antítese da primeira história, já que lá Metrópolis agradece a importância do herói. Aqui, é o herói agradecendo a importância da bondade e perseverança humanas, reconhecendo que ele não pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo.

Com isso, mesmo criando uma conexão entre o evento em Metrópolis e a ameaça que não vemos no Japão, o destaque fica mesmo com a capitã de polícia Maggie Sawyer, que faz de tudo para resolver a questão sem vítimas, sem sequer colocar o aparente criminoso em perigo. E o resultado agrada muito, pois é algo que é muito trabalhado na mitologia do Supermn, sua inerente confiança na Humanidade, algo que nem nós humanos temos de verdade.

O problema da história fica por conta da arte de Curt Swan (falecido em 1996, com a história sendo dedicada a ele), de uma história sua que jamais foi publicada. O tom é mais sombrio do que talvez fosse necessário e a progressão de quadros é burocrática e, mesmo com a história muito curta, cansativa.

The Game

Lex Luthor não poderia ser deixado de fora de uma comemoração dessas e a quarta história o tem como antagonista, mas não em um combate épico ou algo do gênero. O jogo em The Game é, pura e simplesmente, uma partida de xadrez entre os inimigos no telhado da Lex Corp, em uma história que acontece em algum momento do passado do Superman. Paul Levitz e Neal Adams brincam com o lado escoteiro do Superman, honesto, mas esperto, e com o lado vilanesco de Luthor, orgulhoso, mas sem escrúpulos.

Tudo transcorre de maneira absolutamente benigna, sem que um soco sequer seja dado em uma narrativa muito rápida, mas que estabelece muito bem a rivalidade dos dois. A forma como o Superman escapa da armadilha de Luthor é boba, mas dentro do espírito da época em que a história se passa, pelo que o espírito da brincadeira é bem capturado.

The Car

Sabe aquele carro verde famoso da capa de Action Comics #1? Pois bem, este é o carro de The Car, historieta escrita por ninguém menos do que Geoff Johns em dupla com Richard Donner. E ainda com arte de Olivier Coipel. Ou seja, é uma leitura essencial.

Afinal, saber que fim levou o automóvel depois que o Superman o arremessa é algo que simplesmente PRECISÁVAMOS saber. E os roteiristas trabalham isso com facilidade, primeiro brincando com o desconhecimento do público em geral sobre esse “cara vestindo cueca vermelha”. Depois, ele mostra o poder da palavra. Superman bate forte, mas seu grande traço é sua compaixão e é ela que transparece muito claramente aqui, mudando vidas.

A arte de Coipel é belíssima, emulando 1938, mas naquele seu estilo limpo, mas detalhado de ser, com um Superman “das antigas” modernizado, mas respeitando 100% o original. É como voltar no tempo.

The Fifth Season

Mais Lex Luthor e, aqui, o foco é no que o vilão faz de melhor: falar. No planetário de Smallville, passado e presente se encontram em um texto esperto de Scott Snyder que evoca exatamente o que faz de Lex Luthor o mais interessante vilão do Superman em uma história que começa no meio e mal termina e que envolve objetos estranhos citados a esmo e que parecem que não levam a lugar nenhum.

Mas é só aparência, pois a leitura com mais calma nos leva a um conflito entre dois amigos-inimigos que existe desde que os dois se conheceram. Há a rivalidade, mas há o respeito. E, sobretudo, há a arte de Rafael Albuquerque que ajuda a capturar a psiquê de Luthor, convertendo as palavras de Snyder em uma versão fascinante do personagem, mesmo que só por cinco páginas. Seu Superman é imponente, mas sereno, um homem que até parece cansado, mas que não resiste ao charme de seu nêmesis.

Of Tomorrow

O “amanhã” do título é longínquo… Muito longínquo. Afinal, a história se passa pelo menos 4 bilhões (com “b” mesmo) anos depois que a Terra foi abandonada em razão da dilatação e contração do sol. Mas Superman ainda está lá, visitando o túmulo de seus pais. São cinco páginas que mais do que evidenciam o amor do herói pela Terra e por seus pais adotivos em uma historieta ao mesmo tempo ambiciosa e prosaica. Tom King escreve pouco, mas escreve perfeitamente e aarte de Clay Mann é mais do que eficiente em, escondendo o rosto do Superman, deixando os sentimentos vazarem fortemente.

Uma prova que uma história não precisa de muito para impressionar.

Five Minutes

Kent tem cinco minutos para terminar seu artigo que capeará o Planeta Diário do dia. Mas Superman tem que lidar com uma pletora de situações extremas nesse mesmo tempo. Apenas mais um dia na vida do herói de vida dupla que, claro, compensa tudo com sua super-velocidade e infinita vontade de fazer tudo por todos. Louise Simonson escreve um texto esperto e divertido que Jerry Ordway desenha em estilo clássico em uma história que já vimos antes algumas vezes, mas que nunca cansa.

Actionland

Uma história que começa como uma visita a um museu sobre a vida do Superman e acaba como uma viagem quase lisérgica com um dos mais irritantes vilões do heró, o Sr. Mxyzptlk, aquele baixinho interdimensional que dá vontade de socar toda vez que eu o vejo. Mas, curiosamente, a história grandiosamente pequena de Paul Dini lida com a megalomania do vilão de maneira eficiente, ao mesmo tempo que nos faz passear por boa parte da história do Superman, algo que fica ainda melhor com a arte do incrível José Luis Garcia-López trabalhando no estilo clássico da Era de Prata.

Faster than a Speeding Bullet

Uma história que se passa no tempo em que uma bala leva para sair do cano de uma pistola. Uma premissa nota dez que não só lida com a absurdamente ridícula velocidade do Superman (Flash, se cuida!), como também com o orgulho que ele sente dos humanos. Brad Meltzer resume muito bem quem é o Superman aqui e ainda faz algo para tirar uma lágrima: dedica a história a Christopher Reeve. Impossível não aplaudir de pé.

The Truth

A última história de Action Comics #1000 é a grande estreia de Brian Michael Bendis na DC Comics, ao lado do mais superestimado artista dos quadrinhos, Jim Lee, o cara que desenha mais detalhes do que há de detalhes na vida real em cada mícron quadrado de uma página (estou só pegando no pé, pois eu gosto do jeito enlouquecido que ele desenha). Aqui, a dupla introduz um novo vilã, o monstruoso e extremamente poderoso Rogol Zaar, que parece ter como única função eliminar todos os kryptonianos do universo e, aparentemente, Superman e Supergirl são os dois que faltam.

A história, assim, é a típica “pancadaria non-stop”, algo que Jim Lee usa ao limite para mostrar sua bela (mas tumultuada) arte. Bendis, por sua vez, divertiu-se com o texto, já que ele gasta vários balões de diálogo para brincar com a volta da cueca vermelha por cima da calça, com duas mulheres conversando sobre o assunto enquanto escondem o Superman desfalecido nos escombros do lugar onde trabalham.

De todas as histórias, essa é a única que deixa as portas abertas para uma continuação, funcionando como um tira-gosto do trabalho que a dupla terá na minissérie Man of Steel, em seis edições. O mistério, que envolve, claro, o fim de Krypton, parece cansativo de tão clichê, mas se Bendis e Lee continuarem nessa pegada cômico-destrutiva, já será justificativa o suficiente para acompanhar o que vem por aí.

Action Comics #1000 (EUA, 2018)
Roteiro: Dan Jurgens, Peter J. Tomasi, Marv Wolfman, Paul Levitz, Neal Adams, Geoff Johns, Richard Donner, Scott Snyder, Tom King, Louise Simonson, Paul Dini, Brad Meltzer, Brian Michael Bendis
Arte: Dan Jurgens, Patrick Gleason, Curt Swan, Olivier Coipel, Rafael Albuquerque, Clay Mann, Jerry Ordway, José Luis Garcia-López, John Cassaday, Jim Lee
Arte-final: Norm Rapmund, Butch Guice, Kurt Schaffenberger, Kevin Nowlan, Scott Williams
Cores: Hi-Fi, Alejandro Sanchez, Dave McCaig, Jordie Bellaire, Trish Mulvihill, Laura Martin, Alex Sinclair
Letras: Rob Leigh, Tom Napolitano, Dave Sharpe, Nick Napolitano, John Workman, Carlos M. Mangual, Josh Reed, Chris Eliopoulos, Cory Petit
Editora original: DC Comics
Data original de publicação: 18 de abril de 2018 (mês de capa: junho de 2018)
Páginas: 93

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.