Crítica | Adam Strange: Origem e Primeiras Aventuras (Showcase #17 a 19)

Adam Strange foi o resultado mais famoso de uma encomenda bem específica do editor-chefe Irwin Donenfeld, da DC Comics, a seus editores Jack Schiff e Julius Schwartz. A missão era criar dois novos personagens com raízes na ficção científica, um do futuro e um do presente. Schiff, então, criou o Ranger do Espaço (Space Ranger no original), herói do século XXII que debutou na Showcase #15 e 16, de agosto e outubro de 1958 e, depois, foi transferido para Tales of the Unexpected, a partir da edição #40, de agosto de 1959. Por sua vez, Julius Schwartz, um dos mais importantes criadores da editora à época, concebeu Adam Strange, arqueólogo do presente que é teletransportado para Rann, planeta orbitando Alfa-Centauro, que ganhou estreia na mesma Showcase, só que na edição #17, de dezembro de 1958, ficando por lá até o número 19 e, com o sucesso, ganhando longevo espaço na Mystery in Space, das edições #53 a 100 e 102.

Curiosamente, os dois heróis são muito parecidos conceitualmente e ambos foram escritos originalmente por Gardner Fox, o prolífico autor que criara Sandman (Wesley Dodds) em 1939, a Sociedade da Justiça, Flash (Jay Garrick) e Gavião Negro em 1940 e que criaria a Liga da Justiça, em 1960. No entanto, Adam Strange é o que acabou ganhando mais tração ao longo dos anos, ainda que ele tenha permanecido um herói menos conhecido e aproveitado no universo DC. A Showcase, cuja edição #4 havia apresentado o novo Flash (Barry Allen) e, com isso, marcado a transição da Era de Ouro para a Era de Prata dos quadrinhos, tinha como objetivo servir de publicação-teste de novos personagens e geralmente contava com duas histórias em cada edição, não sendo diferente com Adam Strange cujo primeiro nome vem do Adão bíblico, uma alusão ao primeiro homem da Terra ser também o primeiro homem a ir para o espaço.

Sua origem se dá já na primeira história – O Segredo da Cidade Eterna (Secret of the Eternal City) que também estabelece a dinâmica que seria sua marca por muito tempo. Depois de descobrir a lendária cidade Inca de Caramanga, nas selvas do Peru e ser perseguido, aparentemente, por incas ainda vivos, Strange, desesperado, tenta pular um precipício, somente para, em pleno salto, ser misteriosamente teletransportado para 25 trilhões de milhas de distância, para Ranagar, no planeta Rann. Lá, ele faz amizade com Alanna e seu pai Sardath e descobre que sua chegada a Rann se deu pelo envio de raios Zeta para estabelecer comunicação com a Terra, raios esses que foram alterados por radiação espacial, convertendo-os em raios de teletransporte.

Vê-se, muito claramente, os resquícios da simplicidade narrativa da Era de Ouro no roteiro de Fox. Explicações exóticas, coincidências e, mais do que isso, a aceitação de situações bizarras por um Strange que reage a tudo como se estivesse na mais perfeita normalidade são as regras na aventura inaugural que coloca o herói, no melhor estilo Buck Rogers, Flash Gordon e John Carter (inspirações mais do que evidentes), como o salvador multi-uso e multi-habilidades do planeta que ele adotaria como seu de uma invasão alienígena em busca de um metal que só existe por lá. Aliás é essa a estrutura repetida exaustivamente: a cada vez que Strange é levado para Rann, ele fica por lá tempo suficiente para evitar alguma desgraça global, somente para ser arremessado de volta à Terra convenientemente quando tudo acaba, já que os raios Zeta perdem sua “força”, fazendo com que ele viaje pelo (nosso) planeta em busca dos lugares e momentos exatos em que novos raios “cairão”. É de revirar os olhos, mas faz parte do charme de vários dos heróis criados nessa época.

As capas das três edições da Showcase com Adam Strange.

Em O Planeta e o Pêndulo (The Planet and the Pendulum), ainda em Showcase #17, Strange recebe de Alanna seu icônico uniforme vermelho, com jatos que o permitem voar. É curioso notar como a arte de Gil Kane e Mike Sekowsky provou-se à prova do tempo aqui, com uma simplicidade tão eficiente que, mesmo com modificações nas décadas seguintes, a roupa espacial de Stranger permaneceu substancialmente a mesma. Paramentado também com uma pistola de raios, Strange mais uma vez chega para salvar Alanna e um planeta inteiro – Anthorann, colônia de Rann protegida por um domo impenetrável – de mais uma raça alienígena malvada que quer extrai algo de lá. É particularmente interessante e inadvertidamente engraçado ver a capacidade adaptativa do herói que maneja seu uniforme e sua mochila voadora como se fizesse isso há anos. O mesmo vale para sua compreensão sobre estratégia militar, astronomia e conhecimentos gerais, além da capacidade “macgyveriana” de consertar absolutamente qualquer coisa. Impedir invasões alienígenas é com ele, algo que mais ninguém do povo de Rann ou de Anthorann sequer chega perto de sequer imaginar em fazer.

Em Showcase #18, temos mais duas histórias: Invasores do Universo Atômico! (Invaders from the Atom Universe!) e As Dezenas de Destinos de Adam Strange! (The Dozen Dooms of Adam Strange!). Na primeira delas, temos mais uma invasão a Rann, só que, no lugar de uma raça espacial, Gardner Fox cria os Vrenn, seres subatômicos que, com a invenção deles batizada de Orkinomikron, reduz o tamanho da população do planeta e aumenta o deles, efetivamente trocando de lugar com o povo de Alanna. Claro que Strange é teletransportado de volta no momento exato para salvar todo mundo, usando seus conhecimentos multi-facetados sobre absolutamente tudo – inclusive, lógico, miniaturização – para reverter o quadro e mandar os Vrenn para onde vieram. Na história seguinte, a ameaça é interna, com Tak Vall, cientista da cidade-estado de Dys, em Rann, com planos de invadir Ranagar. Usando um plano brilhante de Alanna, que criara bonecos em tamanho real de Strange para as crianças brincarem (não vou nem discutir o quão surreal isso é!), Strange é enviado secretamente para Dys como um desses bonecos, com direito a mecanismo de dar corda em suas costas, de forma a espionar Tak Vall. As habilidades naturais de Strange como espião, mergulhador e especialistas em combustíveis e explosivos, logo resolvem a situação, somente para ele ser arremessado de volta à Terra quando tudo está mais uma vez calmo em Rann.

Na última edição de Showcase com Strange, mais duas aventuras nos são apresentadas. Na primeira, O Desafio do Caçador Estelar! (Challenge of the Star-Hunter!), Strange, que é teletransportado para Rann depois de surrealmente fingir fazer o truque indiano de subir na corda encantada (sério, de onde Gardner Fox tirou isso???), descobre que já foi escolhido pela população de Ranagar para representar o planeta em um desafio de campeões contra o alienígena Leothric que pode mudar sua forma para a de qualquer animal. O desafio dá a Strange – Alanna, como sidekick – três chances de localizar Leothric. Se Strange perder, Rann será colocado em animação suspensa. Se ganhar, não só Rann está livre de Leothric, como todo os planetas que foram dominados pelo invicto alienígena serão libertados. Aqui, o herói mostra que tem capacidades dedutivas dignas de Sherlock Holmes ou Hercule Poirot e, claro, sai vencedor. A história, no entanto, funciona bem em sua simplicidade, abrindo espaço para uma bela e criativa arte por parte de Gil Kane.

Finalmente, O Mistério da Ameaça Mental! (Mystery of the Mental Menace!) fecha o sexteto das histórias inaugurais de Adam Strange com uma meta-narrativa interessante: completamente auto-consciente de que toda vez que ele se teletransporta para Rann é para enfrentar uma ameaça gigantesca, Strange surpreende-se ao chegar lá e tudo estar aparentemente normal, com Alanna levando-o em um tour por diversas cidades do planeta que querem homenageá-lo por tudo o que ele fez. No entanto, em uma oportunidade perdida, o que começa inteligentemente cai na mesmice, com mais uma ameaça à Rann, desta vez um ser de energia pura (representada por um átomo gigante…) chamado Zakkad que vem de Ekelon, o planeta mais distante na órbita de Alfa-Centauro. Sua ambição é descobrir o segredo do teletransporte de Adam Strange da Terra para Rann e vice-versa para poder dominar o universo, algo que Strange impede com o mesmo esforço que o Superman empregaria para voar até a Fortaleza da Solidão. Mas pelo menos Strange e Alanna se beijam pela primeira vez!

Como todo herói de décadas de vida, Adam Strange sofreria um sem-número de alterações em sua mitologia, uma das melhores pelas mãos de ninguém menos do que Alan Moore. Nesse começo, porém, ele é pueril e simples como muitos personagens em quadrinhos desse começo da Era de Prata, ainda muito influenciada pela forma de se escrever da Era de Ouro. São histórias curtas que ainda divertem, especialmente se não as levarmos a sério e que, de toda forma, sedimentaram o caminho que o personagem seguiria ao longo de suas histórias solo e, mais importante ainda, de suas diversas participações especiais em grandes histórias futuras da DC Comics.

Showcase Presents Adventures in Other Worlds #17 e 18; Showcase Presents Adam Strange #19 (EUA – 1958/59)
Roteiro: Gardner Fox
Arte: Mike Sekowsky (#17 e #18), Gil Kane (#19)
Arte-final: Bernard Sachs, Joe Giella
Capas: Gil Kane
Editora original: DC Comics
Data original de publicação: dezembro de 1958, fevereiro de 1959 e abril de 1959
Páginas: 25 a 30 páginas por edição

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.