Crítica | Adaptação (2002)

Adaptação é um filme atordoante. A sua digestão não é das mais fáceis, haja vista o grau de complexidade das narrativas que se entrelaçam e a falta de clareza em alguns pontos que ficaram demasiadamente nonsense, o que pede um espectador disposto a três coisas básicas: desvencilhar do receituário de bolo proposto por Syd Field e Robert McKee, encarar quase 120 minutos de cenas que pedem acesso aos códigos metalinguísticos que tornam a experiência mais densa e compreensível, além de tentar ver (ou rever) Quem Quer Ser John Malkovich, produção que ganha ressonâncias em Adaptação e lhe ajuda a ganhar maior significação.

Se o espectador estiver disposto a entrar neste jogo, tenho certeza que a experiência será revolucionária. Dirigido por Spike Jonze e escrito por Charlie Kaufman, Adaptação trata de um tema já discutido no cinema, em especial, na indústria hollywoodiana: o bloqueio criativo diante da necessidade de criação. Com o criador sob bastante pressão e a criatura latente desejosa de vir ao mundo, ambos tomam a cena e transformam o conflito da existência em germinação narrativa.

É assim que adentramos em Adaptação. Ao longo dos seus 114 minutos, a trama nos apresenta a Charlie Kaufman (Nicolas Cage), um roteirista de sucesso que recebe a árdua missão de adaptar um livro para o cinema. A obra literária, chamada The Orchid Thief, escrito por Susan Orlean (Meryl Streep). Desesperado, Charlie entra em crise e o bloqueio criativo se estabelece, pois não consegue dar vida ao processo de escrita de uma adaptação tão complexa. A obra, sem linha narrativa e história central é algo considerado intransponível. O que fazer?

A história trata de um ambientalista malandro que ganha a sua vida com o roubo de plantas exóticas e/ou ameaçadas de extinção, presentes nos pântanos da Flórida. Com as características descritas anteriormente, a história “original” começa a dar calafrios em Kaufman, um homem que abomina os recursos narrativos basilares da cinematográfica popular hollywoodiana. Ele quer ousar, sair do lugar comum e dos paradigmas de escrita, mas precisa driblar primeiro o seu bloqueio e até mesmo ceder diante de alguns preconceitos, tendo que dialogar com os meios para continuar relevante.

Charlie é um personagem angustiante: tímido, constantemente perseguido pelo sentimento de rejeição, com sensação de baixa autoestima e autoconfiança. A sua complexidade atravessa o limiar da literatura e ganha a sua existência enquanto ser humano. Em seu filme anterior, o texto fazia uma reflexão sobre a incessante busca de algumas pessoas que focam no “outro” os anseios das coisas que a sua trajetória de vida lhe negou. O clima de análise das complexidades e tese sobre a consciência humana continua em Adaptação, conflituoso ao trazer o gêmeo de Kaufman, Donald (Cage, em duplo desempenho), presença indesejada que ao observar o que o irmão faz, decide também investir numa carreira de roteirista.

Ironicamente, seu irmão começa a frequentar as aulas de Robert McKee, conhecido como guru da escrita criativa e do cinema estadunidense, homem com opiniões opostas ao jeito de Kaufman enxergar e criar as coisas. Interpretado por Brian Cox, o professor que já foi consultor de numerosos projetos de cinema e televisão, com experiência na Disney e na Paramount, profissional que quando esteve no Brasil, destacou que nosso cinema precisa parar de explicar tudo e deixar espaço para o subtexto, responsável por formar pupilos que catalogam 60 Globos de Ouro e 170 estatuetas do Emmy, aceitou ser alvo das críticas do roteiro de Kaufman que, também ironicamente, fará uso da mesma linguagem que detona por meio de seu protagonista.

Narração em off? Por qual motivo? Flashback explicativo? Necessário ou descartável? Essas questões tocadas de maneira deliciosamente irônica pelo protagonista de Adaptação depois são parte integrante da discussão narrativa, num processo duplo de metalinguagem. Visualmente interessante, mas sem arroubos de composição, a direção de arte de K.K. Barret soma ao design do personagem, tal como a direção de fotografia de Lance Acord, eficiente ao captar o clima necessário para cada cena. A condução musical também funciona bem. O destaque estético, no entanto, fica por conta da edição de Eric Zumbrunnen, corajoso ao promover a junção de histórias tão díspares e construídas por meio de muitos pormenores, pequenos detalhes culpados pelo clima de atordoamento do filme, uma experiência muito confusa, entretanto, muito válida para quem reflete o cinema enquanto invenção da vida cotidiana.

Numa indústria conhecida por fornecer ao diretor o título de autor, Kaufman torna-se uma exceção neste jogo de poderes. É o que afirma Cecília Sayad no ensaio O Jogo da Reinvenção, publicado em 2008. Ganhador do Oscar por Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças e do BAFTA por Adaptação e Quem Quer Ser John Malkovich, Charlie Kaufman, na época, contou que as emoções que estão dispostas na narrativa são oriundas de acontecimentos da realidade, com certa adição de elementos ficcionais para funcionar como cinema.

Adaptação — (Adaptation) Estados Unidos, 2002.
Direção: Spike Jonze
Roteiro:  Charlie Kaufman, Donald Kaufman
Elenco:  Agnes Baddoo, Brigitte Bogle, Cara Seymour, Caron Colvett, Chris Cooper, Jane Adams, Jim Beaver, John Cusack, Maggie Gyllenhaal, Meryl Streep, Nicolas Cage, Ray Berrios, Rheagan Wallace, Tilda Swinton
Duração: 114 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.