Crítica | Adeus à Linguagem

estrelas 5,0

Na atualidade, com a redefinição das técnicas e os avanços tecnológicos, que se dão de uma forma intensa desde o os últimos anos do século XX e o início do XXI, o mundo passa por uma reformulação de funções e interações; encurtam-se as distâncias e há uma maior praticidade para lidar com questões técnicas. É o tempo das redes sociais, dos celulares polivalentes, a imagem em movimento torna-se mais comum, portátil nas mais diversas formas de representação pessoal, que acompanham o mundo contemporâneo. A linguagem em si, como era conhecida começa a sofrer alterações, torna-se mais simples, imaterial, fragmentada em signos desconhecidos por componentes dos tempos anteriores; as ideias começam a transcender os livros, os filmes desprendem-se das películas, transformando-se em arquivos digitais e a mudança da linguagem como se conhecia até então, torna-se cada vez mais evidente ao passo que os meios que levam à comunicação entre as pessoas já não são mais os mesmos. É em um mundo como esse em que se insere brilhantemente o filme Adeus à Linguagem de Jean-Luc Godard, filmado em 3D, recurso do cinema que ele explora, buscando mais formas de exprimir o que pensa com imagens.

 A decupagem favorece características que só seriam possíveis com o 3D, como a fusão, que produz no espectador a sensação de estrabismo, repetida constantemente no filme. A terceira dimensão também é explorada através da aproximação de alguns objetos em primeiro plano, contrastando com o afastamento de alguns; toda esta organização se dá a partir do princípio de que Godard quer romper com a linguagem. Como alguém que sempre escreveu com imagens, desde que começou a se interessar por cinema frequentando cineclubes, o cineasta propõe-se a qualquer coisa, explorando um novo território cinematográfico, propõe-se a destruir e reconstruir conceitos, acompanhando as mudanças que o cinema começou a enfrentar no início do século XXI e, com isso, refletindo sobre a comunicação humana.

 Apresenta, ao longo do filme elementos para que o espectador conclua algo, tais como a abordagem da teoria literária, a escrita de livros, como no exemplo de Frankenstein, ao citar a criação do livro por Shelley, que é representada escrevendo à pena uma das maiores obras do ultrarromantismo. A escrita por si já remete ao início da linguagem, sendo uma forma milenar de registro de ideias humanas e Godard contrasta isso com a visão do animal, o cão Roxy, que estaria despido da consciência que cega os seres humanos e, assim seria mais capaz de compreender a linguagem do mundo, ouvindo o clamor dos rios e outros que se perdem pela natureza, ignorados muitas vezes pelas ideias que a comunicação entre os humanos produziu. É semelhante ao filósofo, que busca conhecer as almas alheias e os acontecimentos que passam despercebidos pelos signos que criamos e tenta ser capaz de conhecer o mundo pelos impulsos que surgem de sua inquietação; porém, a linguagem lhe dá base ideológica para a definição do mundo e de outras pessoas, mas nunca formas maiores de conhecer a si mesmo, afastando-nos assim eternamente da liberdade.

 Além dos questionamentos ideológicos, Godard propõe esta reformulação com base em semiologia e impressões sensoriais, como as crianças jogando os dados, fazendo referência à célebre citação de Albert Einstein de que Deus “não joga dados”, indo contra a aleatoriedade dos acontecimentos e propondo que tudo tem alguma razão na natureza, ainda que algumas vezes, passe despercebida. Outra mais evidente é o ato de lavar as mãos em meio às propostas do “adeus”. Também, o espectador vê representada na tela a sensação de sinestesia, pelas cores estridentes e pela associação das mesmas com as teclas de piano. Estas questões, conjugadas à linguagem verbal e visual propõem uma revisão de outra linguagem, mais oculta, presente na consciência humana: a ligação entre signos e conceitos ou entre sensações, que são, ainda que mais complexas, conjugações de conceitos humanos acumulados ao longo de nossa História através de diversas referências.

O filme cumpre a proposta, fazendo-nos ver o quão distantes estamos da realidade das coisas e como as ideias que fazemos nos atrapalham a alcançar o que queremos mais do que libertam. Godard se faz contemporâneo ao propor a ruptura com  personagens, tão presentes nas narrativas e nos propõe a pensar sobre o futuro da comunicação entre as pessoas, causando uma inquietação interna compatível aos efeitos estrábicos da incorporação da terceira dimensão ao seu cinema. Evidentes na construção técnica, ideológica e sensorial de sua sinfonia de linguagens.

Adeus à Linguagem (Adieu au langage – França/ Suíça, 2014)
Direção:
 Jean-Luc Godard
Roteiro: Jean-Luc Godard
Elenco: Héloïse Godet, Kamel Abdeli, Richard Chevallier, Zoé Bruneau, Christian Gregori, Jessica Erickson
Duração: 70 min.

JULHIA QUADROS . . . . Com experiências prévias com Dança, que pratica há quinze anos, e Poesia, com algumas obras publicadas em livros, estuda cinema é amante de música, teatro e todos os tipos de artes. Gosta de escrever como uma contribuição ideológica para o mundo e busca, com os seus textos, trazer um novo olhar para os filmes abordados através de sua opinião.