Crítica | Adoradores do Diabo (1987)

Os anos 1980 ficaram demarcados por uma busca incessante por popularidade, sucesso e dinheiro. Muitos filmes embarcaram nesta questão como parte dos conflitos dramatúrgicos de suas estruturas, tendo em vista uma análise moralista e cristã dos problemas decorrentes da ganância. Em sua maioria, personagens comuns são envolvidos numa teia maligna oriundas de seitas que promoviam aos pobres mortais os seus desejos mais obscuros. Alguns se envolvem porque realmente procuram alternativas para as suas vidas sem emoção e perspectiva, outros, por sua vez, acabam envolvidos nas artimanhas alheias, solapados por trapaças malignas.

Adoradores do Diabo faz parte do segundo caso. Com título nacional extremamente oportunista e dirigido por John Schlesinger, cineasta ganhador do Oscar por Perdidos na Noite, a produção teve como guia o roteiro escrito por Mark Frost, inspirado no livro Religion, de Nicholas Conde, romance baseado no caso real de dois assassinos em série, Adolfo Constanzo e Sara Aldrete, criminosos que alegaram as mortes em prol da prática da “Santeria”, religião que tem como característica a mixagem entre elementos do catolicismo com aspectos específicos das crenças de matriz africana, importadas por ancestrais trazidos ao longo da história dos Estados Unidos.

Com adeptos da comunidade hispânica, os rituais que mesclam danças evocativas, adoração de imagens e sacrifício de animais já foi representado em outros filmes da mesma linhagem. As Bodas de Satã, A Irmandade de Satanás e A Sétima Vítima são alguns exemplos pontuais. Mapeada em pontos geográficos frutos da colonização, tais como Brasil, Cuba, Panamá, Porto Rico e República Dominicana, os processos metodológicos de seus rituais também já foram apresentados em A Maldição dos Mortos Vivos, Coração Satânico, O Mistério de Candyman, A Chave Mestra, dentre outros.

No filme, Carl Jameson (Martin Sheen) é um homem que sofre por conta da trágica morte de sua esposa, envolvida num misterioso acidente doméstico. Para melhorar a sua condição de vida, Jameson se muda para Nova Iorque com seu filho Chris (Harley Cross) e até se permite um relacionamento amoroso com Jessica (Helen Shaver), dona do apartamento alugado no grande centro urbano que agora é sua moradia. Ao arranjar emprego como psicólogo da polícia, as coisas parecem dar continuidade em sua vida, até que diversas situações demonstram que algo está muito errado ao se redor: desde uma concha encontrada junto a um gato morto aos segredos obscuros de um policial latino chamado Tom Lopez (Jimmy Smitz), envolvido em práticas de Santeria. Nenhum elemento posto no caminho do protagonista é aleatório. Tudo é parte de um calculado jogo espiritualista que pretende ceifar vidas e ofertar sacrifícios para entidades sobrenaturais.

Ao longo de seus 114 minutos, Adoradores do Diabo demonstra o oportunismo e a ignorância ao associar as entidades religiosas de matriz africana ao Diabo cristão. Tal como Sociedade dos Amigos do Diabo, de 1989, dirigido pelo filipino Brian Yuzna, os espectadores se deparam com personagens diante de trajetórias surreais, totalmente fora dos padrões, mas sem a presença de Satanás tal como a Bíblia Sagrada instituiu.  Por um lado, peca, pelo título nacional oportunista, por outro, ganha, ao menos, por seu final realista/pessimista.

Visualmente, o filme que cumpre bem o seu papel enquanto narrativa audiovisual. O design de produção de Simon Holland é eficiente ao contemplar a angústia dos personagens e o clima decrépito estabelecido pelo roteiro, bem como a direção de fotografia de Robby Muller, competente ao captar a sensação de medo e pavor por meio de quadros e movimentos certeiros. A direção de John Schlesinger acerta no tom macabro, principalmente nas cenas das cobras no estômago e na aranha que brota do rosto de um personagem, trechos que dialogam com o “todo”, conduzido musicalmente pelos acordes macabros de J. Peter Robinson.

Mesmo que não esteja diretamente ligado aos rituais realizados no Brasil, a discussão referente ao título nos remete ao que líderes religiosos brasileiros retratam ao debater sobre Exu não ser “demônio”, associação oriunda da ascensão midiática das igrejas neopentecostais que insistem em colocar demônios inimigos do cristianismo aos orixás da cultura africana. Engraçado observar como em Cuba, por conta de suas características brincalhonas, o orixá é associado ao Menino Jesus. Algo, no mínimo, contraditório. Nas palavras de Pai Rodney, num elucidativo artigo para a revista Carta Capital, a descrição marginal da população negra no período pós-escravidão. Fica a reflexão.

Adoradores do Diabo (The Believers, Estados Unidos – 1987)
Direção: John Schlesinger
Roteiro: Mark Frost, Nicholas Conde
Elenco: Elizabeth Wilson, Harris Yulin, Helen Shaver, Jimmy Smits, Lee Richardson, Martin Sheen, Richard Masur, Robert Loggia
Duração: 11o min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.