Crítica | Afinal, Uma Mulher de Negócios

estrelas 3

Também conhecido como Liberdade em Bremen, este telefilme de Fassbinder é um verdadeiro passeio pelas ideias feministas e uma crítica à presença do patriarcalismo nas relações familiares e sociais. A trama é adaptada da peça do próprio diretor, e esta foi baseada em fatos reais.

Em 23 de abril de 1871, uma mulher chamada Gesche Gottfried foi executada publicamente em Bremen, Alemanha. Ela seria a última execução pública da história da cidade e o motivo de sua pena foi o seguinte: entre 1813 e 1827 Gesche assassinou 15 pessoas (dentre elas, a mãe, o pai, o irmão, os três filhos, seus dois maridos, um noivo e dois amigos, dentre outros) envenenando-as com arsênico. O caso, bastante estudado e bastante famoso em Bremen mesmo depois de tantos anos, chamou a atenção de Fassbinder, que viu ali a oportunidade de ressaltar o papel e as ações da mulher em uma sociedade dominada por homens.

Mas Afinal, Uma Mulher de Negócios não usa a posição da mulher oprimida como moeda de vingança. E nem os assassinatos são o foco central da trama. O diretor nos apresenta, na verdade, um pequeno estudo sociológico e psicológico, onde vemos destilar-se o veneno machista sobre Gesche — a protagonista vivida de maneira louvável por Margit Carstensen, que havia acabado de sair de As Lágrimas Amargas de  Petra Von Kant — e a forma como ela passa de esposa submissa e dominada para alguém que tem total controle de suas ações, desafiando regras preestabelecidas e se tornando, enfim, uma mulher de negócios.

A linguagem apresentada pelo diretor nos ajuda a construir a mudança comportamental da protagonista, que inicialmente é vista apenas através do pés em movimento de um lugar para outro, atendendo aos constantes pedidos do marido. Ao fundo, o choro incessante e irritante de um bebê torna a sequência quase insuportável. À medida que os assassinatos acontecem e entendemos o modus operandi de Gesche (o oferecer café ou chá às vítimas e a presença do pequeno tema ao piano ou um cântico a capella toda vez que alguma morte ocorre), os eventos ganham maior peso e percebemos como os enfrentamentos dela são cada vez mais cheios de confiança e determinação, como se a cada morte um novo motivo para viver e enfrentar o mundo ela tivesse.

Fassbinder usa de verdadeiros assassinatos para nos fazer pensar na necessidade de mortes simbólicas, de quebras de padrões e superação de situações de opressão. A relação entre essa necessidade e o seu adiamento ou acúmulo da raiva pode, claro, gerar uma reação em cadeia violenta, que ultrapassa a luta pela independência e alcança a vida do outro. Mas esse extremo é a conclusão à que chegamos após terminado o filme, um extremo sugerido como conclusão e nunca colocado em cena como parte real do processo, ou seja, literal, como algumas pessoas gostam de afirmar.

Mais ou menos no mesmo caminho trilhado em O Café, Fassbinder realiza aqui uma peça de teatro filmada com rigorosa direção. O formato foge um pouco do padrão televisivo (um pouco porque temos as telenovelas que seguem o padrão teatral, só que não tão estilizado) devido à sua extrema estilização e economia de cenários. Tudo se passa em um único set-palco por onde vemos passar e onde vemos morrer os vários personagens do filme. Ao fundo, uma tela projetando pequenos takes de paisagens acompanham o desenrolar das cenas. Tudo convida a um desprendimento cênico do espectador e um mergulho na encenação dos atores, com suas emoções à flor da pele, jogando-se no chão e agindo de maneira emocionalmente histriônica mas fisicamente contida (percebam o paradoxo), linha dramatúrgica explorada pelo Antiteatro de Fassbinder desde O Amor é Mais Frio que a Morte.

Depois da mudança pela qual a filmografia do diretor passou após Precauções Diante de uma Prostituta Santa, fica difícil para o espectador aceitar por completo um exercício formal tão distinto, tão cru e tão pouco (ou mal) acabado como este Liberdade em Bremen. É claro que o longa tem total relação com o estilo teatral a que se propõe e não está inteiramente fora do padrão cinematográfico fassbinderiano, que mesmo depois do início de seus melodramas distanciados, nunca abandonou o “cine-tele-teatro” e sempre reservou um espaço para ele em suas obras, fosse na forma, fosse no conteúdo ou em ambos. O grande problema é que nem sempre esse diálogo entre artes era uma maravilha, apesar de nunca ser, de fato, ruim, como comprovamos em Afinal, Uma Mulher de Negócios.

Afinal, Uma Mulher de Negócios (Bremer Freiheit: Frau Geesche Gottfried – Ein bürgerliches Trauerspiel) – Alemanha Ocidental, 1972
Direção: Rainer Werner Fassbinder
Roteiro: Rainer Werner Fassbinder, Dietrich Lohmann
Elenco: Margit Carstensen, Wolfgang Schenck, Wolfgang Kieling, Lilo Pempeit, Ulli Lommel, Hanna Schygulla, Kurt Raab, Fritz Schediwy, Rudolf Waldemar Brem, Walter Sedlmayr, Rainer Werner Fassbinder
Duração: 87 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.