Crítica | Age of Ultron # 1 e 2 (de 10)

ultron cho

O evento Age of Ultron, ou Era de Ultron vem sendo esperado pelo leitores Marvel há algum tempo, pelo menos desde o começo de 2012, ainda que pistas de algo assim já tivessem sido espalhadas pelo universo da editora há mais tempo ainda. Brian Michael Bendis trabalhou com Ultron no arco dos Vingadores intitulado A Iniciativa Ultron, em que o vilão reapareceu com um escultural corpo de mulher (a imagem da Vespa) desenhado por Frank Cho. Derrotado, o robô edipiano criado por Hank Pym e que tomou consciência própria, foi mandado para o espaço. Literalmente.

Como nenhum personagem importante fica longe das páginas da Marvel por muito tempo, Ultron voltou na saga Aniquilação: Conquista, dessa vez comandando a raça cibernética Falange em um ataque contra os Kree. Os esforços dos futuros Guardiões da Galáxia junto com Nova, Phylla-Vell e um renascido Adam Warlock deram cabo do robozão mais uma vez.

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Passado um tempinho, a revista dos Vingadores foi relançada debaixo da chamada Era Heróica em 2010 e Bendis, então responsável pelo título, não se fez de rogado e trouxe Ultron de volta para atazanar a vida dos heróis mais poderosos da Terra. Ninguém duvida que Ultron foi novamente derrotado, não é mesmo? No entanto, dessa vez Bendis enlouqueceu e criou um interessantíssimo gráfico desenhado em um papel onde mora o Tony Stark do futuro em que podemos ver o futuro do universo Marvel, com eventos que viriam nos anos seguintes: A Essência do Medo,  CismaVingadores vs. X-Men e até mesmo o semi-reboot Marvel NOW! de certa forma. E, em seu finalzinho, vemos a menção a uma “Guerra Ultron”, claramente o que viria a ser Era de Ultron. Na verdade, mesmo antes dessa revelação, que deixa o Tony Stark do presente bastante preocupado e depressivo, já tivemos pistas desse futuro negro nas páginas do Capitão América escrito por Ed Brubaker, quando vemos o Capitão renascendo e passando por eventos futuros, dentre eles um com a destruição total de Nova Iorque.

O bacana do gráfico abaixo e do que vimos no trabalho de Brubaker era saber que há um plano maior. Sim, um monte de eventos estão incluídos nesse pacote, já que eles são, agora, o manjar dos deuses para as editorasmainstream. Fazer eventos crossovers é garantia de público e de muitas vendas, por pior que ele seja. Voltarei a esse assunto mais para baixo. Antes, preciso acabar com o breve resumo recente sobre a “vida” de Ultron.

avengers #5

Bem, continuando, Ultron reapareceria muito rapidamente em uma revista “ponto de entrada” gratuita distribuída pela Marvel nos EUA em 2011: Vingadores 12.1, novamente pelas mãos de Bendis. Nela, vemos a consciência de Ultron sendo trazida novamente para a Terra por intermédio de um Cavaleiro Espacial capturado pela Inteligência, grupo formado por “gênios do crime” que, na verdade, são bem incompetentes. Ultron volta, percebe que precisa de um plano e desaparece como apareceu. E vemos o desespero nas falas de Tony Stark: o futuro que ele viu está chegando.

E, finalmente, o onipresente Bendis cita Ultron e lida com o corpo robótico do vilão sendo contrabandeado pelo Conde Nefária em uma inusitada história envolvendo o esquizofrênico Cavaleiro da Lua.

Corta para Era de Ultron.

Comics Age of Ultron

Sem aviso, sem firulas, sem ficar amarrando títulos anteriores com prelúdios, Bendis vem e PÁ, perverte o status quo e joga o universo  Marvel 616 (o normal) nas mãos destruidoras do vilão robô e, imediatamente, no primeiro belo quadro de Era de Ultron # 1, desenhado por Brian Hitch, nos apresenta uma Nova Iorque pós-apocalíptica, mas deixando claro que a narrativa se passa “hoje”. E o modismo dos gigantescos eventos meio que vai por água abaixo, pelo menos no formato habitual, graças a Bendis.

O projeto Marvel NOW! já tem cinco meses de vida e o último grande evento da Marvel foi Vingadores vs. X-Men. Um novo crossover era inevitável e quem já não os aguenta mais pode ter uma boa surpresa com o trabalho de Bendis em Era de Ultron. Primeiro, como disse, ele não constrói o evento com prelúdios que só fazem se arrastar no tempo. Ele simplesmente chega e coloca tudo em andamento sem dar maiores explicações, sem fazer prólogos. O que isso significa para as diversas linhas narrativas também passadas no presente dos mais variados heróis que compõem o projeto Marvel NOW! eu não sei dizer ainda. Mas uma coisa é certa: Bendis sacode o velho conceito de eventos ao tratá-lo quase que de maneira independente, sem efetivos crossovers.

É verdade que a Marvel publicará em breve números de outras revistas com a inscrição AoU, mas eles não são essenciais à trama. Assim, Era de Ultron funciona separadamente, ainda que Bendis tenha prometido que as consequências do evento serão sentidas efetivamente no universo Marvel. O que isso quer dizer é impossível de saber agora. Tamanho é o segredo envolvendo a minissérie que o time que ilustra a revista será completamente alterado a partir do sexto número e o próprio Joe Quesada, chefão da editora, desenhará o último número. Se fazer esse grau de mistério é uma forma de marketing, posso dizer que, pelo menos para mim, está funcionando.

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Bendis, no primeiro número, não nos conta história alguma. Apenas estabelece que, aparentemente, o mundo foi dominado por Ultron e que os poucos heróis sobreviventes se escondem debaixo do Central Park, com medo de colocar a cabeça para fora. Assim, basicamente, o primeiro número explora, de maneira muito inteligente, um herói clássico que tem cada vez mais se destacado no universo Marvel: o Gavião Arqueiro. Ele é a estrela do show em seu arriscado resgate do Homem-Aranha, capturado pelo Cabeça de Martelo e sua gangue de vilões que desejam vendê-lo para Utron.

Diferente do normal dele, Bendis não usa o diálogo para criar só frases espertas, com humor ácido. Ele realmente trabalha na (re)construção de personagens e dá um tom mais sombrio a tudo que testemunhamos.  Fica evidente o clima desesperador da situação, o que é aumentado quando os demais heróis são mostrados escondendo-se quase que covardemente. Não temos uma pista sequer do que levou Ultron a tomar o controle do mundo e o que deixou os heróis tão amedrontados. É um ótimo e sobretudo intrigante primeiro número de um grande evento.

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E se os leitores acham que, no segundo número, a ação come solta para compensar o ritmo do primeiro, estão enganados. Bendis não tem pressa. Dessa vez, ele nos joga para São Francisco (hoje, sempre hoje) completamente destruída como Nova Iorque e nos faz acompanhar a ação da dupla Cavaleiro da Lua e Viúva Negra. Percebemos que o domínio de Ultron é, aparentemente, mundial e recebemos a pista que Nick Fury pode ser a chave para a vitória, apesar de ele ser apenas mencionado na narrativa. Não sabemos se ele está vivo ou morto. Na outra costa, vemos Peter Parker contar, sem muitos detalhes, o que aconteceu com ele e isso vai, aos poucos, levantando a moral dos heróis, para um final emocionante, mas sem ação.

Bendis não poderá sustentar a narrativa que montou sem jogar os heróis diretamente contra Ultron ou suas forças (há robôs dourados com o rosto de Ultron sobrevoando todas as cidades) em um plano para, no mínimo, destruir o robô de uma vez por todas (o que significa, claro, até a próxima vez que ele aparecer). Bendis tem acertado todas dentro do projeto Marvel NOW! (vide All-New X-MenUncanny X-Men e Guardiões da Galáxia) e Era de Ultron me parece estar caminhando a passos largos para ser memorável. O problema – ou o excitante – é imaginar como é que uma narrativa que não se passa em futuro alternativo, plano dimensional diferente ou coisa do gênero pode ser revertida. Afinal de contas, ninguém acha que Nova Iorque vai continuar destruída, não é mesmo? Se Bendis fizer mágica e “voltar ao passado” para, digamos, matar Hank Pym antes de criar Ultron ou qualquer coisa nessa linha, ele estará se traindo absurdamente e jogando as esperanças dos fãs no lixo. Há que se lembrar, afinal de contas, que o uso de Age ou “Era” no título do evento só pode ser para fazer expressa referência à Era de Apocalipse, famoso evento de futuro paralelo distópico dos X-Men de muitos anos que até hoje rende frutos e consequências no universo 616.

Se, porém, Bendis tiver na manga algo que realmente sacuda o status quo do universo Marvel e tenha efeitos duradouros (enquanto durem, claro), então Era de Ultron terá o potencial de consolidar o escritor como o mais prolífico e bem-sucedido da casa das ideias das últimas décadas. Mas o caminho ainda será longo e muita coisa pode acontecer, para o mal ou para o bem.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.