Crítica | Agent Carter – 1X01/02: Now Is Not the End e Bridge and Tunnel

estrelas 4,5

Quem diria, há alguns poucos anos, que a primeira heroína Marvel a ganhar um produto audiovisual próprio seria a namorada do Capitão América durante a 2ª Guerra, hein? E não se trata de um comentário negativo. Muito ao contrário:  isso é ótimo, na verdade!

Lançados no hiato da segunda temporada de Agents of S.H.I.E.L.D. e trazendo Hayley Atwell novamente no papel título, depois de quase sequestrar o público de Capitão América: O Primeiro Vingador com seu charme, arrebatar corações com o potencial da personagem no curta que também carrega o nome de sua personagem e de aparecer bem idosa, para agora despedaçar corações, em Capitão América 2: O Soldado Invernal, os dois primeiros episódios de Agent Carter trazem uma obra madura, no ponto para ser colhida e gerar uma deliciosa e nutritiva salada. É tudo aquilo que Agents of S.H.I.E.L.D. tentou ser na primeira temporada e não conseguiu e que ainda tenta ser na segunda.

Dirigido por Louis D’Esposito, que também comandou o curta homônimo que fez enorme sucesso com o público e que estabeleceu o tom da personagem, o primeiro episódio do que ainda é uma minissérie de oito capítulos monta uma história perfeitamente crível para Peggy Carter, em Nova York, um ano após o final da 2ª Guerra Mundial, com os soldados voltado do fronte e retomando as posições de trabalho nos Estados Unidos. As mulheres, que haviam tomado a frente nas fábricas e escritórios, começavam, vagarosamente, a voltar às suas funções “normais” do dia-a-dia caseiro. O roteiro, escrito por Christopher Markus e Stephen McFeely não perde tempo em meias palavras e deixa evidente a colisão do mundo machista com o mundo feminino tentando se firmar. Carter é uma agente da S.S.R. – sigla de Strategic Scientific Reserve, a agência precursora da S.H.I.E.L.D. – mas sua tarefas são as mais mundanas possíveis e certamente nunca entra em ação de verdade, apesar de ter se provado melhor do que a maioria dos homens durante a guerra. Mas, em um mundo de homens, a visão de uma mulher não importa e seu chefe Roger Dooley (Shea Whigham, o Eli Thompson de Boardwalk Empire) faz questão de afastá-la de tudo e de esfregar em sua cara que ela só está lá por ter sido a “companheira” do Capitão América, entre outros comentários mais perversos.

Aliás, a ligação com o Capitão América vem antes mesmo de Peggy sequer aparecer, com flashbacks – cenas do primeiro filme do herói – que se repetem ao longo dos dois episódios iniciais em um esforço talvez um tanto quanto exagerado de se fazer a ligação entre uma coisa e outra. Mas não se preocupem, pois Agent Carter vive completamente independente de se ter visto ou não o filme. O roteiro marca Peggy como um herói típico de filmes noir da década de 50, só que do sexo feminino. Há sensualidade sem escancarar a sexualidade. Há ação e um número saudável de mortes sem que haja violência em cena. É uma série de canal aberto que faz uso de bom roteiro, boa direção, de figurinos de época feitos com cuidado e sobretudo de uma bela fotografia que sabe usar o contraste do mundo à cores – forte, potente e fatal – de Peggy Carter em contraste com o mundo em tons de cinza à sua volta – masculino, incompetente e burocrático – que a sufoca e que é muito bem simbolizado pela sequência em que Carter vem, em direção à câmera, em seu belo terninho azul e esfuziantes chapéu e lábios vermelhos, abrindo um mar de homens de ternos escuros em direção oposta.

E a fotografia vai além, emprestando uma qualidade verdadeiramente de época à série, com soft focus e uma atmosfera esfumaçada que tem dupla função: a de evocar sem mostrar – é tabu! – cigarros típicos da época e a de sofisticar as sequências. E funciona muito bem, bastando, para isso, prestar atenção na sequência na boate em que Peggy, transformada completamente em uma femme fatale, recobra a invenção roubada de Howard Stark.

Howard Stark!

Como poderia me esquecer de falar dele? Sua presença é constante no primeiro episódio, com Dominic Cooper reprisando seu papel de pai de Tony Stark que viveu em Capitão América: O Primeiro Vingador. Ele é o grande inventor e playboy de sempre, mas que é acusado pelo governo de vender armas aos inimigos dos EUA. Esse evento catalisa a ação da série, com o magnata empregando os serviços de Peggy para descobrir o verdadeiro vilão. Essa é a força motriz provavelmente de toda a minissérie, que leva à convergência da S.S.R., de Peggy Carter agindo secretamente e, claro, de agentes de um inimigo atuando nas sombras, além de um possível mistério com o próprio Stark para um ponto só em futuro também não muito distante em razão dos rápidos passos dos episódios.

Mas Cooper faz apenas uma ponta. Ele deve voltar em outros episódios, mas seu papel é mesmo só de centelha que faz o motor pegar. Em seu lugar, fica o mordomo Edwin Jarvis, encarnado por James D’Arcy, que tem a função de ajudar Peggy no que ela precisar. Esse Jarvis, no Universo Cinematográfico Marvel, é a base para o mordomo virtual de mesmo nome (voz de Paul Bettany) que vemos nos filmes do Homem de Ferro e em Os Vingadores e que também será importante para a criação do sintozóide Visão, em Os Vingadores 2: Era de Ultron. Ops, ok, estou me adiantando aqui, mas era só para mostrar como é interessante toda a ligação de décadas que a Marvel procura fazer em seu universo de filmes e séries.

O fato permanece, porém, que D’Arcy e Atwell têm química instantânea. Em uma inversão de papeis muito bem vinda (ainda que um tiquinho maniqueísta), ele é o “sexo frágil”, aquele que tem que estar à disposição da esposa, obedecer horários e aquele que se preocupa se o terno está abotoado e bem passado, enquanto que ela é o “músculo”, a encarnação da “mulher de ação” que usa inteligência, charme e sedução para navegar de braçada em um mundo que os homens acham que é deles. Apesar de Jarvis já se fazer presente no primeiro episódio, é no segundo que a relação buddy cop entre os dois se fortalece e dá ainda mais sabor à série, que não se furta de ser camp e engraçada sempre que precisa – bem no estilo Marvel – mas sem esquecer de um roteiro recheado de surpresinhas para os fãs dos quadrinhos.

Agent Carter tem enorme potencial a julgar pelos dois primeiros episódios. Parece ser o tipo de série que é impossível desagradar mesmo os mais céticos. Sinceramente, espero que seja mesmo, pois gostaria muito de ver uma nova temporada (mas sem muito mais episódios, por favor!).

Agent Carter 1×01 e 1×02 (EUA, 2015)
Showrunners: Tara Butters, Michele Fazekas, Chris Dingess
Direção: Louis D’Esposito (1×01), Joe Russo (1×02)
Roteiro:  Christopher Markus (1×01), Stephen McFeely (1×01), Eric Pearson (1×02)
Elenco: Hayley Atwell, James D’Arcy, Chad Michael Murray, Enver Gjokaj, Shea Whigham, Kyle Bornheimer, Dominic Cooper, Meagen Fay, Lyndsy Fonseca
Duração: 43 min. (cada episódio)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.