Crítica | Agent Carter – 1X03: Time and Tide

estrelas 4

Agent Carter começa a tomar forma de verdade. Sem a necessidade de estabelecer a premissa, algo que os dois primeiros episódios fizeram muito bem, o roteiro de Andi Bushell pode trabalhar personagens menores, dando estofo e importância à sua existência. De certa forma – mas não completamente, claro – Peggy Carter ganha menor destaque justamente para abrir espaço para os agentes Thompson (Chad Michael Murray) e Sousa (Enver Gjokaj), seu chefe Dooley (Shea Whigham), além da amiga “chata” Angie (Lyndsy Fonseca) e uma nova vizinha, Dotty (Bridget Regan), apresentada ao final. 

É assim que se trabalha uma série: equilibrando ação com desenvolvimento de personagem. Temos que nos importar pelos personagens e Time and Tide consegue fazer isso ao trabalhar os agentes chauvinistas da S.S.R. de maneira que consigamos simpatizar com eles. Sim, uma tragédia se faz necessária, mas ela funciona de duas maneiras. A primeira delas é para emprestar justamente a credibilidade que precisamos aos personagens coadjuvantes (por mais que simpatizemos com Sousa, ele ainda é do “clube do Bolinha” da S.S.R.) e a segunda é para mostrar que, mesmo com seu aspecto jocoso, Agent Carter é séria, grave e capaz de mexer com o status quo.

Dessa maneira, passamos a ter profundidade em relação aos colegas de trabalho de Peggy, tornando suas ações como agente duplo de Howard Stark bem mais cmplicadas. E é interessante ver, também, que sua parceria com o mordomo Jarvis também carrega seu peso. O mais estranho deles – mas é algo que só é realidade para nós, espectadores – é o mistério ao redor da esposa dele, Anna, que é o centro de suas atenções e que dela só ouvimos a voz. Há algo muito peculiar ali, com potencial para descambar para a diversão ou seriedade em iguais proporções. Alguém tem uma teoria? Estou perdido aqui! Mas há, ainda, o misterioso passado do mordomo, bem mais rico do que a superfície deixa entrever.

Mas a fraternidade rígida onde Carter mora também traz mistérios ou, ao menos, potenciais mistérios. Se uma coisa aprendi em todos esses anos de indústria vital é não aceitar nada dessas séries – e na vida em geral – pelo seu valor de face. O que é aquele lugar dominado com mão de ferro (ou tentáculos da Hydra…) pela Sra. Fry (Meagen Fay)? Um centro de recrutamento? E Angie e sua necessidade patológica de se imiscuir na vida de Peggy ao ponto de deixá-la culpada por não dar atenção à garçonete? E essa Dottie que é apresentada com enorme entusiasmo pela Sra. Fry.

No meio de todo esse desenvolvimento de personagens coadjuvantes, a trama detetivesca carregada por Peggy e Jarvis perde até o foco dos holofotes, mas não é menos interessante. Parece um pouco fácil demais, simples demais, mas, novamente, há algo por trás, algo representado pelo homem de chapéu que só vemos a silhueta. Quem será que ele é?

O grande problema de Time and Tide é justamente criar problemas. Sem soluções, quero dizer. Afinal, estamos falando de uma série – ou minissérie, não sei ainda exatamente como chamá-la – de apenas oito episódios. Três já se foram e eles só empilharam mistérios. Há mais cinco pela frente e receio que não haja roteiro circular o suficiente para lidar com tantas coisas em tão pouco tempo.

Só que, para mim, o mais importante tem sido a jornada, pois a fotografia à moda antiga, emulando filmes noir é uma agradável diferenciação para séries baseadas em universos de quadrinhos. Não é uma série escura somente para emular Batman. Ela é escura para criar atmosfera e uma atmosfera clássica, trazida diretamente dos anos 50 – em termos cinematográficos, principalmente – para hoje. Além disso, o foco é em Peggy Carter, personagem que existe desde sempre nos quadrinhos, mas que realmente só desabrochou no filme do Capitão América, no curta metragem que se seguiu e, agora, ganha seu devido destaque em sua própria série, que vive sozinha, sem a muleta narrativa de novos personagens dos quadrinhos a cada semana ou mesmo uma mitologia toda a amarrada para que os fãs fiquem apontando para a tela com olhos vidrados. Agent Carter é uma série que poderia facilmente viver independente do universo onde é inserida. É boa assim, se esperarmos, claro, a leveza a que ela se propõe.

Agent Carter continua encantando e acertando na mosca. Se não se perder em seus mistérios, poderá sair da sombra de Agents of S.H.I.EL.D. e literalmente tomar de assalto o Universo Cinematográfico Marvel.

Agent Carter – 1×03: Time and Tide (EUA, 2015)
Showrunners: Tara Butters, Michele Fazekas, Chris Dingess
Direção: Scott Winant
Roteiro:  Andi Bushell
Elenco: Hayley Atwell, James D’Arcy, Chad Michael Murray, Enver Gjokaj, Shea Whigham, Kyle Bornheimer, Dominic Cooper, Meagen Fay, Lyndsy Fonseca, Bridget Regan
Duração: 41 min. (cada episódio)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.