Crítica | Agent Carter – 1X07: Snafu

 

estrelas 4,5

Obs: Contém spoilers do episódio e da série.

Uau!

O que foi isso que acabei de assistir? Uma série de TV da Marvel adulta? Meus olhos não estão me enganando?

É, meus caros, parece que a Marvel/ABC não está de brincadeira mesmo. Agent Carter, diminuta como é, tem mais episódios próximos da perfeição que a gigantesca maioria das longas e intermináveis séries “de super-heróis” que, para o mal ou para o bem, vêm povoando a televisão e Snafu, o penúltimo episódio da minissérie, está aí para provar isso novamente.

O vilão está finalmente revelado: é o Dr. Fausto dos quadrinhos que, na série, é o psiquiatra russo Dr. Ivchenko (cujo nome verdadeiro – e que bate com sua persona dos quadrinhos é Dr. Fennhoff, conforme aprendemos no flashback que abre o episódio). Se há alguém acima dele – sempre há, não é? – ainda não sabemos e não sei se saberemos, pois só há mais um episódio pela frente. Mas o fato é que ele, agora, está infiltrado na S.S.R., o verdadeiro lobo em pele de cordeiro que ainda conta com a letal ajuda de “Dottie”, egressa do programa de treinamento de “Viúvas Negras”. Uma combinação explosiva. Literalmente, aliás.

O episódio é fisicamente auto-contido, com quase a integralidade da ação passada no QG da S.S.R. Peggy está presa, depois de ter sido desmascarada pelo Agente Sousa e passa por interrogatórios incessantes de Sousa, Jack Thompson e do chefe Dooley. É claro que eles nada conseguem, a não ser ficarem cada vez mais cegos para a verdadeira ameaça literalmente na sala ao lado. Jarvis vai ao encontro de Peggy para ajudá-la com uma confissão forjada de Howard Stark, mas seu plano não dá completamente certo, acabando, para todos os efeitos, encarcerado junto com ela.

Enquanto isso, o Dr. Ivchenko está livre não só para se comunicar com “Dottie” como para hipnotizar o chefe Dooley usando sua estremecida relação marital como desculpa. Mesmo presa, Peggy percebe que há algo errado com o Doutor e tenta convencer seus companheiros da situação.

Em poucas palavras, Snafu é um episódio exasperante, com um suspense muito bem construído. O roteiro brinca com nossas expectativas, inserindo momentos cômicos em meio a uma narrativa com cadência crescente de medo e pavor e que gera genuínas surpresas. Nem sempre, porém, o tom engraçado combina bem. Isso fica particularmente visível na pouco inspirada interação entre Peggy e Jarvis, com especial destaque para o momento em que, juntos, eles usam a mesa de interrogações para quebrar o vidro da sala. Timing errado do roteiro, não dos personagens, para ficar claro.

No entanto, esse é um problema menor que é facilmente esquecido com a construção da tensão envolvendo o sinistro Dr. Ivchenko e seu controle cada vez maior sobre o chefe Dooley. Não há pirotecnia por todo o episódio, só uma espécie de calma desesperadora. Vislumbramos um clímax tenso, mas, ao chegar, ele vem galopante, destruidor, algo consideravelmente inesperado em uma série desse naipe, com viés mais juvenil e em uma televisão aberta. Não há violência gráfica explícita, claro, mas não há como negar que a valente morte do chefe Dooley é chocante e forte. Basta comparar, por exemplo, com a morte de Trip no episódio midseason da 2ª temporada de Agents of S.H.I.E.L.D. Não que Trip tenha morrido sem mais nem menos, mas o impacto da morte de Dooley tanto para a história em si quanto para o espectador é muito maior. Nós já havíamos nos identificado profundamente com o chefe durão, com aquele jeito chauvinista de ser. Amávamos ou odiávamos o personagem, pouco importa, mas ele havia recebido uma construção digna ao longo da curta temporada. Sua morte – seu sacrifício pelo bem maior, vale reiterar – simboliza não só o espírito da S.S.R. e do Universo Marvel, como, também, marca a ferro e a fogo a transformação final de Peggy Carter de uma agente relegada a segundo plano pelos homens ao seu redor em provavelmente a agente principal, isso se não for agora a nova chefe.

Não há como negar que Snafu soube fazer o melhor uso de uma morte. Não foi a primeira na série, mas com certeza foi a mais importante (até agora) e mostra um amadurecimento muito grande da narrativa proposta pelos showrunners na clara confiança de que o público-alvo do programa não é composto apenas de fãs muito novos. Além disso, a morte de um personagem dessa magnitude mostra que a Marvel está disposta a fazer o que for preciso em termos de história para seu Universo Cinematográfico florescer.

Caminhamos agora para o fechamento da minissérie (que espero fortemente que seja apenas a primeira de várias temporadas curtas) no episódio Valediction. Se a Marvel encerrar de maneira redonda esse arco de Agent Carter, terá mostrado a Jed Whedon como fazer uma temporada e também aos showrunners das demais séries super-heroísticas da Distinta Concorrência.

Agent Carter – 1×07: Snafu (EUA, 2015)
Showrunners: Tara Butters, Michele Fazekas, Chris Dingess
Direção: Vincent Misiano
Roteiro:  Chris Dingess
Elenco: Hayley Atwell, James D’Arcy, Chad Michael Murray, Enver Gjokaj, Shea Whigham, Kyle Bornheimer, Dominic Cooper, Meagen Fay, Lyndsy Fonseca, Bridget Regan
Duração: 41 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.