Crítica | Agent Carter – 2X01 e 2X02: The Lady in the Lake / A View in the Dark

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estrelas 4

Obs: Pode conter spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios da série, aqui.

Ah, que alegria! Agent Carter voltou! Sim, sou fã confesso desta que considero a melhor série baseada em quadrinhos hoje em andamento e que, infelizmente, por razões que fogem à minha compreensão, é desdenhada por muitos.

Renovada para uma temporada maior, mas ainda dentro do que se pode chamar de “número decente de episódios” (10 e não os 20 e tantos de várias séries tenebrosas por aí), a primeira grande mudança da segunda temporada é de cidade. De Nova York, Peggy Carter (Hayley Atwell) se muda para Los Angeles, depois que o inseguro Jack Thompson (Chad Michael Murray), atual chefe da S.S.R., a envia para lá para ajudar Daniel Sousa (Enver Gjokaj), que chefia a divisão californiana da agência a investigar um caso muito estranho de assassinato que envolve um lago congelado em pleno verão angeleno.

Claro que, convenientemente, Howard Stark – que ainda não apareceu – havia também se mudado para Los Angeles (não é coisa de outro mundo, pois Tony Stark, em Homem de Ferro, vive lá) e o empertigado mordomo Jarvis (James D’Arcy) está lá para recebê-la, doido para trabalhar em dupla com Peggy novamente. E, assim, a grande mudança, na verdade, não muda muita coisa, apenas permite a continuidade da série em outro cenário, com apenas um prólogo interessante em Nova York com a captura de Dottie Underwood (Bridget Regan), a Viúva Negra dos anos 40 que promete ser mais importante ainda nesta nova temporada.

Os dois episódios iniciais, que lidam com o mesmo caso do lago congelado e todos os seus desdobramentos que estabelecem as bases para os próximos 11, beneficiam-se do tom leve que os showrunners decidiram passar. O primeiro elemento que estabelece essa leveza é a fotografia muito clara e colorida usada quando a ação é transferida para Los Angeles. Usando como desculpa a luminosidade constante do local, o trabalho de fotografia emula os quadrinhos da Era de Ouro, com cores primárias abundantes – a começar pelo sensacional, detalhado e autêntico figurino de Carter – e um filtro que “estoura” cores e que faz uso de pontos de luz estratégicos para criar efeitos de aura, quase que passando uma atmosfera constante de sonho. Dá a impressão que os showrunners querem, com esse artifício, quebrar a quarta parede e apontar ao espectador que ele está vendo quadrinhos em movimento. Mas tudo é feito muito discretamente e dentro de uma estrutura ampla que agradará as retinas dos mais exigentes.

Da mesma forma, os quadrinhos da Era de Ouro são evocados pelo roteiro jocoso, brincalhão, jovial, flertando com a comédia pastelão por vezes (notadamente na relação Peggy-Jarvis), o que pode incomodar alguns. No meu caso, acho que a narrativa, pendendo para o nonsense às vezes, encaixa-se maravilhosamente bem com o tom da protagonista, da época e, claro dos quadrinhos. Funciona para mostrar que assuntos sérios – mortes, tiroteios, traições – não precisam ser tratados apenas de maneira sombria para darem frutos. The Flash já provara isso abraçando suas raízes de quadrinhos e Agent Carter eleva o nível ainda mais, adicionando sofisticação e charme ao mix.

E o interessante, ainda falando sobre o roteiro, é como Brant Englestein primeiro e, depois, Eric Pearson e Lidsey Allen costuram bem a história, envolvendo Carter e Sousa em uma conspiração de ramificações potencialmente amplas que conta com o milionário e candidato a senador Calvin Chadwick (Currie Graham), sua esposa e atriz Whitney Frost (Wynn Everett), o físico e novo interesse romântico de Peggy Jason Wilkes (Reggie Austin) e um elemento que quem assiste Agents of S.H.I.E.L.D. reconhecerá facilmente: a Darkforce, que dá os poderes do vilão Marcus Daniels ou Blecaute (episódios 1×18 e 1×19 da 1ª Temporada). Aqui, a massa negra é chamada de Matéria Zero ou Zero Matter, mas é muito interessante ver a conexão dentro do cada vez maior e mais intrincado Universo Cinematográfico Marvel.

Mas há mais, pois Chadwick revela-se não só um homem escorregadio, como alguém ligado com um conclave de homens que parece ser a versão 1.0 do Conselho de Segurança que vimos em Capitão América 2 e que inclui Hugh Jones (Ray Wise voltando ao papel), dono da Roxxon Oil  que vimos na primeira temporada de Agent Carter. Quer parecer, assim, que aprenderemos um pouco mais sobre o início da infiltração da HYDRA na vindoura S.H.I.E.L.D.

Aliás, falando em S.H.I.E.L.D., é particularmente interessante notar que Vernon Masters (Kurtwood Smith), mentor de Jack Thompson e que ocupa cargo de chefia no FBI, menciona que a S.S.R. é uma entidade obsoleta e que precisa ser atualizada. É, possivelmente, as primeiras pistas da conversão da S.S.R. em S.H.I.E.L.D., algo que seria muito interessante ver, considerando que Peggy e a versão mais velha de Howard Stark já apareceram como figuras importantes da agência no prólogo de Homem-Formiga.

Finalmente, para quem não sabe, mas provavelmente percebeu pela cena final, Whitney Frost terá proeminência nesta temporada com sua transformação na Madame Máscara, clássica vilã – e às vezes amante – do Homem de Ferro nos quadrinhos, criada em 1968. Suas conexões são com o grupo vilão Maggia, o que pode significar que o conclave de Chadwick é a Maggia, ainda que a introdução de uma nova entidade vilanesca possa confundir os espectadores. Ainda aposto na possibilidade mais óbvia, que ela tenha ligação com a HYDRA mesmo.

De toda forma, é interessante que a dupla de episódios inaugurais, apesar de toda a aura mais leve, flerte com mistérios da natureza de Arquivo X, emprestando um ar especial a eles. Claro que a história logo começa a se encaixar no universo já estabelecido pelos filmes e pela série irmã, mas o simples fato de os showrunners estarem dispostos a flertar com novas estruturas já mostra que Agent Carter foge da regra de séries do gênero.

A volta da série é mesmo alvissareira e não poderia ser melhor. Resta esperar que, agora com um formato mais longo, Agent Carter mantenha o mesmo vigor que demonstrou ter em sua temporada inaugural.

Agent Carter – 2×01 e 2×02: The Lady in the Lake / A View in the Dark (EUA, 2016)
Criação:
  Christopher Markus, Stephen McFeely
Showrunners: Tara Butters, Michele Fazekas, Chris Dingess
Direção: Lawrence Trilling
Roteiro:  Brant Englestein (2×01), Eric Pearson, Lindsey Allen (2×02)
Elenco: Hayley Atwell, James D’Arcy, Chad Michael Murray, Enver Gjokaj, Bridget Regan, Wynn Everett, Reggie Austin, Currie Graham, Lotte Verbeek, Kurtwood Smith
Duração: 46 min. (cada episódio)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.