Crítica | Agent Carter – 2X08 e 2X09: The Edge of Mystery / A Little Song and Dance

2X08 – The Edge of Mystery

estrelas 3

2X09 – A Little Song and Dance

estrelas 4

Obs: Pode conter spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios da série, aqui.

Mais uma vez exibindo dois episódios em um dia só, a ABC está próxima de acabar a segunda temporada de Agent Carter sem indicação ainda da possibilidade de renovação. No entanto, a série tem se mostrado segura de si, com apenas um escorregão verdadeiro até agora – The Atomic Job – e mesmo assim não sem suas qualidades o que, aparentemente, não é o suficiente para atrair número suficiente de espectadores. Uma pena.

Aconteça o que acontecer, fato é que tem sido um deleite ver o desenvolvimento da temporada, ainda que ela seja, em geral, algo inferior à primeira. Mas claro que uma série como Agent Carter já nasce com uma vantagem: é curta, com apenas 10 episódios, o que minimiza fillers e torna cada roteiro importante para o arco narrativo mais amplo. Aqui, o caso da semana abre espaço para uma história só com diversos desdobramentos, idas e vindas e foco no desenvolvimento de personagens, o que é bem mais complexo – mas não impossível – de se fazer com séries de 20 e tantos episódios.

Mas eu divago. O primeiro episódio da dupla é The Edge of Mystery, que lida diretamente com as consequências da vilania de Whitney Frost que vimos ao final de Monsters. Ana Jarvis está convalescendo do tiro que levou e ainda não acordou. Seu marido, inconsolável, perde a fleuma e a casca de polidez e enrijece em sua sana vingativa contra Madame Máscara. Ver James D’Arcy mudar completamente é uma surpresa, por ele ter sempre mantido a tranquilidade hesitante dele mesmo nas situações mais complicadas. Mais que isso, a importância do tiro em Ana não é minimizada em momento algum, pois a um Edwin Jarvis em frangalhos, soma-se a notícia de que ela não mais poderá ter filhos e as vias de fato a que chega o relativamente pacato mordomo quando ele atira em Frost para matar.

Essa nova desesperada faceta do personagem foi extremamente interessante de acompanhar e quase inacreditável em seu desfecho. Era mais do que evidente que Frost não morreria assim tão fácil, mas o simples fato de o roteiro ir até o final na vingança mostra coragem e maturidade no trabalho com a série. Sempre de atmosfera mais leve, mas já tendo mostrado que não brinca em serviço ao matar o chefe da S.S.R. na temporada anterior, a nova temporada ganha gravidade e solenidade, algo que é sempre de bom tom.

E o episódio quase acerta em todas as frentes. Seu (grande) problema é a arma deus ex machina de raios gama cujas instruções Howard Stark telegrafa para sua mansão em momento-chave, o Dr. Aloysius Samberly monta em algo como umas duas horas e sua ativação acontece na hora certa, sem erros, por Sousa e Thompson, agora trabalhando juntos. O lado cartunesco da série nunca foi escondido e, aqui, de maneira semelhante, mas mais discreta que em The Atomic Job, há um caimento para o pastiche, para uma comicidade deslocada que não rima com a narrativa mais série envolvendo Ana Jarvis e seus desdobramentos.

No entanto, o leve desapontamento com The Edge of Mystery dissipou-se completamente logo no prólogo de A Little Song and Dance, episódio corajoso ao fugir do óbvio e começar com um sonho/alucinação de Peggy em preto e branco reencontrando-se com seu irmão Michael que vimos nos flashbacks de Smoke & Mirrors e que logo é transformado em um sensacional número de “canção e dança” com Peggy como o centro das atenções de Wilkes e Sousa fazendo as vezes de Fred Astaire e Gene Kelly respectivamente. O memorável momento encontra eco em forma, não em substância, em Valediction, episódio de encerramento da temporada anterior, em que Howard Stark é hipnotizado e entramos em sua mente que lida com seu maior remorso, criando uma conexão bem-vinda, ainda que longeva. Confesso que não existe uma grande razão para esse número musical elaborado, pois Peggy não estava em situação particularmente difícil, às portas da morte, mas talvez por isso mesmo que a inserção da sequência seja tão interessante e corajosa, já que potencialmente fará muita gente torcer o nariz.

Filmada com cenários móveis que lembram a sequência de sonho em Cantando na Chuva e com figurino que emula perfeitamente os musicais da época em que a série se passa, toda a sequência usa o forte contraste entre as cores e o fundo preto para lidar com a psiquê de Peggy dividida entre dois homens. E todo o fundo escuro funciona para dar ainda mais destaque às sequências no deserto momentos depois, com lentes sem filtro trabalhando com muita claridade e aridez para funcionar como estopim para um excelente momento no roteiro em que Carter e Jarvis são momentaneamente separados por uma virulenta discussão nada característica deles, mas perfeitamente crível diante das circunstâncias, que chega até mesmo a, pela primeira vez na temporada, relembrar indiretamente a morte do Capitão América (“todos morrem à sua volta”) em outro aceno à Valediction.

Aqui, o roteiro das showrunners Michele Fazekas e Tara Butters, com base em história do terceiro showrunner, Chris Dingess, mostra-se azeitado e na medida exata entre seriedade e comicidade. O complexo plano iniciado por Jack Thompson é bem desenvolvido e cheio de reviravoltas bem encaixadas, com um merecido estapeamento de Vernon Masters por uma enfurecida Peggy Carter, traições e um cliffhanger à moda antiga, daqueles que deixam o espectador furioso e desesperado para ver o que vai acontecer.

Com apenas mais um episódio pela frente, Agent Carter tem chance de novamente encerrar uma temporada de dar inveja a muita série baseada em quadrinhos por aí. Tomara que consiga. E tomara que uma terceira temporada esteja em seu futuro.

Agent Carter – 2×08 e 2×09: The Edge of Mystery / A Little Song and Dance (EUA, 23 de fevereiro de 2016)
Criação:
 Christopher Markus, Stephen McFeely
Showrunners: Tara Butters, Michele Fazekas, Chris Dingess
Direção: Metin Hüseyin (2×08), Jennifer Getzinger (2×09)
Roteiro:  Chris Dingess, baseado em história de Michele Fazekas e Tara Butters (2×08), Michele Fazekas e Tara Butters, baseados em história de Chris Dingess (2×09)
Elenco: Hayley Atwell, James D’Arcy, Chad Michael Murray, Enver Gjokaj, Bridget Regan, Wynn Everett, Reggie Austin, Currie Graham, Lotte Verbeek, Kurtwood Smith, Dominic Cooper, Ken Marino
Duração: 42 min. (cada episódio)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.