Crítica | Agents of S.H.I.E.L.D. – 2X10: What They Become (midseason finale)

estrelas 4,5

Aviso: Há SPOILERS na crítica.

Agora todos nós já sabemos quem o misterioso pai de Skye e Skye são. Os nomes foram revelados. As cartas estão na mesa. Mas confesso que o resultado final é um pouco críptico demais para quem não conhece muito bem o Universo Marvel nos quadrinhos e a sensação, para essas pessoas – que não são poucas, obviamente – pode ser de um grande sinal de interrogação flutuando por sobre suas cabeças.

Enquanto para os fãs as revelações são excitantes, o público em geral ficará boiando e essas duas características conflitantes podem minar o interesse pela série. Não sabem do que estou falando?

Então vou explicar.

Algo que cheguei a mencionar como rumor aqui, acabou tornando-se realidade: o pai de Skye diz que seu nome é Cal e o de Skye, Daisy. Cal é apelido de Calvin e esse nome, claro, faz referência ao Dr. Calvin Zabo, nome do supervilão Mr. Hyde, criado por Stan Lee e Don Heck em 1963, que se transforma em um criatura poderosa e deformada depois que ingere uma fórmula por ele desenvolvida. Ele é pai de Daisy, personagem criada na minissérie Guerra Secreta e que ganha o codinome Tremor (Quake). Como vemos nos segundos finais, quando Skye/Daisy é envolvida no que talvez seja a versão da série das Névoas Terrígenas (são os elementos químicos que catalisam as transformações nos Inumanos), ela faz a cidade subterrânea inteira tremer, deixando bem evidente qual é seu poder.

Mas, nos quadrinhos, nem Hyde nem Daisy são Inumanos e o episódio, apesar de não mencionar a raça, inegavelmente caminha nessa direção. Já que a Marvel não pode usar os mutantes (os direitos de adaptação cinematográfica foram licenciados com exclusividade para a Fox, que não vai largá-los), então a utilização dos Inumanos para o mesmo propósito é uma jogada muito inteligente. E, para evitar que o povo em si seja revelado na série (ou, pelo menos, nessa metade de temporada), a utilização de Cal, vivido magistralmente por Kyle MacLachlan, faz muito sentido, bastando que, depois, a conexão inumana seja feita, algo que pode irritar meia dúzia de fãs xiitas, mas esses, no meu livro, podem ir catar coquinho, ainda que essa “conexão inumana”, provavelmente, se dê única e exclusivamente em razão da mãe de Skye.

O episódio ainda conta com diversos outros momentos-chave, como a eliminação do Dr. Whitehall por Coulson (mas algo que me diz que ele não morreu…); a revelação de que Mack está vivo e ainda controlado pela cidade enterrada; a conversa entre pai e filha que, apesar de muito boa em razão da atuação de MacLachlan, não revela nada verdadeiramente novo; a morte de Trip (esse morreu mesmo, não tem jeito) e a traição dupla de Grant, que ainda acaba ao lado da Agente 33 convertida como agente da Hydra e com a aparência de uma May deformada em razão dos acontecimentos em Face My Enemy. Ou seja, é muita coisa para cobrir em uma mera crítica.

No entanto, uma coisa ficou evidente: What They Become encerra um arco narrativo. A promessa dos Whedon antes mesmo da segunda temporada começar de que, na verdade, ela seria formada de duas metades contando histórias diferentes – ainda que ligadas, claro – aparentemente será cumprida. Com isso, eles resolvem o problema do tamanho da série, que se utiliza da estrutura arcaica de 23 episódios que abomino, trabalhando com algo que a própria Marvel está acostumada a fazer nos quadrinhos, os arcos fechados.

Com isso, durante o hiato que começa agora, os seguidores da série terão tempo de respirar e especular a direção que a segunda metade da temporada tomará. Mas o que vem acontecendo é algo bastante arriscado e ao mesmo tempo extraordinário. No lugar de correr atrás dos filmes do Universo Cinematográfico Marvel, a série parece ter se tornado uma porta de entrada para ele, uma maneira de a Marvel explorar mais profundamente sua mitologia sem ter que gastar muito tempo nos filmes para tanto. Reparem que a série já estará chegando ao final dessa temporada quando Os Vingadores 2 estiver estreando nos cinemas, de maneira que ela funcionará ao mesmo tempo como introdução e dénouement para o filme, que provavelmente revelará que Mercúrio e Feiticeira Escarlate são Inumanos.

Mas porque eu digo que é algo arriscado? Simples. Agents of S.H.I.E.L.D., justamente por não explorar de maneira fácil e banal os personagens poderosos da editora e apostar em um time zero quilômetro (ou quase) criado para ela, não conseguiu atrair a massa crítica de público que se esperava e ela ainda é claudicante em termos de audiência. Ligá-la dessa maneira aos filmes – que, até o momento, são sucessos garantidos – é um jeito de “forçar” que mais espectadores mergulhem na série, mas ao mesmo tempo pode alienar muita gente diante da complexidade dos acontecimentos.

O importante é que, apesar de uma certa resistência da audiência, Agents of S.H.I.E.L.D. encontrou seu tom. Há leveza, mas o tom jocoso da temporada anterior deixou de existir desde o primeiro minuto de Shadows. E, com apenas uma exceção (e meia), absolutamente todos os episódios foram relevantes e contaram uma única história. E essa história, ao que tudo indica, é introdutória de linhas narrativas dos filmes, ou seja, a série foi amarrada de maneira inafastável da estrutura de “universo único” em que a Marvel apostou as duas fichas (e que uma certa outra editora está correndo atrás na velocidade do Flash…).

Em termos técnicos, o episódio apresenta efeitos especiais competentes, que convencem tanto na abertura, com as manobras aéreas de May para se livrar de um ataque da Hydra, quanto ao final, com as transformações de Skye e Raina (alguma aposta em o que ela se transformou?) e a morte de Trip. Vê-se claramente que houve uma melhora sensível desde a primeira temporada, ainda que sejam poucos os capítulos que dependam fortemente de CGI, o que é uma benção, na verdade.

A direção de Michael Zinberg resulta em um capítulo que transmite clareza em cada núcleo de ação. Nunca nos perdemos, apesar das sequências, ao final, acontecerem simultaneamente em diversos pontos diferentes, o que mostra esmero na montagem. Outro aspecto relevante é o uso de fotografia escura nas cenas na cidade subterrânea. Não é nada fora do comum, mas a atmosfera criada com esse elemento e a presença assustadora de Mack é muito eficiente em passar mistério e tensão sem, porém, permitir que muito facilmente deduzamos o que acontecerá em seguida.

Fica apenas um pouco de tristeza pelas mortes de Whitehall e Trip. O primeiro, como grande vilão da primeira metade e o segundo com ligação familiar com o Comando Selvagem (grupo formado e liderado pelo Capitão América em seu primeiro filme, mas que nos quadrinhos é formado e liderado pela primeira versão de Nick Fury), tiveram muito pouco tempo de tela como um todo e, com isso, pouco desenvolvimento dramático. Não sei se Whitehall, como disse, está realmente morto, mas teria sido interessante ver um pouco mais de sua vida, especialmente considerando que sua origem remonta à Segunda Guerra Mundial. Trip fará falta na dinâmica do grupo de Coulson, como um apoio – e possível caso – de Jemma Simmons.

Mas o lado positivo das mortes é que os showrunners – talvez inspirados pela fúria assassina de G.R.R. Martin – deixaram claro que nenhum coadjuvante está salvo, por mais bacana que ele possa ser. Afinal, vocês se lembram do que aconteceu com Izzy em Shadows, não é mesmo?

O midseason finale de Agents of S.H.I.E.L.D. certamente foi o que os fãs esperavam, ainda que, provavelmente, tenha sido um tanto hermético para os não-tão-fãs (em termos da compreensão da relevância das revelações, claro). Uma coisa é clara, porém: não é mais possível ignorar essa série como algo acessório ao Universo Cinematográfico Marvel.

Nos vemos em Agent Carter, logo no começo de janeiro!

A partir daqui, listo as (possíveis) referências ao Universo Marvel em quadrinhos desse episódio:

1. Comando Selvagem (Howling Comandos): Há uma rápida menção ao grupo da Segunda Guerra Mundial formado e liderado pelo Capitão América em seu primeiro filme, mas que nos quadrinhos é formado e liderado pela primeira versão de Nick Fury. Esse grupo será provavelmente a tropa comandada pela Agente Carter (Hayley Atwell), em sua série própria.

2. Dum Dum Dugan: Logo depois da menção ao Comando Selvagem, o nome de Dum Dum Dugan é dito. Timothy “Dum Dum” Dugan foi vivido por Neal McDonough em Capitão América: O Primeiro Vingador e em Shadows, primeiro episódio da 2ª temporada de Agents of S.H.I.E.L.D. Personagem criado em 1963, por Stan Lee e Jack Kirby, suas características principais são o chapéu coco e a barba que orgulhosamente usa. Ele foi criado como um dos principais componentes do Comando Selvagem de Nick Fury e, assim como o futuro diretor da S.H.I.E.L.D. viria a sobreviver ao longo das décadas em razão da ingestão da Fórmula do Infinito, também usada por Fury.

3. Agente 33 – Nos quadrinhos, a Agente 33 é Kara Lynn Palamas, agente da S.H.I.E.L.D. com grande participação na publicação Hércules da década de 90. Na série, ela sofreu lavagem cerebral pelo Dr. Whitehall e passou a ser uma agente da Hydra. Depois de luta com May usando uma máscara para se disfarçar, ela tem seu rosto queimado e mantido constantemente como May.

4. Dr. Daniel Whitehall (ou Werner Reinhardt, originalmente) – Nos quadrinhos, Daniel Whitehall é um lendário agente da Hydra conhecido pelo codinome Kraken. Na série, ele é o líder da Hydra, aparentemente abaixo do Barão Strucker e responsável pela morte da mãe de Skye de quem ele extrai uma fórmula que o rejuvenesce quando já está em idade avançada.

5. Cal – Pai de Skye, Cal, apelido do Dr. Calvin Zabo, ele é, nos quadrinhos, o supervilão conhecido como Mr. Hyde que ganha força sobrehumana e aparência monstruosa após ingestão de uma fórmula por ele desenvolvida. Na série, apesar de parecer que ele tem algum tipo de superforça, não há clareza quanto a isso.

6. Skye – Skye, na verdade, se chama Daisy, em referência à super-heroína Tremor dos quadrinhos. Na série, ela tem ascendência inumana (por parte de mãe) e, depois de sofrer uma transformação, passa a ter poderes sísmicos.

7. Raina – Inumana (ainda que não nomeada assim), que também sofre transformação – inclusive física, apenas vista de relance – depois de ativar o Diviner.

Agents of S.H.I.E.L.D. – 2X10: What They Become (EUA, 2014)
Showrunner: Joss Whedon, Jed Whedon
Direção: Michael Zinberg
Roteiro: Jeffrey Bell
Elenco: Clark Gregg, Chloe Bennet, Ming-Na Wein, J. August Richards, Iain De Caestecker, Elizabeth Henstridge, Brett Dalton, B.J. Britt, Nick Blood, Adrian Pasdar, Hayley Atwell, Kenneth Choi, Neal McDonough, Henry Simmons, Brian Patrick Wade, Henry Simmons, Dylan Minnette, Kyle MacLachlan, Reed Diamond, Simon Kassianides, Adrianne Palicki, Tim DeKay
Duração: 43 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.