Crítica | Agents of S.H.I.E.L.D. – 2X21/22: S.O.S. (Season Finale)

estrelas 4,5

Aviso: Há SPOILERS do episódio e da série. Leia as críticas dos outros episódios, aqui.

Tem tanta coisa para falar sobre S.O.S., o episódio duplo que encerra a 2ª temporada de Agents of S.H.I.E.L.D. que tenho certeza que deixarei muita coisa de fora. De toda forma, deixe-me começar logo pelo óbvio: uau, é assim que se encerra uma temporada!

Jed Whedon conseguiu carregar sua série nas costas e montar um fechamento lógico e cheio de ação, ao mesmo tempo que trágico e sentimental. E tudo isso em uma série que começou cambaleante e muito dependente do Universo Cinematográfico Marvel, mas que finalmente alcançou o amadurecimento necessário para andar com suas próprias pernas, sem depender de heróis ou vilões novos a cada episódio ou dramalhão exagerado, como umas e outras séries do mesmo gênero que existem por aí. Agents of S.H.I.E.L.D. encerra sua segunda temporada com dignidade, mantendo a coesão apesar da grande quantidade de episódios e, principalmente, armando excitantes possibilidades narrativas para a próxima temporada. Não é, lógico, uma série sem defeitos, mas o showrunner claramente aprendeu com seus erros do ano anterior – e um pouco com Agent Carter – e soube corrigir o rumo a tempo de evitar um potencial desastre.

O episódio dedica a primeira parte à continuação do plano maquiavélico de Jiaying para colocar os Inumanos e a S.H.I.E.L.D. em lados opostos. E ela é muito bem sucedida em seu intento, revelando-se como o verdadeiro monstro da história, algo muito bem utilizado na segunda parte, quando suas ações são contrastadas com as do trágico e apaixonado Cal em um belo final para o trio familiar formado pelos dois e Skye. Com a S.H.I.E.L.D. sob ataque e com Bobbi desaparecida graças a seu sequestro por Ward e Kara, vemos nossos heróis em situação de desvantagem e realmente sentimos o perigo estabelecido ainda que, claro, saibamos que tudo acabará bem.

Mas será que tudo acaba bem de verdade? Tenho para mim que não. Afinal, Gonzales foi morto em Scars. Agora, Raina, que realmente se revela de bom coração, com a genuína intenção de ajudar Skye depois que aceitou seu lugar no mundo, é morta cruelmente por Jiaying. Ainda que tudo tenha sido um plano da própria inumana para desmascarar a líder para a assustada Skye e que seu final trágico tenha sido telegrafado quando ela diz, antes, em conversa com Skye, que essa seria a última vez que as duas se falariam, é impossível não sentir um pouco de tristeza por essa complexa personagem que vimos evoluir e transitar entre os dois lados dos diversos conflitos por que passou.

Da mesma maneira, o excelente Gordon e a perdida Kara se vão, o primeiro em ação conjunta de Coulson, Fitz e Mack – os dois últimos responsáveis pelas melhores frases do episódio – e a segunda pelas mãos sem hesitação de um Ward em modo assassino, demonstrando que, muito ao contrário do que imaginávamos, ele continua tão sociopata como sempre foi. E isso sem falar em Coulson, que perde uma mão graças à ação rápida de Mack para evitar que o cristal terrígeno que Gordon deixa cair o mate e em Bobbi, que é graficamente torturada por Ward.

Só por aí já é perfeitamente possível ver a evolução da série. De uma tacada só, em apenas três episódios, cinco personagens importantes são mortos, um é mutilado e outro é torturado, com Simmons sendo ainda tragada para aquele artefato Kree misterioso no porta-aviões da agência, deixando um desesperante cliffhanger no ar. E isso tudo acontece em meio a uma narrativa lógica que realmente amarra as pontas soltas e cria outras para serem exploradas no futuro. Qualquer resquício de confusão que a profusão de acontecimentos poderia gerar é apagado pelas direções seguras de Vincent Misiano e Billy Gierhart, que parecem ser um só tamanha é a coesão visual e estilística entre uma parte e outra. Os roteiros também trabalham em uníssono, contando, na duração de um longa-metragem, uma narrativa que muito bem poderia ser mesmo de um longa cinematográfico.

O que falar, também, das coreografias de luta? Se em The Dirty Half Dozen Skye já havia demonstrado suas habilidades no plano sequência sem cortes de invasão da base da HYDRA, agora nós a vemos por duas vezes deixar mais do que claro que ela não mais é aquela garotinha nerd da 1ª temporada. Ela enfrenta May quase de igual para igual, em um momento que deixa clara a superioridade da agente veterana e, depois, ela literalmente “chuta bundas” lutando com a “Mulher Múltipla” dos inumanos. Mas repare como Whedon é cuidadoso ao não exagerar suas habilidades. Ela perde as duas lutas, a primeira pela antagonista ser May, claro, e, a segunda, por ela estar em desvantagem numérica. Nada de super-heroísmos extremos e bobalhões. Há contenção no trabalho aqui e não uma entrega total ao histrionismo fanboy. E não estou dizendo que isso é sinônimo de realismo, longe disso, apenas é um bom exemplo de lógica interna.

Mas, no quesito luta, talvez o melhor momento seja a explosão da raivosa Bobbi contra o maquiavélico Ward. Essa narrativa, reconheço, é desconexa do todo relacionado com os inumanos, mas Ward é importante demais para ser deixado de lado e precisava “entrar” na história de alguma maneira e a forma encontrada no roteiro é surpreendentemente gráfica e violenta. Bobbi, depois de lentamente ser torturada por Ward, não esmorece e enfrenta Ward com uma fúria insana, gerando uma frenética pancadaria que é muito bem coreografada, especialmente quando Kara se junta a ela. Afinal, são três agentes muito bem treinados usando todas as suas habilidades. É uma luta até a morte em tese.

E ainda há a transformação de Cal em Mr. Hyde. Para quem não sabe, Mr. Hyde é a persona vilanesca de Calvin Zabo nos quadrinhos, um monstro em que o médico se transforma depois de tomar uma fórmula por ele desenvolvida. Já tivemos provas de que Cal tinha superforça, mas sua transformação total só acontece agora, depois que ele ingere três frascos de sua poção e Simmons injeta adrenalina nele. A maquiagem e a postura de Kyle MacLachlan como o monstro Mr. Hyde têm evidente tom cômico, tentando demonstrar, logo de início, que ele não é realmente a maior ameaça e sim um personagem torturado pelo amor que sente pelo verdadeiro monstro da história. Sua luta é muito mais um ataque destruidor do que uma verdadeira luta e sua interação com Coulson gera um dos mais tocantes momentos do episódio.

Não posso me esquecer de falar sobre o potencial futuro da série, armado de maneira crível pelos acontecimentos desse episódio. O primeiro aspecto de nota é a criação do que parece ser uma versão dos Guerreiros Secretos (Secret Warrioros) que, nos quadrinhos, é uma equipe secreta de seres superpoderosos reunida por Nick Fury durante os eventos da saga Invasão Secreta. O nome pode não ser esse, os membros podem não ser os mesmos, mas a conversa final entre Coulson e Skye basicamente cria essa divisão de meta-humanos dentro da S.H.I.E.L.D. com repercussões que podem ser amplamente aproveitadas em Capitão América: Guerra Civil, em 2016. Resta saber qual é a formação dessa equipe e como será a interação dela com os demais personagens sem poderes, especialmente considerando que Agents of S.H.I.E.L.D. foi criada justamente para trabalhar o lado humano de um mundo cheio de super-heróis. Além de Skye/Daisy, provavelmente teremos Deathlok e Lincoln. Que outros poderiam surgir?

Essa pergunta acima pode ser parcialmente respondida pelo outro grande acontecimento do final da temporada, a terrigênese homeopática que começará a acontecer com a ingestão de óleo de peixe. Se os cristais modificados matavam os humanos normais, é possível que a versão em pequenas doses processadas passe despercebida em humanos normais, mas ativem os poderes daqueles com o DNA Inumano deixado de presente pelos Kree. Com isso, novos seres super-poderosos poderão começar a aparecer de maneira orgânica dentro do Universo Cinematográfico Marvel, já que o estúdio não pode usar mutantes.

Essa “bomba de terrigênese” em formato de vitamina de peixe é, sem dúvida alguma, uma arriscada aposta da Marvel. Sim, ela faz sentido narrativo pois alimenta a série e os filmes da Marvel de super-heróis, mas, por outro lado, ele adianta em vários anos eventos que talvez só fosse tratados no prometido filme solo dos Inumanos. Ver uma série de TV introduzir conceitos no lugar de um longa metragem é, sem dúvida, sensacional, mas fico apreensivo pela queima de etapas e a diluição do conceito dos inumanos. Por outro lado, porém, não tenho dúvidas que há um bem amarrado master plan que Kevin Feige, mestre do universo da Marvel Studios, vem cuidadosamente descortinando desde 2008 com um sucesso atrás do outro.

Enfim, S.O.S. é a prova do amadurecimento de Agents of S.HI.E.L.D. e da monumental coesão do Universo Cinematográfico Marvel. Um presentão para fãs e também para aqueles que só querem um pouco de diversão descompromissada, mas com um pouquinho de cérebro.

Agents of S.H.I.E.L.D. – 2X21/22: S.O.S. – Partes 1 e 2 (EUA, 2015)
Showrunner: Joss Whedon, Jed Whedon
Direção: Vincent Misiano (Parte 1), Billy Gierhart (Parte 2)
Roteiro: Jeffrey Bell (Parte 1), Jed Whedon (Parte 2), Maurissa Tancharoen (Parte 2)
Elenco: Clark Gregg, Chloe Bennet, Ming-Na Wein, J. August Richards, Iain De Caestecker, Elizabeth Henstridge, Brett Dalton, B.J. Britt, Nick Blood, Adrian Pasdar, Hayley Atwell, Kenneth Choi, Neal McDonough, Henry Simmons, Brian Patrick Wade, Henry Simmons, Dylan Minnette, Kyle MacLachlan, Reed Diamond, Simon Kassianides, Adrianne Palicki, Tim DeKay, Jamie Alexander, Eddie McClintock, Edward James Olmos, Ruth Negga, Luke Mitchell, J. August Richards, Dichen Lachman
Duração: 43 min. (cada episódio)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.