Crítica | Agents of S.H.I.E.L.D. – 3X04: Devils You Know

estrelas 4

Aviso: Há SPOILERS do episódio e da série. Leia as críticas dos outros episódios, aqui.

Já disse algo semelhante em minha crítica anterior e reiterarei aqui de maneira mais incisiva: a série amadureceu e tornou-se algo com excelente desenvolvimento. Foram-se os episódios com “vilões da semana”, foram-se episódios desconexos, foram-se fan services a cada virada de esquina. Agora, Agents of S.H.I.E.L.D. passa a ser, independente de seu sub-gênero, uma ótima série feita para a TV aberta (há que se fazer essa diferenciação, senão o abismo comparativo fica grande demais), ao mesmo tempo que continua sendo um divertido e cada vez mais importante adendo ao Universo Cinematográfico Marvel.

Se isso já havia ficado claro em A Wanted (Inhu)Man, Devils You Know empresta senso de urgência, sobriedade e, principalmente, unicidade narrativa. Jed Whedon continua separando os núcleos de personagens – Daisy e Mack, Hunter e May, Fitz e Simmons, Coulson e Rosalind, além de Ward, Bobbi e Lash – mas vê-se o desenho do caminho que a série está tomando, nota-se o cuidado em inter-relacionar as histórias e até promover a “troca de duplas”, de maneira a ampliar a impressão de uma verdadeira equipe. Notem, por exemplo, como, apesar de termos três núcleos narrativos neste episódio, tudo caminha para apenas uma resolução: há Hunter e May caçando Ward; Daisy e Mack caçando Lash e Fitz e Simmons tentando entender o que aconteceu no planeta misterioso. Apesar de tecnicamente serem três histórias diferentes, existe uma “força invisível”, mas sensível (Jed Whedon, estou falando com você!), mantendo tudo no lugar e harmonizando os acontecimentos. Claro, a narrativa de Simmons parece ser a mais divorciada do contexto geral, mas, diferente do que se poderia concluir, ela acrescenta outra camada à série, abrindo portas que ainda nem mesmo sabemos para onde levam, mas que confio que serão lugares e situações fascinantes.

Em suma: Agents of S.H.I.E.L.D. está funcionando como uma série curta, de 13 episódios e não como mamutes de 23 ou 24 episódios desgovernados e correndo em direção a um abismo (e agora estou falando com vocês, Arrow e The Flashcaso não tenha sido claro…). Com isso, a história flui e prende a atenção do espectador, caminhando até mesmo para trabalhar um lado bem mais sombrio que os filmes da Marvel se esquivam de abordar, trazendo diversidade ao buffet super-heroístico do estúdio.

Afinal, se estivéssemos apenas no mundo das piadinhas e uniformes multi-coloridos, não teríamos testemunhado o tenso tiroteio entre Ward e seus minions e o ensandecido Hunter e a desesperada May, que tenta salvar seu ex-marido da armadilha do diretor da HYDRA (sim, Ward agora é oficialmente o hotshot da parada!) somente para vê-lo morrer nas mãos de Werner Von Strucker. Se ele morreu mesmo são outros quinhentos, claro, mas para fins desse episódio, o dramático final merece aplausos por não fazer concessões heroicas clichês. Resta saber, agora, caso a tragédia se confirme, como será a relação entre May e Hunter ou mesmo se May continuará na S.H.I.E.L.D. Assim como no caso do monólito, não esperava que Hunter chegasse tão rapidamente a Ward, mas já estou me acostumando com a progressão frenética das histórias.

E, na história de Lash, o monstrão azul que parece o Sonic bombado, finalmente vemos um pouco mais de profundidade narrativa. Receava que ele seria mais um personagem qualquer tirado dos quadrinhos, mas começamos a ver, ainda que de maneira débil, que ele é mais do que sua aparência, digamos, desnecessariamente super-vilanesca, deixa entrever. Há ainda muito mistério envolvido – notadamente a transformação em humano que Daisy vê nas sombras e a montagem sacana que nos dá a entender que Lash é, na verdade, Rosalind (mas não acredito que seja) – e muita coisa para acontecer, já que a caçada mal começou. Incomodou-me, claro, a entrada de Alisha (lembram-se da “mulher múltipla” da temporada passada?) logo na abertura do episódio, pois ela foi marretada no roteiro, sem uma lógica interna completamente aceitável. Sua função maior foi mesmo a de criar conflito entre Coulson e Andrew, aspecto esse que me faz crer – além da relação dele com May – que o psiquiatra não permanecerá morto por muito tempo (ainda que fosse interessante dramaticamente que ele se mantenha assim).

Ver Daisy novamente em ação com seu uniforme de Tremor também foi divertido e aos poucos vou esquecendo de sua persona anterior, que não era muito mais do que um veículo para nós, espectadores, nos sentirmos “em casa” na série. Agora como inumana completa e ressentindo o acordo encetado por Coulson no episódio anterior que trouxe a necessidade de a A.T.C.U. de Rosalind basicamente participar de todas as missões da S.H.I.E.L.D., vemos um pouco mais do potencial da personagem, que sai da sua zona de conforto e tenta galgar outros caminhos. E lógico, cada interação Coulson-Rosalind é um prazer total, tamanha é a química entre Clark Gregg e Constance Zimmer.

Finalmente, ainda que não aprendamos muito mais do que já sabíamos, a situação de Simmons ganha mais tempo de tela, com sua relutância em contar para Fitz que ela quer, na verdade, voltar para o planeta onde passou meses solitária (ou não…). Parece, porém, que o mistério já será esclarecido no próximo episódio, considerando sua decisão de contar tudo para o parceiro de maneira que ele a ajude a reconstruir o portal. Aqui, as especulações podem correr soltas. Podemos estar diante de um pequeno passo na direção da introdução do Universo Galáctico Marvel na série de TV, o que seria realmente impressionante, mesmo que grande parte da ação permaneça confinada à Terra. Alguns especulam que a própria Simmons poderia ser transformada em alguma persona super-heroística e um de nossos leitores até especulou sobre a possibilidade de ela se tornar Rocha Lunar. Seria de se tirar o chapéu, mas não sei se a série galgará de verdade esse caminho. Estou cautelosamente otimista.

Mas, voltando ao começo, vale relembrar que, estruturalmente, a série vem se mantendo coesa e engajante, com roteiros cada vez mais despreocupados em revisitar situações ou em serem didáticos. Em Devils You Know, Paul Zbyszewski escreve sem ter medo de ser feliz, intercalando situações que exigem uma ginástica de Ron Underwood na direção, com uma montagem que, apesar de frenética, não é, em momento algum, confusa, graças fundamentalmente à já mencionada estrutura de núcleos de personagens. Além disso, apesar de pouco usados, os efeitos especiais e práticos – incluindo aí até a maquiagem e próteses de Lash – estão cada vez melhores em sua discrição e fusão à história.

O quarto episódio da 3ª temporada de Agents of S.H.I.E.L.D. é mais um acerto de Jed Whedon que finalmente parece mostrar segurança completa em seu comando da série. Claro que, considerando que ainda temos quase 20 episódios pela frente, ainda é cedo para comemorar.

Agents of S.H.I.E.L.D. – 3X04: Devils You Know (EUA, 2015)
Showrunner: Jed Whedon
Direção: Ron Underwood
Roteiro: Paul Zbyszewski
Elenco: Clark Gregg, Chloe Bennet, Ming-Na Wein, Iain De Caestecker, Elizabeth Henstridge, Nick Blood, Adrianne Palicki, Henry Simmons, Luke Mitchell, Constance Zimmer, Matthew Willig, Andrew Howard, Juan Pablo Raba, William Sadler, Scott Heindl
Duração: 43 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.