Crítica | Agents of S.H.I.E.L.D. – 3X05: 4,722 Hours

estrelas 5,0

Aviso: Há SPOILERS do episódio e da série. Leia as críticas dos outros episódios, aqui.

Não sei muito bem o que pensar sobre 4,722 Hours, quinto episódio da 3ª temporada de Agents of S.H.I.E.L.D. Pelo menos não no momento em que começo a escrever essa crítica. Portanto, não achem que sou bipolar se eu ficar mudando de lado o tempo todo durante este arrazoado, pois o estou usando como uma maneira de formar minha opinião e talvez vocês, leitores, possam me ajudar nesse processo, concordando ou discordando ou, talvez, concordando e discordando…

Quando Devils You Know acabou, ficou claro que finalmente descobriríamos, no capítulo seguinte, o que raios havia acontecido no tal planeta em que Simmons passara meses. O que pouca gente esperava era que todo o episódio fosse dedicado a isso, em um longo flashback de seis meses, começando exatamente do momento em que Jemma foi tragada pelo monólito. Só tive essa certeza quando o título da série surgiu em fonte diferente ainda sobre a superfície azulada do planeta, deixando claro que o foco seria, única e exclusivamente, as tais 4.722 horas que a personagem passou no planeta.

Certamente foi um risco, mas também um grande acerto na estrutura narrativa de Jed Whedon. Essa conclusão vem não da coragem de mudar completamente a estrutura da série com um episódio desses (ainda que isso conte pontos também!), mas da necessidade de uma pausa. Aqueles mais atentos repararão que Laws of Nature, Purpose in the Machine, A Wanted (Inhu)Man e Devils You Know têm um aspecto em comum: a divisão em núcleos narrativos diversos e dispersos que contam, em uma visão macro, uma história só. O frenesi foi constante até aqui e 4,722 Hours quebrou a correria e nos fez parar para pensar, ainda que não necessariamente descansar.

E o segundo grande acerto, então, vem muito rapidamente e nós mal percebemos. O roteiro de Craig Titley nos faz mergulhar nas agruras de Jemma Simmons completamente debaixo da fotografia perturbadoramente azulada que emula a noite sem fim do planeta misterioso onde ela está. Com um pouco menos da metade do episódio com Elizabeth Henstridge totalmente sozinha no melhor estilo Robinson Crusoé, vemos a verdadeira latitude da atriz, algo que ela já havia dado pistas antes – mais recentemente na dificuldade de adaptação da personagem com a vida “normal” -, mas que realmente ganha espaço aqui. Ela convence em todos os momentos, mesmo quando luta contra tentáculos de borracha (e burramente se põe a boiar em uma poça d’água cujo fundo ela não vê…) e conversa consigo mesma e com seu celular cuja bateria é mais inacreditável do que tudo visto até agora na série. Henstridge transita bem, no pouco tempo que ela tem, entre a cientista fria e a mulher saudosa e desesperançosa e, também, novamente, como a mulher apaixonada que não desiste de maneira alguma.

Quando seu “Sexta-Feira” chega – Will , um astronauta americano vivido por Dillon Casey que está no planeta há 14 anos – a conexão entre os dois é gentil e imediata e qualquer espectador com um mínimo de experiência televisiva (ou bom senso) sabe que os dois terão envolvimento romântico mais cedo ou mais tarde. Todavia, mesmo com essa certeza em mente, a química entre os dois atores faz a aproximação ser natural e crível, mesmo com Simmons quase que a cada cinco minutos mencionando o nome de Fitz.

A informação a conta gotas do roteiro mantém a curiosidade acesa. Afinal, onde eles estão? Que ameaça é essa que Will diz existir? Como isso pode afetar a série e o Universo Cinematográfico Marvel como um todo? E, na medida em que o episódio progride, olhar o relógio é quase inevitável, mas não por que a narrativa está se arrastando e sim pois preciosos minutos vão passando sem que saibamos mais detalhes sobre o que está acontecendo além de uma figura vestida de preto e o fato de que há um cemitério com ossos (apenas humanos?) que indica que há séculos pessoas (seres?) vêm fazendo expedições de uma só mão para o inóspito local, o que já havia sido abordado no episódio de abertura da temporada.

A curiosidade vai então aumentando, aumentando, aumentando e… bem, e NADA. Simmons volta. Will fica. A “entidade” quase nada faz e estamos de volta ao presente, com Fitz recebendo a notícia com hombridade e prontificando-se a ajudar sua amiga (ou amor de sua vida) a reabrir o portão para salvar Will (que pode ser o amor da vida de Jemma…), que é visto vivo na cena final. Mas esse NADA me incomodou profundamente, pois foi um NADA completo, daqueles de jogar o controle remoto na televisão de tanta raiva.

O que afinal de contas nós aprendemos sobre o planeta? Que ele tem duas luas e que só faz sol por um minuto a cada 18 anos? Que há um ser que mata todos que visitam o local? Ah, a frustração é grande demais para ficar contida e eu tenho que escrever com mais letras maiúsculas: FIQUEI FRUSTRADO.

Mas,racionalizando, isso talvez seja bom. Os melhores filmes e as melhores séries são aquelas que não nos tratam como crianças com surpresas fanboy e artifícios bobalhões (e estou mesmo falando do Tubarão-Rei caso não tenham percebido…) e sim as que fazem nossa imaginação ficar a mil com as possibilidades, que nos fazem pensar além do fim em si mesmo da projeção, que nos faz admirar os esforços para se conseguir esse objetivo (e aqui, novamente, vai uma salva de palmas para Henstridge). Afinal de contas, sendo fã ou não dos quadrinhos, a “explicação” de 45 minutos levantou muito mais perguntas do que as respondeu, o que serve para retroalimentar a própria série com uma narrativa para lá de interessante se bem explorada.

O que fiquei pensando quando pude respirar ao final do episódio que me frustrou e que ao mesmo tempo me deixou admirado? Bem, a primeira coisa que imaginei foi o óbvio ululante: será que aquela entidade envolta em um manto negro em frangalhos é a Morte? Ela está cercada de esqueletos na tal no fly zone e usa de subterfúgios parecidos com os das sereias que tentaram Ulisses voltando de Troia. Se a entidade é a Morte, a conexão então com Thanos é inevitável e Thanos, como todos sabem, é o grande vilão do mega-plano cinematográfico da Marvel. E, para quem porventura não souber que Thanos é apaixonado pela Morte e faz o que faz para dar-lhe oferendas (nada como aniquilar mundos para entregar as almas para ela, não é mesmo?), saibam agora. Só essa possibilidade – ainda que esteja muito cético disso – já faz valer a frustração que inevitavelmente senti. Seria esse planeta a versão televisiva do “rochedo santuário” que Thanos constrói para a Morte em Desafio Infinito? Ou talvez uma versão de Titã, a lua de Saturno, lar inicial de Thanos nos quadrinhos e que foi destruída por ele?

Ou não é nada disso e Jed Whedon resolveu cavar mais fundo ainda no baú da Marvel trazendo Ego, o Planeta Vivo lá de baixo? Aquela rachadura como fonte de calor, a falta de padrão atmosférico que Will menciona, a própria entidade como uma versão telepática do planetoide vivo pode indicar algo nessa linha, ainda que, mais que a Morte, isso seja para lá de improvável (mesmo que, em algum canto de minha mente, só de imaginar que um dia estaria especulando algo do gênero, já me deixa que nem o proverbial pinto no lixo).

Uma coisa, porém, é certa: esqueci-me de Coulson e Rosalind, Daisy e Mack, Hunter e May, Lash e Ward. Apaguei qualquer coisa que não fosse o planeta azul onde Jemma está e, assim como ela, quero voltar para lá desesperadamente. Isso é ou não é televisão de qualidade?

É, pensando bem e relendo meu primeiro parágrafo, talvez minha dúvida não seja uma dúvida de verdade. Talvez tenha sido “só” excitação por ver algo inesperado, diferente e, sim, muito bem feito dentro de uma série desse naipe, que normalmente não gera tantas expectativas assim. Talvez minha dúvida tenha sido surpresa mesmo. Mas surpresa das boas. Daquela que você não quer que acabe nunca.

Agents of S.H.I.E.L.D. – 3X05: 4,722 Hours (EUA, 2015)
Showrunner: Jed Whedon
Direção: Jesse Bochco
Roteiro: Craig Titley
Elenco: Clark Gregg, Chloe Bennet, Ming-Na Wein, Iain De Caestecker, Elizabeth Henstridge, Nick Blood, Adrianne Palicki, Henry Simmons, Luke Mitchell, Constance Zimmer, Matthew Willig, Andrew Howard, Juan Pablo Raba, William Sadler, Scott Heindl, Dillon Casey
Duração: 43 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.