Crítica | Agents of S.H.I.E.L.D. – 3X18: The Singularity

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estrelas 4,5

Aviso: Há SPOILERS do episódio e da série. Leia as críticas dos outros episódios, aqui e de todo o Universo Cinematográfico Marvel, aqui.

Já disse isso algumas vezes durante minhas críticas de Agents of S.H.I.E.L.D., mas não me canso de repetir: aqueles que porventura tenham se afastado da série em razão da morna primeira temporada ou pelo fato de ela não ter “herói ou vilão da semana”, não imaginam o que estão perdendo. E não, a série não reinventa a roda, não é estupenda se comparadas com outras séries fora do sub-gênero oferecidas por aí, mas é um drama baseado de longe em quadrinhos da Marvel que surpreende por sua consistência e, arriscaria dizer, complexidade narrativa que não se esquiva de mexer no status quo, às vezes brutalmente.

The Singularity é um daqueles episódios que  só deixa mais clara em minha mente esta percepção. Apesar de resolver muito rapidamente o cliffhanger de The Team e de sem cerimônia defenestrar Joey e Yo-Yo mais uma vez, os dois focos narrativos principais – o casal inumano e o casal humano – mais do que compensam as falhas detectadas.

Reparem como o detalhamento dos poderes de Hive ganham camadas em cima de camadas, tornando-os, na verdade, bem mais perturbadores do que um mero controle mental ou um vírus escravizador. Isso seria muito simples e corriqueiro (ainda que o artifício tenha sido usado muito bem em Jessica Jones, vale lembrar), afinal de contas. Descobrimos que, na verdade, trata-se de uma espécie de vício em que a vítima tem plena consciência do que está fazendo, mas seus centros de prazer no cérebro ganham estimulação aumentada, fazendo com que a participação na “colméia” do inumano ancião seja algo prazeroso e recompensador. Coulson mesmo diz, muito claramente, que os sentimentos de Daisy e dos demais controlados os levam diretamente para o lado negro, o que torna a volta para o lado da luz muito mais complicado e traumático. São roteiros trabalhado dessa forma que elevam a série a algo mais do que divertimento teen inconsequente. Há cérebro aqui, não apenas romances lânguidos e conveniências narrativas.

É particularmente chocante o momento em que Daisy, usando seus poderes para emular Darth Vader com um Force choke em Fitz, suplica, com o rosto contorcido, que ele não mais tente impedi-la, que ela achou sua família ao lado de Hive e dos outros inumanos. Até que ponto ela tem controle da situação e até que ponto isso pode chegar, só o tempo dirá, mas essa sequência em particular está, sem dúvida, entre as melhores da série até agora.

O mesmo vale para Hive emulando Will (novamente Brett Dalton surpreende com sua atuação) e aproximando-se de uma fragilizada, pero non troppo, Simmons, em uma interessante “troca de casais”. Sua esperança, suas saudades e seu horror se misturam em outro momento excruciante que eleva a qualidade do trabalho de Jed Whedon e Maurissa Tancharoen ao nível mais alto até agora. Nada de saídas rasteiras, nada de trama simplificada para digestão fácil.

E mesmo antes da ação realmente começar, os momentos românticos entre os casais, dessa vez destrocados, funcionam perfeitamente bem dentro da trama, estabelecendo a plataforma de identificação que o espectador precisa para os eventos que descrevi acima. Os vilões – Daisy e Hive – flertam em região bucólica a céu aberto, quase que em um pequeno paraíso secreto dos dois, enquanto Fitz e Simmons, usando a singularidade do título como a metáfora científica para seu relacionamento, têm seu momento em uma boate em Bucareste, na Romênia, local pouco característico para os dois, com um roteiro que novamente inverte as expectativas.

Falando na boate, a ideia de um inferninho em que pessoas “transhumanas” costumam frequentar é um conceito interessante para a série, com bom potencial de aproveitamento futuro, especialmente com a aguardada volta de Deathlok (já devia ter voltado, não?). A introdução de Holden Radcliffe (John Hannah), como a esperança de cura para a influência de Hive, mas também como o “objeto de desejo” do próprio vilão acrescenta outro ângulo para a história, que, de repente, ganha um tom de ameaça global novamente de maneira inesperada, com Hive desejando replicar a experiência original dos Kree na Terra, potencialmente inumanizando a raça humana.

Sobre Radcliffe, o personagem foi retirado de uma obscura (para usar um eufemismo) minissérie da Marvel chamada Machine Teen, de 2005, em que ele é um industrial interessado justamente em um androide. O interessante é que, mais uma vez, a Marvel/ABC cava fundo nas referências, fazendo força para não fugir de sua vasta mitologia e usando-a e manobrando-a para adaptá-la ao Universo Cinematográfico Marvel.

Outra relação interessante no episódio é a de Coulson e May. Com uma certa frieza, vemos o diretor da S.H.I.E.L.D. transformar um transtornado Lincoln em uma bomba em potencial para permitir que ele vá para campo ao mesmo tempo em que entrega a May a responsabilidade de fazer seu jogo sujo. Ainda que secretamente eu tenha torcido para que o colete de Lincoln fosse ativado, a grande verdade é que o jogo que eles jogaram foi tenso e interessante, desnudando uma parte da personalidade super protetora de Coulson (em relação a Daisy) que ainda não havia ficado tão evidente.

E a cereja no bolo foi a volta de James, o divertido caipira australiano e candidato a inumano que vimos em Paradise Lost. Finalmente ganhando seus tão desejados poderes (com o “bônus” de poder participar da comunidade feliz de Hive), descobrimos que ele é Hellfire (ou Infernal), personagem também ligado aos Guerreiros Secretos nos quadrinhos e cujo poder, na série, assemelha-se muito com o de Gambit, o X-Men cajun.

Do lado negativo, além do já mencionado chá de sumiço de Joey e Yo-Yo e da pressa para lidar com as consequências dos abalos sísmicos que destruíram a base da S.H.I.E.L.D., há a forma como a Hydra foi abordada. Com a morte de Malick, a entidade vilanesca perdeu sua função narrativa, mas incomodou-me a forma pouco elegante e para lá de conveniente para dar-lhe um ponto final. Usando apenas comunicação com Talbot e uma breve sequência em que Coulson e May observam uma tela, testemunhamos o fim da Hydra milenar como se nunca tivesse existido. Foi varrida para debaixo do tapete, pelo menos até que ela seja novamente necessária.

The Singularity é, apesar dos pequenos problemas, um grande episódio da série. Mostra que a televisão aberta consegue sim, quando quer, fazer temporadas longas sem emburrecer a trama e sem descambar para a repetição temática.

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Leia, abaixo, somente se já assistiu Capitão América: Guerra Civil ou não se importar com spoilers do filme. 

Se houver, a conexão mais direta com Guerra Civil somente acontecerá no próximo episódio e/ou no posterior, já que o filme estreia nos EUA somente semana que vem. No entanto, há duas situações que fazem discreta ligação com o filme (ou podem ser devaneios meus, claro).

A primeira delas é o fato de a boate onde Radcliffe está ser localizada em Bucareste. Ora, Buscareste é onde Bucky Barners, o Soldado Invernal, descobre que foi acusado de explodir a reunião da ONU e matado T’Chaka. Não foi uma mera coincidência que a mesma cidade é referência no filme e na série.

Além disso, Radcliffe é um “transhumanista”, ou seja, um médico cuja especialidade é melhoras os humanos com implantes cibernéticos. Bucky tem um braço mecânico, não é mesmo? Hmmmm…. Será que ele foi para lá procurar o especialista, talvez para retirar o braço, alterá-lo ou até mesmo lidar com os implantes soviéticos que recebera?

Outro detalhe importante é o escudo de energia que Coulson usa para proteger-se da explosão na cabana de James. Além do gadget em si ser mais do que bacana, fato é que, ao final de Guerra Civil, o Capitão América entrega seu escudo a Tony Stark. E, nos quadrinhos, ele já usou um escudo de energia desses. Será que veremos o Capitão com uma variação do escudo de Coulson?

Agents of S.H.I.E.L.D. – 3X18: The Singularity (EUA, 26 de abril de 2016)
Showrunner: Jed Whedon, Maurissa Tancharoen
Direção:  Garry A. Brown
Roteiro: Lauren LeFranc
Elenco: Clark Gregg, Chloe Bennet, Ming-Na Wein, Iain De Caestecker, Elizabeth Henstridge, Henry Simmons, Luke Mitchell, Matthew Willig, Andrew Howard, Juan Pablo Raba, William Sadler, Scott Heindl, Dillon Casey, Mark Dacascos, Brett Dalton, Natalia Cordova-Buckley, Gaius Charles, Titus Welliver, John Hannah
Duração: 43 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.