Crítica | Agents of S.H.I.E.L.D. – 3X20: Emancipation

estrelas 4

Aviso: Há SPOILERS do episódio e da série. Leia as críticas dos outros episódios, aqui e de todo o Universo Cinematográfico Marvel, aqui.

Depois de conexões indiretas com Capitão América: Guerra Civil no excelente The Singularity e no bom Failed Experiments, finalmente o aguardado tie-in propriamente dito com o blockbuster chega a Agents of  S.H.I.E.L.D. E devo confessar que fiquei surpreso com a esperteza do roteiro ao costurar os Acordos de Sokovia como trampolim para a presença do General Talbot no quartel-general da agência de espionagem que, no melhor estilo James Bond, é revelada como situada abaixo de um “pé sujo” (gin joint é a expressão usada por Talbot que, apesar de ser do século XVIII, foi uma discreta menção a Casablanca, claro, uma das várias referências a obras cinematográficas no episódio, como Chamas da VingançaTrês Homens em Conflito, só para citar mais dois), com direito a elevador disfarçado de mesa.

A esperteza está em transformar as menções ao Acordo de Sokovia e ao registro dos super-heróis em não mais do que um MacGuffin, algo que está lá apenas para permitir a presença do personagem necessário para que o mirabolante – e sensacional! – plano de May surpreenda o espectador. Afinal, Talbot, que visita a S.H.I.E.L.D. sob ordens do presidente americano para registrar os inumanos que trabalham para Coulson, é o artifício narrativo que faz as vezes de espectador na narrativa, com tudo sendo explicado para ele e com toda a ação acontecendo apesar dele, nos bastidores. Sem Talbot ali, o efeito da repentina aparição de Lincoln no hangar de onde ele acabara de decolar e a aparição “mágica” de Chibata no Quinjet sendo recebido por Hive/Colmeia não funcionaria. Pontos para o roteiro mais do que azeitado de Craig Titley, que escreveu o excepcional episódio 4,722 Hours e o tematicamente semelhante The Inside Man.

E talvez o mais interessante é que, mesmo que alguém tenha percebido o truque antes da revelação (confesso que caí como um patinho…), o episódio não depende exclusivamente do twist para funcionar. A narrativa lenta e talvez até didática do começo até o momento em que Mack pula em cima de Lincoln pode parecer exagerada e enfadonha, mas a grande verdade é que ela foi construída dessa forma para criar tensão sem pressa, desviando nosso olhar a todo o tempo e manobrando nossa antipatia por Lincoln e forçando nosso desespero por mais essa besteira que o jovem e estressado inumano estaria por cometer. O diretor Vincent Misiano (de Laws of Nature e Maveth nesta temporada), um dos mais constantes da série, usa uma câmera esperta, bem situada no espaço diegético para aumentar o efeito do roteiro em passar a perna no espectador. Cada sequência é pensada para contar a história que vemos na superfície ao mesmo tempo que faz o “plano de May” funcionar, especialmente em retrospecto, se pararmos ou para remontar mentalmente as cenas – repare como May pouco aparece depois que Coulson a solta para fazer o que fosse necessário para acabar com Colmeia – ou para reassistirmos o episódio. Claro, não é nenhum maravilha irretocável, mas funciona perfeitamente bem dentro do espírito de uma série que tem como base uma agência internacional de espionagem em um mundo tomado de super-heróis.

No lado vilanesco da história, o momento em que Infernal (Hellfire) e Colmeia agem em dupla para capturar os coitados dos Watchdogs (sim, fiquei com pena deles) para a segunda experiência inumana de Radcliffe, é um daqueles que os fãs dos quadrinhos mais aguardavam. Afinal, James finalmente usa a corrente em chamas, sua marca registrada nos quadrinhos e que faz referência indireta à mitologia do Motoqueiro Fantasma, também conhecido pela mesma arma letal, já que James é neto de Carter Slade, o primeiro “Motoqueiro” Fantasma (Cavaleiro Fantasma por aqui) dos quadrinhos. Pena que a ação durou pouco.

Mas o abuso inclemente de Daisy por Colmeia levou a sequências poderosas no episódio, com um belo trabalho de maquiagem que fez a personagem definhar diante de nossos olhos a cada vez que ela se tornava o centro das atenções. Com seu sangue sendo colhido para a criação de inumanos “defeituosos” (uma bela piscadela aos inumanos Alfa-Primitivos dos quadrinhos), Chloe Bennet tem mais uma oportunidade de mostrar sua capacidade de atuação, algo que tem ficado em evidência desde que ela se tornou “Dark Skye”. Por isso tenho sentimentos conflitantes sobre sua cura por Chibata. De um lado, teremos provavelmente uma Daisy vingativa no combate final contra Colmeia, mas, por outro, uma parte de mim desejaria – assim como uma certa leitora aqui de minhas críticas… – que ela permanecesse mais tempo no “lado negro”, fazendo efetivamente dupla com o vilão principal em uma pancadaria épica. Resta agora saber como Daisy lidará com tudo o que fez enquanto controlada por Colmeia.

Falando em Chibata, o conflito final entre ele e Colmeia foi outro ponto alto do episódio, ainda que o orçamento mais apertado tenha evitado uma luta mais longa e repleta de efeitos especiais. Mas o que foi mostrado – novamente a maquiagem dando um show – foi bem coreografado e utilizado dentro da trama, mesmo que a morte fácil demais de Chibata possa incomodar, já que ele ganhou destaque na primeira metade da temporada apenas para ser eliminado sem cerimônias da trama. O determinismo do papel dos inumanos, conforme defendido por Lincoln há algum tempo, porém, permite um certo sentimento de dever cumprido e fechamento do arco do personagem.

Emancipation, mesmo com a obrigação já tradicional de referenciar Capitão América: Guerra Civil, armou muito eficientemente o final da temporada em dois episódios a serem transmitidos no mesmo dia na semana que vem. A convergência das tramas está clara, o plano de Colmeia tomou forma e Mack ganhou o “crucifixo da morte” de Yo-Yo, provavelmente apenas uma forma de despistar os espectadores para a verdadeira baixa. Pode ser cedo demais para dizer, mas Agents of S.H.I.E.L.D. provavelmente encerrará uma temporada inteira sem errar de verdade uma vez sequer. E isso é muito mais – mas muito mesmo – que se pode dizer da maioria das séries baseadas em quadrinhos mainstream por aí.

Agents of S.H.I.E.L.D. – 3X20: Emancipation (EUA, 10 de maio de 2016)
Showrunner: Jed Whedon, Maurissa Tancharoen
Direção: Vincent Misiano
Roteiro: Craig Titley
Elenco: Clark Gregg, Chloe Bennet, Ming-Na Wein, Iain De Caestecker, Elizabeth Henstridge, Henry Simmons, Luke Mitchell, Matthew Willig, Andrew Howard, Juan Pablo Raba, William Sadler, Scott Heindl, Dillon Casey, Mark Dacascos, Brett Dalton, Natalia Cordova-Buckley, Gaius Charles, Titus Welliver, John Hannah
Duração: 43 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.