Crítica | Agents of S.H.I.E.L.D. – 3X21/22: Absolution / Ascension

Absolution

estrelas 4

Ascension

estrelas 3

Aviso: Há SPOILERS do episódio e da série. Leia as críticas dos outros episódios, aqui e de todo o Universo Cinematográfico Marvel, aqui.

Fiquei ao mesmo tempo feliz e desapontado com Absolution e Ascension, os dois episódios que formaram o final duplo de Agents of S.H.I.E.L.D. De um lado, a terceira temporada da série conseguiu firmar-se como algo especial, bem acima da média de outras séries longas de TV aberta baseadas em quadrinhos mainstream de super-heróis. Por outro, o encerramento ficou muito aquém do que poderia ter sido, algo que de certa forma gera receio para a vindoura quarta temporada, ainda que, transferida para um horário mais tarde, ela possa arriscar mais, ainda que essa mudança também possa sinalizar problemas na grade da ABC.

Mas deixemos para pensar sobre o futuro da série quando estivermos discutindo a possibilidade de renovação para uma quinta temporada. Pelo momento, foquemos nos episódios em questão, começando pelos aspectos positivos.

Absolution começa com um pesadelo de Daisy presa com Coulson no que parece ser o planeta azul que vimos pela primeira vez em 4,722 Hours, somente para que descubramos que, na verdade, esta é a Terra supostamente após a vitória de Hive em seu plano de “inumanização” mundial. Com isso, o roteiro de Chris Dingess e Drew Z. Greenberg já pinta um futuro negro para a heroína e a S.H.I.E.L.D. que continua com o belo tratamento que Daisy recebe em relação à sua cura da influência viciante de Hive.

A crise de abstinência de Daisy é um momento corajoso na série, trabalhando as consequências psicológicas de uma situação como essa de maneira sóbria e crível, notadamente quando ela, no momento final, quando achamos que haverá confronto com Hive, ela se ajoelha perante o vilão e genuinamente implora para que ele a controle novamente, a vicie novamente, a faça sentir-se “completa”. Raras vezes o vício de heróis foi trabalhado nos quadrinhos das grandes editoras e um desses grandes exemplos foi o arco Demônio da Garrafa que coloca Tony Stark sucumbindo ao alcoolismo, algo que é muito de longe e sem nenhuma gravidade abordado em Homem de Ferro 2. Em Agents of S.H.I.E.L.D., a dependência química ganha uma roupagem muito interessante em bem-vinda, com um ótimo trabalho mais uma vez de Chloe Bennet. Ela é a heroína quebra, à mercê de algo que é maior e mais forte do que ela. A quebra de expectativa trabalhada por Billy Gierhart (no único episódio que dirigiu nesta terceira temporada, depois de trabalhar em dois em cada uma das temporadas anteriores) é chocante e que gera um cliffhanger inteligente que efetivamente deixa o espectador na dúvida se aquilo que está vendo é aquilo mesmo ou mais um “plano secreto” para derrotar o vilão. E palmas para os showrunners por elegerem não banalizar a situação com a revelação posterior de que tudo seria um truque de Daisy.

O restante de Absolution empalidece diante da situação que descrevi acima, ainda que a atmosfera de filme de terror B imposta pelo diretor depois que agentes da S.H.I.E.L.D. transformados em inumanos primitivos passam a caçar Coulson e companhia pelo quartel-general seja divertida e às vezes tensa, com uma fotografia escura que tenta capturar a atmosfera dos melhores exemplares do gênero. Às vezes evocando Alien, outras vezes Halloween, o trabalho do elenco é convincente, especialmente a dinâmica entre Mack e Yo-Yo, esta última cada vez mais se revelando como uma excelente futura (espero!) personagem fixa. Mas fica uma pergunta: onde diabos está Joey?

O que não funciona é a velocidade e simplicidade com que o plano inicial de Hive é desbaratado pela S.H.I.E.L.D. e como o plano B dele passa a entrar em funcionamento. O descarte rápido de uma boa sequência inicial de ação e o início de um complicado plano dependente de um sem-número de fatores externos pareceu-me corrido demais, ainda que a confusão mental infligida a Hive por Mack e Lincoln tenha sido uma maneira inteligente que o roteiro encontrou para equalizar os poderes do vilão, tornando-o mais “confrontável” sem que muito fosse pedido da suspensão da descrença nesse aspecto.

É em Absolution, também, que o “jogo do crucifixo da morte” começa e, ainda que ele não seja particularmente intrusivo aqui, ele ganha contornos muito irritantes em Ascension. De Mack quase de volta para Yo-Yo, de volta para Mack, então para Fitz, depois Daisy e finalmente Lincoln, o MacGuffin vira quase motivo de piada para o espectador, com um roteiro do próprio Jed Whedon que banaliza sobremaneira o artifício narrativo.

A inevitabilidade do futuro, algo que já havia sido comprovado na série em Spacetime e The Team, realmente tornava o crucifixo junto com o uniforme da S.H.I.E.L.D. importante para o season finale, mas a maneira quase galhofeira como isso é abordado, como se o objeto fosse uma batata quente sobre o qual os personagens tinham consciência, pareceu-me uma forma desleixada e, em última análise, boba de se encarar a questão. Muito longe de uma fluidez natural, o roteiro fez da visão fatalista de futuro que Daisy teve uma brincadeira que, muito ao contrário de criar tensão, a quebrou completamente.

Mais do que isso, o episódio final teve ritmo claudicante ao enxertar momentos expositivos chorosos em meio à ação no Zephyr One. Reparem, por exemplo, quando Daisy está presa no módulo de contenção que ela mesmo usara para entregar-se a Hive. Ela implora para May não deixa-la sair dali, Giyera entra, nocauteia May e, novamente, vemos um diálogo longo que nos leva a outro momento breve de ação (aliás, muito boa por parte de Fitz, devo confessar), somente para Daisy sair dali e continuar a choradeira sobre a culpa terrível que sente, algo ecoado e perfeitamente compreendido por Lincoln, como viciado que é. Mas o assunto que em Absolution era sério e tratado com solenidade, toma o caminho da pieguice em Ascension, perigosamente aproximando-se de uma novela mexicana, algo que só fica mais acentuado ainda com o sacrifício final de Lincoln ao levar o Quinjet para o espaço com a bomba terrígena e Hive, matando dois – ou três, se você, como eu, não gostava de Lincoln – com uma cajadada só. O momento pré-explosão em si foi muito bem orquestrado, com os dois inimigos, lado-a-lado, literalmente aceitando e fazendo as pazes com o destino, abraçando-o, na verdade. A câmera flutuante que nos coloca no meio daquela paz momentânea, dando-nos outra visão da previsão de futuro de Daisy foi perfeitamente trabalhada e encheu a sequência de lirismo encerrando dignamente o arco dos dois personagens.

Mas, nesse ponto, devo abordar minha penúltima e talvez mais grave reclamação: Hive. De um vilão promissor, ele demorou demais a desabrochar e, quando teve a chance, acabou não mostrando a que veio. Onde está o monstro genocida que acabou com a vida em um planeta inteiro? Onde está o primeiro homem a ser objeto da experiência genética dos Kree há milênios? Onde está o inumano super-poderoso que levou à criação da própria Hydra? Nós o vimos sim de relance em alguns momentos nesta segunda metade de temporada, mas o personagem jamais ganhou os holofotes como prometia. Ele começou como um quase subalterno de Malick para o chefe efetivo da Hydra – ou do que restou dela – tornando-se uma efetiva ameaça global, somente para ser derrotado simplória e facilmente por alguns agentes da S.H.I.E.L.D. sem que o espectador tenha sentido o verdadeiro impacto de sua presença fora os aspectos psicológicos legados a Daisy. O próprio Hive tornou-se um artifício narrativo como o crucifixo, ainda que tratado de maneira bem mais solene por boa parte do episódio, com direito até a uma boa, mas inócua, luta contra Daisy.

Com isso, chego, finalmente, à minha reclamação final: que epílogo foi aquele? Daisy foragida – sendo chamada finalmente de Quake! – e tornando-se a Robin Hood dos terremotos, Coulson não mais como diretor da S.H.I.E.LD. e Radcliffe criando o LMD, ou o Life Model Decoy? Tudo bem que era importante ao menos criar um gancho para a já aprovada quarta temporada, mas o pulo temporal pareceu-me extravagante e, pior, desinteressante. Ainda que seja perfeitamente possível aceitar Daisy revertendo a seu status original como foragida da lei (ela era uma hacktivist em um passado distante pré-inumanidade, lembram?) e ajudando a família de Charles Hinton, Coulson fora da S.H.I.E.L.D. (será que a agência ainda existe?) gerou um movimento involuntário de “virada de olhos” e o LMD ao final (trata-se de um organismo artificial muito usado pelo Nick Fury original nos quadrinhos) foi tão completamente aleatório e de certa forma sem consequência prática imediata que não consegui sentir “aquela” vontade de saber o que acontecerá na próxima temporada, ainda que, lá no fundo, o aparente fato de que Fitz está agora trabalhando com Radcliffe tenha feito com que eu levantasse a sobrancelha em um esboço de curiosidade…

Com um ótimo penúltimo episódio e um problemático – mas ainda assim engajante – último episódio, Agents of S.H.I.E.L.D. se despede pelos próximos meses mostrando que uma série de TV aberta baseada em quadrinhos mainstream não precisa ser rasteira, episódica e perdida. Ela pode e, mais do que isso, deve desafiar o espectador mesmo que acabe tendo problemas aqui e ali.

Agents of S.H.I.E.L.D. – 3X21/22: Absolution / Ascension (EUA, 17 de maio de 2016)
Showrunner: Jed Whedon, Maurissa Tancharoen
Direção: Billy Gierhart (Absolution), Kevin Tanchareon (Ascension)
Roteiro: Chris Dingess e Drew Z. Greenberg (Absolution), Jed Whedon (Ascension)
Elenco: Clark Gregg, Chloe Bennet, Ming-Na Wein, Iain De Caestecker, Elizabeth Henstridge, Henry Simmons, Luke Mitchell, Matthew Willig, Andrew Howard, Juan Pablo Raba, William Sadler, Scott Heindl, Dillon Casey, Mark Dacascos, Brett Dalton, Natalia Cordova-Buckley, Gaius Charles, Titus Welliver, John Hannah
Duração: 43 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.