Crítica | Agents of S.H.I.E.L.D. – 4X01: The Ghost

estrelas 3,5

Aviso: Há SPOILERS do episódio e da série. Leia as críticas dos outros episódios, aqui e de todo o Universo Cinematográfico Marvel, aqui.

Preparem-se, pois a conversa é longa e potencialmente polêmica!

Refleti bastante antes de começar a escrever sobre este episódio. Achei que poderia abordar direto o que vi, mas acabei tendo tempo para pensar em todos os acontecimentos que tomaram as temporadas anteriores e também no futuro da série e, por mais que realmente goste do evidente e constante amadurecimento de Agents of S.H.I.E.L.D., creio que, talvez, a Marvel e a ABC tenham perdido a oportunidade de encerrar a série em seu ponto mais alto. Claro que seria necessário alterar o epilogo que vimos em Ascension, mas a grande verdade é que as três temporadas fecharam, de maneira bastante eficiente, um interessante arco não diretamente super-heroístico do Universo Cinematográfico Marvel.

Calma, gente. Não tenham um infarte por conta do que acabei de dizer, pois é apenas um pensamento que gostaria de compartilhar com vocês. Daisy/Skye/Tremor evoluiu de uma hacker revoltada a uma inumana super-poderosa e segura de si; os inumanos ganharam origem e estabelecimento neste universo, com uma história completa; a Hydra foi abordada de maneira competente, tendo sua mitologia expandida ainda mais e, no final, destruída (até que renasça, claro); Grant Ward, de maneira muito similar a Daisy, ganhou um surpreendente arco de desenvolvimento que transformou o canastrão Brett Dalton em um ator de incrível latitude; Coulson restabeleceu-se como figura importante na S.H.I.E.L.D.; Fitz e Simmons se encontraram finalmente, depois de muitas agruras e perdas; os Guerreiros Secretos foram formados e de certa forma debandados e assim por diante. Não era realmente necessária uma continuação da série em si, que poderia ter funcionado como um trampolim para alguns personagens migrarem da telinha para a telona (Coulson e Tremor seriam os dois candidatos mais óbvios, mas Yo-Yo, Joey e Infernal também poderiam facilmente pular para o cinema, isso sem falar no restante da equipe, que poderia ser os rostos da S.H.I.E.L.D. reformada ou até mesmo também da S.W.O.R.D. em vindouros filmes). Em outras palavras, Agents of S.H.I.E.L.D. já havia cumprido, com louvor, seu papel dentro dessa fantástica e cada vez mais intrincada rede de filmes e séries que a Marvel iniciou em 2008 e que continua a todo vapor.

Claro que alguém poderia argumentar, com a mesma medida de razão, que, agora que a série se acertou, é o momento de expandi-la e não encerrá-la. E é verdade, mas sou um resoluto partidário da tese que “menos é mais” e o momento para parar talvez já tenha passado mesmo ou, no mínimo, esteja muito, mas muito próximo. E encerrar algo não é necessariamente uma derrota – não seria no caso de AoS -, até porque a ideia seria caminhar por outros caminhos, abrir outras frentes com outras séries potencialmente até mais interessantes, agora que o caminho foi pavimentado e as aventuras de Coulson e companhia geraram know-how para a ABC, assim como Demolidor gerou para o Netflx.

O que me levou a concluir isso? Bem, principalmente, a campanha de marketing da 4ª temporada. Ela foi toda focada no Ghost Rider (Motorista Fantasma, a versão latina e automobilística do clássico Motoqueiro Fantasma), com direito ao nome do personagem quase passando a fazer parte do título da série. O objetivo era óbvio: atrair novos espectadores, aqueles que precisam que super-heróis uniformizados apareçam em alguma série para que tenham vontade de assisti-la, os mesmos que desdenharam Agents of S.H.I.E.L.D. e que idolatram as porcarias da fábrica de bobagens chamada The CW. Reparem que, propositalmente, a série sempre manteve seres super-poderosos apenas como pano de fundo, tendo somente Skye nos holofotes e mesmo assim muito mais para efeitos dramáticos (a manipulação dela por Colmeia foi o ponto alto desse aspecto) do que por seus poderes sismológicos. E o mesmo vale para Yo-Yo, Joey, Infernal e Lincoln. A chegada do Ghost Rider tem eminentemente um fundo marketeiro e isso tem potencial de ser ruim.

E isso não quer dizer que não tenha gostado do que vi. Ao contrário, adorei a presença em si do personagem em The Ghost. Gabriel Luna convenceu como a versão pós-quadrinhos de Robbie Reyes (para quem leu, é fácil perceber que o que vimos no episódio é quase que uma continuação direta dos eventos do último número da série original All-New Ghost Rider, ainda que isso não faça diferença para quem não leu), os efeitos especiais foram muito bem empregados, assim como o design do personagem que, nos poucos segundos em que aparece, janta fácil as duas versões de Nicolas Cage. E isso sem falar na sequência inicial em que o Dodge Charger 69 envenenado transforma-se no Hell Charger em plena pirueta aérea, desde já meu momento de ação favorito da toda a série. Portanto, nota 10 pelo trabalho feito nesse ponto, trabalho esse que, mesmo com apenas esse único episódio, me leva a concluir que eu já quero ver uma série spin-off do personagem e espero fortemente que a ABC/Marvel esteja considerando isso.

Mas, deixando o grande atrativo do episódio inaugural de lado por um momento, o que temos, na verdade, é um soft reboot da série, não é mesmo? Um pegada mais sombria, mais violenta (pois, aparentemente, sangue é sinônimo de violência) e mais sexualizada (desnecessária a sequência de Skye se vestindo como em anúncio da DuLoren…) de Agents of S.H.I.E.L.D. que mexe completamente no status quo dos personagens, agora divididos em pequenos grupos, todos controlados por um ainda misterioso novo diretor da entidade. Mack e Coulson, este agora rebaixado a agente, comandam quase que uma divisão rebelde da agência de espionagem que parece ter como único objetivo achar Skye; Skye corre o mundo atrás dos Cães de Guarda (Watchdogs) com maquiagem preta nos olhos e abusando de seus poderes, o que lhe causa problemas físicos; Simmons tornou-se hierarquicamente superior a todos, tentando equacionar o quanto o novo diretor não gosta da equipe; May está ressentida com tudo, mas ajuda Coulson; Fitz trabalha em conjunto com Radcliffe, que lhe apresenta oficialmente a AIDA (Mallory Jansen), a Modelo de Vida Artificial (Life Model Decoy) que inventara ao final da temporada anterior e Yo-Yo funciona como uma agente dupla, ajudando Mack, por quem continua atraída, e também Skye.

Só aí vê-se como tem coisa para ser trabalhada na temporada, e tudo é apresentado de maneira até bem eficiente – apesar de picotada – dentro deste tumultuado primeiro episódio, que, em muitos momentos, parece uma versão estendida do epílogo de Ascension. Isso é um bom sinal, claro, pois mostra que os planos dos showrunners parecem ter solidez pelo menos para a primeira metade da temporada, supondo que eles continuarão com a acertada decisão de fazer dois arcos narrativos para impedir que os 22 episódios padrão de TV aberta estiquem demais a história como acontece muito por aí. Mas não sou (ainda) bipolar. Sei que acabei de dizer que AoS talvez pudesse ter acabado na 3ª temporada e agora estou elogiando o começo da 4ª, mas isso não é contradição, apenas uma constatação. A série continua, isso é fato, e tenho que aceitar e analisar o que nos foi oferecido no roteiro inicial frenético de Jed Whedon e Maurissa Tanchareon.

A convergência, porém, entre meus dois pontos de vista aparentemente opostos é bastante clara. Para continuar, a série teve que começar de novo, com direito até a horário mais tarde na TV americana para poder mostrar e abordar assuntos inapropriados para horários mais, digamos, infantis e, com isso, potencialmente atrair público. Daí a atmosfera sombria, mais sangue espalhado e mais calcinhas sendo vestidas. Mas esses elementos, confesso, me pareceram forçados aqui, quase nos dizendo que o que determina uma série como “adulta” é a presença de atores nus, tripas e fotografia noturna. Se tivesse havido organicidade nessas inclusões, maravilha, mas a grande verdade é que, com exceção das rápidas sequências com o Ghost Rider (eu não consigo ainda chamar naturalmente o sujeito de Motorista Fantasma…), que mesmo assim não precisavam da sanguinolência toda, todo o restante está lá gratuitamente, inclusive a ridícula maquiagem grunge de Skye, já que somos todos espectadores burros e é necessário uma pista visual óbvia para revelar o estado de espírito de um personagem…

E, no meio da fenomenal inclusão de Robbie Reyes, de Skye deprê tomada pelo “lado negro” e o esfacelamento do restante da equipe original, que obviamente será reunida em algum momento no futuro próximo, temos a trama principal inicial, que parece lidar com a tal misteriosa caixa cobiçada pelos criminosos orientais e que liberta um fantasma. O que exatamente é aquilo? Um “espírito da vingança” para combinar com a presença do Ghost Rider? Ou uma menção direta ao vindouro Doutor Estranho, considerando que, conforme vimos nos trailers, o visual fantasmagórico de olhos negros e cicatrizes ao redor parece muito com o de Kaecilius, vilão vivido por Mads Mikkelsen no longa? Seja como for, a porta para o sobrenatural foi aberta pela Marvel em 2016, tanto na série, como no filme em questão, o que realmente amplifica as possibilidades narrativas, ainda que passe a exigir mais dos efeitos especiais que, na TV, são normalmente inferiores ao que estamos acostumados. De toda forma, a temática tripla do “fantasma” (Skye, Robbie e a fantasma da caixa) tem potencial para ser interessante se o assunto não for tratado da maneira anti-climática como foi com o supostamente super-poderoso Colmeia que se mostrou desapontadoramente fraco.

Se eu prefiro Agents of S.H.I.E.L.D. fora do esquema “super-herói ou super-vilão uniformizado da semana”? Sem dúvida alguma. E a presença do Ghost Rider de nenhuma forma significa que a série enveredou por esse caminho tenebroso, ainda que ele tenha sido muito mais uma ferramenta de marketing do que um inclusão lógica na estrutura narrativa. Afinal, estamos falando de apenas um episódio e de apenas um novo super-personagem, sem pistas – até agora – de outros. Além disso, por ser o primeiro da temporada, era inevitável que o capítulo fosse crivado de novas situações já que o objetivo era recomeçar para continuar. Com isso, mesmo considerando minha reflexão inicial – que mantenho – devo confessar que foi um competente trabalho da produção que deixa um gosto de quero mais. Resta saber se a continuidade da série será justificada por algo mais do que apenas mais sangue, sexo e caveiras flamejantes…

P.s.: Não, não quero “mão-Raio-X” e sim o escudo de energia de Coulson de volta!

Agents of S.H.I.E.L.D. – 4X01: The Ghost (EUA, 20 de setembro de 2016)
Showrunner: Jed Whedon, Maurissa Tancharoen, Jeffrey Bell
Direção: Billy Gierhart
Roteiro: Jed Whedon, Maurissa Tanchareon
Elenco: Clark Gregg, Chloe Bennet, Ming-Na Wein, Iain De Caestecker, Elizabeth Henstridge, Henry Simmons, Holden Radcliffe, Gabriel Luna, Lorenzo James Henrie, Mallory Jansen, Lilli Birdsell, Briana Venskus, Maximilian Osinski, Ricardo Walker, Wilson Ramirez, Jen Sung
Duração: 43 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.