Crítica | Agents of S.H.I.E.L.D. – 4X02: Meet the New Boss

estrelas 3,5

Aviso: Há SPOILERS do episódio e da série. Leia as críticas dos outros episódios aqui e de todo o Universo Cinematográfico Marvel aqui.

A sensação que tive ao assistir ao segundo episódio desse soft reboot de Agents of S.H.I.E.L.D. me lembrou, em retrospecto, a que tive vendo a 1ª temporada da série. Aquele leve incômodo de que as coisas estão fora de lugar e ao mesmo tempo algum grau de confiança que os showrunners conseguirão fazer tudo se encaixar.

Apesar de o Ghost Rider ter sido marretado quase que aleatoriamente na temporada com o objetivo primordial de funcionar como isca para pescar mais peixes na audiência, o fato é que Gabriel Luna está muito bem no papel e tem comando total de “palco”, conseguindo até ofuscar a presença de Chloe Bennet que, nesses episódios, não tem mostrado sua melhor performance. Com isso, começa a ficar mais fácil aceitar a presença do caveiroso, ainda que pareça estranho para quem estava acostumado a ver uma série em que super-seres eram usados com muita parcimônia.

No entanto, a dupla depressiva precisa trabalhar melhor na química e na relevância das interações. O roteiro de Drew Z. Greenberg, veterano na série que já escreveu seis episódios, não encontra um ponto de ressonância entre os dois, que ganham diálogos fracos e uma interação nada especial, mesmo nos momentos de ação. É como se o episódio quisesse forçar a criação de uma nova dupla – algo que, pelo andar da carruagem (ou seria do Charger 69?) – será inevitável para o desenrolar pelo menos dessa primeira metade da temporada.

O que funciona,  nesse aspecto, é a forma como Skye encara o pacto com o demônio que Robbie diz ter feito (o tio de Robbie foi mencionado e isso pode conectar-se com a possessão dele por Eli Morrow, como nos quadrinhos). Lembram a forma como Chloe revira os olhos para as revelações do próprio diabo em Lucifer, considerando-o um doido varrido? Pois é mais ou menos assim que Skye faz ao achar que Robbie tem poderes por ser inumano, o que, na verdade, para nós, espectadores, funciona como um momento de transição entre o que já foi estabelecido na série e o próximo passo: o sobrenatural. Será interessante ver como ela e especialmente os demais encararão a revelação de que há outros mundos e dimensões por aí e que conceitos como o do diabo não são apenas conceitos.

O que me leva aos outros fantasmas do episódio. Lucy (Lilli Birdsell), que parece ser o poltergeist principal, funciona bem no prelúdio pré-créditos que flerta com o “horror” de casa mal-assombrada, mas, depois, quando ela revela ser mais do que uma mera assombração e liberta seus demais amigos cientistas das misteriosas caixas, a narrativa perde seu elã e, como os personagens, fica pálida. Tomara que Lucy e os demais – pelo que a foto que Robbie arranca da parede, eram oito (e imagino que seu tio seja um deles) – tornem-se mais interessantes no decorrer dos episódios, ganhando um propósito que vá além do confinamento da série, já que Darkhold, o “Livro das Almas” dos quadrinhos Marvel que os espíritos mencionam, tem estreita ligação com o mundo mágico e com o Doutor Estranho. Será que teremos mais do que mera menção de longe no vindouro filme?

A trama fantasmagórica continua também com os efeitos do “toque” de Lucy em May, que passa a ficara paranoica com o que vê na base. A forma como Ming-Na Wein lida com a transformação de sua personagem, ajudada pela discreta, mas muito eficiente maquiagem, é um dos pontos altos do episódio, com direito a mais uma das marcantes – ainda que essa tenha sido breve – coreografias de luta da série. Nesse caso em particular, na verdade, a trama de sua “possessão” encaixa-se bem com a revelação de que Jeffrey (Jason O’Mara), o irritantemente simpático novo diretor da S.H.I.E.L.D. é, na verdade, inumano, ao mesmo tempo surpreendendo o espectador e funcionando para explicar inteligentemente o porquê de Coulson não mais ter o cargo.

Nesse aspecto, aliás, vê-se inspiração nos quadrinhos novamente. A primeira é razoavelmente óbvia para antigos leitores: Jeffrey “Jeff” Mace é o super-herói Patriota, que apareceu pela primeira vez em Tocha Humana #4, de 1941, ainda na Era de Ouro dos quadrinhos. Décadas depois, o personagem foi retconado como tendo sido também o terceiro Capitão América, que lutou logo após a Segunda Guerra Mundial como o Sentinela da Liberdade (além de ter parentesco enviesado com o General Thunderbolt Ross), o que torna particularmente significativa a menção que ele faz a Steve Rogers como “desertor” (AWOL).

A segunda inspiração vem de versões recentes dos Vingadores em que grupos mistos de mutantes, inumanos e humanos super-poderosos foram criados para dar mais unidade entre os heróis. Isso pode indicar, ainda que ainda estejamos razoavelmente longe desse ponto, uma futura nova formação dos Heróis Mais Poderosos da Terra no cinema.

Mas o melhor da presença de Jeff é que ele funciona como um firme compromisso da série em não abandonar a linha narrativa dos inumanos. Yo-Yo já aparecera em The Ghost, mas ter um deles comandando a entidade prestes a revelar-se ao mundo novamente dá outra dimensão (sem trocadilho) à questão. Pontos para os showrunners aqui!

Aliás, a direção de Vincent Misiano (outro veterano na série) também merece comenda ao trabalhar ângulos difíceis para mostrar o desnorteamento de May, por não se furtar de usar câmeras intrusivas para lidar com a relação Skye-Robbie e também por usar com certa constância a grande angular em espaços confinados para trabalhar a distância entre os personagens nesse momento em que eles estão separados mesmo operando dentro de um mesmo organismo. Parece até que Misiano procurou dar um ar experimental ao episódio para ver como ficava, alcançando ótimos resultados no processo.

Meet the New Boss é um episódio que existe para ajudar na transição entre o antigo e o novo. Ainda que tenha seus problemas – Skye particularmente, mas também os fantasminhas nada camaradas – a presença de Ghost Rider já começa a ficar mais aceitável e as peças vão se encaixando. Os showrunners realmente parecem ter traçado uma estratégia de longo prazo e isso é sempre bom.

Obs: Semana que vem não tem episódio. O próximo só vai ao ar dia 11 de outubro.

Agents of S.H.I.E.L.D. – 4X02: Meet the New Boss (EUA, 27 de setembro de 2016)
Showrunner: Jed Whedon, Maurissa Tancharoen, Jeffrey Bell
Direção: Vincent Misiano
Roteiro: Drew Z. Greenberg
Elenco: Clark Gregg, Chloe Bennet, Ming-Na Wein, Iain De Caestecker, Elizabeth Henstridge, Henry Simmons, Holden Radcliffe, Gabriel Luna, Lorenzo James Henrie, Mallory Jansen, Lilli Birdsell, Briana Venskus, Maximilian Osinski, Ricardo Walker, Wilson Ramirez, Jen Sung, Jason O’Mara
Duração: 43 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.