Crítica | Agents of S.H.I.E.L.D. – 4X08: The Laws of Inferno Dynamics

estrelas 3,5

Aviso: Há SPOILERS do episódio e da série. Leia as críticas dos outros episódios aqui e de todo o Universo Cinematográfico Marvel aqui.

The Laws of Inferno Dynamics não é um episódio comum de metade de temporada. Seu passo é lento. Sua construção é expositiva. Seu cliffhanger, apesar de muito interessante, não é daqueles de deixar as pessoas boquiabertas.

Mesmo assim – e talvez por isso mesmo -, o encerramento do arco Ghost Rider foi uma aula de como séries longas devem trabalhar seu material.

Lembrem aqui comigo por um momento o primeiro e mais importante fator: a quarta temporada foi um reboot light da série como um todo. E isso significa que, basicamente, todas as “peças” sofreram rearrumações no tabuleiro. Foi o que vimos com Daisy depressiva, Coulson como agente de campo, a apresentação de um novo – e inumano! – diretor -da S.H.I.E.L.D., o novo status da própria agência, que volta à público, o envolvimento de Robbie Reyes, um novo super-ser, na narrativa, a ameaça fantasma da Senadora Ellen Nadeer, a trama paralela envolvendo o Professor Radcliffe e sua bela androide Aida e a nova dinâmica entre Fitz e Simmons. E tudo isso em um semestre atípico, em que a emissora se viu forçada a estabelecer um hiato fora de momento de três semanas que não permitiu que a temporada chegasse aos regulamentares 10 episódios antes do encerramento do arco.

Assim, Jed Whedon, Maurissa Tancharoen e Jeffrey Bell tiveram que trabalhar seu “recomeço” e o fechamento da primeira história em apenas oito episódios, algo que eles fizeram sem que a trama parecesse corrida e sem que as soluções fossem tiradas magicamente da cartola, algo que já é um mérito por si só. Claro que houve erros, o mais claro deles sendo a forma como Daisy foi tratada, separada do grupo maior e sem um rumo interessante dentro do arco, mas a grande verdade é que os problemas foram aos poucos sendo corrigidos e chegando a um final lógico e centrado, ainda que não exatamente perfeito.

The Laws of Inferno Dynamics é, acima de tudo, um ponto de convergência que entrega um fim ao mesmo tempo que um começo, sem parecer que vemos duas narrativas separadas. Há uma certa fluidez que torna natural o caminho trilhado desde o começo da temporada e que é cuidadosamente amarrado pelo roteiro de Paul Zbyszewski, que escreveu o emocionante Parting Shot. No episódio, o foco principal é o encerramento do arco de Robbie Reyes e que envolve seu tio Eli e o Darkhold. Todo o conceito de dimensões paralelas, ciência avançada que parece mágica (ou mágica que parece ciência avançada, pode escolher) e o próprio Motorista Fantasma é costurado em um final que não tenta ser enigmático ou melodramático e que ecoa o filme Marvel do momento, Doutor Estranho. Muito ao contrário, há uma certa simplicidade no que acontece – e no que não acontece – que chega a, algumas vezes, quebrar o ritmo narrativo, como as diversas sequências com Robbie “espetado” na parede da câmara de plutônio sem que nada aconteça de verdade. Há, também, muito diálogo expositivo e pseudo-científico que não ajuda muito no desenvolvimento do episódio e pouco foco nas intenções de Eli Morrow que é pintado como um personagem muito mais raso do que parecia ser. Afinal, ele busca apenas vingança pelo preconceito que sofreu a vida toda, algo que é somente apresentado neste momento e, portanto, fica jogado dentro da narrativa.

Mas, no final das contas, o sacrifício de Robbie para levar o tio para outra dimensão – ou para o espaço entre dimensões, não sei – faz sentido dramático dentro do que o arco se propõe, pois elimina a ameaça assim como o novo super-herói. Não que este seja um final definitivo, já que ele é aberto o suficiente para que ambos voltem em algum momento no futuro, seja em Agents of S.H.I.E.L.D., seja em uma série própria, especialmente depois que, ainda que en passant, Coulson tenha confirmado que sabia da existência do “outro Ghost Rider” quase citando Johnny Blaze nominalmente.

Simultaneamente, e dentro da lógica estabelecida logo no episódio anterior, Aida sai de uma personagem mais mencionada do que vista para o primeiro plano do episódio com seu conhecimento do Darkhold e de como ajudar a equipe a derrotar Eli. Mais uma vez a “mágica científica” que ela aprendeu a manipular é mostrada e a androide ganha outra faceta e passa a efetivamente funcionar como um Life Model Decoy, sacrificando-se pela equipe e sentido dor extrema por isso. Há um interessante toque de nobreza na personagem que torna sua ações escusas ainda mais intrigantes. O que exatamente ela quer com a substituição de May por uma androide que ela mesmo construíra provavelmente de forma secreta, sem conhecimento de Radcliffe? Afinal, androides vilanescos são lugar-comum na mitologia do Universo Marvel dos quadrinhos e, também, de certa forma, dentro do Universo Cinematográfico Marvel. Portanto, mais um seria uma repetição talvez desnecessária e, com o espaço que a série tem, é possível algo mais sofisticado, menos óbvio, mais intrigante.

E esse, claro, será o mote do segundo arco da temporada, que foi bem propriamente intitulado de LMD. Aliás, essa é uma razão para se concluir que ele não será apenas uma repetição de baixo orçamento de Era de Ultron. Será que a Senadora terá alguma relação com isso? Afinal, não conhecemos, ainda, o grande vilão da temporada – se é que há um vilão – e ele pode estar sendo construído nas sombras ou debaixo de nossos narizes.

O que me leva ao Diretor Mace. Bonitão, inumano, super-poderoso e, agora, de uniforme (uma divertida referência ao Patriota, a persona super-heroística dele nos quadrinhos), ele tem tudo para ser o rosto e o coração da S.H.I.E.L.D., mas há algo de estranho ali. Ao longo da temporada, o espectador foi manipulado para desconfiar, gostar e depois desconfiar dele mais uma vez, em uma gangorra de sentimentos incomum para séries desse tipo em que normalmente só os lados mais extremos do espectro são explorados. Mace tem sido tratado de forma dúbia e, em The Laws of Inferno Dynamics essa duplicidade permanece e é talvez amplificada pela desconfiança explícita de Coulson que, por ter a “nossa confiança”, nos instrui a ficar com os pés atrás em relação ao diretor. Será que Mace tem um propósito maior ou ele realmente está agindo em seu próprio interesse, como acha Coulson? Seria desapontador, confesso, se for algo egoísta assim. E também seria desapontador um inimigo misterioso surgindo do nada. Mesmo considerando que reviravoltas como a que sugiro já foi explorada na série com Grant Ward, creio ainda haver espaço para algo semelhante com Mace.

Yo-Yo, que ganhará sua websérie spin-offSlingshot – também é destaque no episódio, algo sempre bem vindo diante do carisma de seu personagem e da boa química que tem com Mack. Ainda que longe de ser original, foi prazeroso ver a inumana repetir a famosa sequência em câmera lenta protagonizada por Mercúrio em X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido e isso depois de também ser utilizada no “corredor de fogo” de Eli mais para o começo. Mais uma vez a série ganha pontos pelo uso econômico, mas preciso de efeitos especiais tanto aqui quanto na breve sequência de transformação de Robbie. De toda maneira, fica a pergunta que decorre da presença de Yo-Yo: será que veremos Joey novamente no próximo arco?

E, finalmente, Daisy volta à equipe, algo cuja pedra havia sido cantada desde o começo. Nada de choradeira, de maquiagem borrada, de braços quebradiços. Chloe Benett parece estar realmente de volta e tem tudo para fazer com que sua ótima química com Clark Gregg e demais do elenco faça a personagem retomar o destaque que ganhou ao longo das três primeiras temporadas. Será particularmente interessante vê-la em choque constante com o diretor e sendo talhada por Coulson para ser o verdadeiro rosto inumano da agência.

O midseason finale foi mais parado do que se espera, mas muito mais redondo do que também se espera. A troca dos fogos de artifício por algo mais centrado e coeso, ainda que com problemas, mostra que a quarta temporada tem tudo para manter e até superar o costumeiro nível da série, além de deixar claro o amadurecimento constante do trabalho dos showrunners que transformaram uma criação não mais do que mediana em um destaque dentro do gênero das séries baseadas em quadrinhos mainstream.

*Agents of S.H.I.E.L.D. volta dia 10 de janeiro de 2017.

Agents of S.H.I.E.L.D. – 4X08: The Laws of Inferno Dynamics (EUA, 06 de dezembro de 2016)
Showrunner: Jed Whedon, Maurissa Tancharoen, Jeffrey Bell
Direção: Kevin Tancharoen
Roteiro: Paul Zbyszewski
Elenco: Clark Gregg, Chloe Bennet, Ming-Na Wein, Iain De Caestecker, Elizabeth Henstridge, Henry Simmons, John Hannah, Gabriel Luna, Lorenzo James Henrie, Mallory Jansen, Lilli Birdsell, Briana Venskus, Maximilian Osinski, Ricardo Walker, Wilson Ramirez, Jen Sung, Jason O’Mara, Parminder Nagra, Lorenzo James Henrie
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.