Crítica | Agents of S.H.I.E.L.D. – 4X17: Identity and Change

estrelas 5,0

Aviso: Há SPOILERS do episódio e da série. Leia as críticas dos outros episódios aqui e de todo o Universo Cinematográfico Marvel aqui.

Identity and Change, o segundo episódio do arco Agents of HYDRA é, assim como o anterior, integralmente passado no Framework, uma decisão acertada dos showrunners para não distrair os espectadores com narrativas paralelas antes que fosse possível apresentar todos os personagens-chave em suas versões virtuais. Mas o episódio vai muito além, apresentando um dos melhores roteiros de toda a série e atuações de se tirar o chapéu de todo o elenco.

E é interessante notar que o lado mais fortemente didático de What If…, justificado pela necessidade de se apresentar essa realidade paralela dominada pela Hidra, de certa forma se mantém aqui. Mas George Kitson, que volta a escrever um episódio da série depois do ótimo Paradise Lost, consegue ser muito hábil, navegando de maneira fluente pelas armadilhas que um texto mais detalhado e pesado naturalmente traz e usando-o para trazer genuína emoção e tensão a diversos momentos.

Há muita coisa que falar sobre Identity and Change, que é um daqueles episódios que vale por uma temporada inteira. É aqui que a história realmente se solidifica e mostra seu potencial, com versões interessantíssimas de personagens já bem estabelecidos.

Por exemplo, nota-se logo de início que o “professor” Coulson realmente acreditou em Daisy, que lhe conta tudo sobre aquele mundo virtual. Mas reparem como isso é inserido na trama de forma orgânica e crível depois do que pareceu ser um aleatório “Daisy” em seu  carro, fechando o episódio anterior. Ao expandir o personagem, notamos que ele é um daqueles caras paranoicos que acredita em todas as teorias de conspiração que caem no colo dele, algo que muito provavelmente vem dos fragmentos de memória da outra vida que ele tem. E esses lampejos, por sua vez, passam a ser perfeitamente justificáveis em razão do Projeto Taiti. Em outras palavras, há uma impressionante circularidade dramática que pega os elementos mais importantes do personagem ao longo de toda a série para formar sua nova persona digital sem que invencionices fora da curva sejam necessárias. Além disso, é sempre um bônus ver Clark Gregg realmente mergulhando nessa sua versão mais dócil, mais deslumbrada com tudo e todos, mais abobalhada até que nos lembra sua versão “diretor”, mas, ao mesmo tempo, nos remete ao agente afável a que fomos apresentados lá atrás em Homem de Ferro e cuja morte sofremos em Os Vingadores.

Grant Ward, por seu turno, realmente faz parte da Resistência, ou melhor, da S.H.I.E.L.D., que tenta reerguer-se a partir de relíquias e memórias do passado, acolhendo potenciais inumanos sob a direção de Jeffrey Mace que, nesse mundo, é efetivamente o Patriota, completamente seguro de si, durão e, tenho que dizer, badass com aquela armadura desgastada e barba por fazer. Tanto Brett Dalton quando John Hannah estão bem em seus papeis, sendo divertido ver Ward como um personagem do bem novamente.

Daisy – agora novamente Skye – tem sua infiltração desbaratada por May, em um plano elaborado para fazê-la inadvertidamente confessar quem realmente é. O uso de Mack como elemento principal do estratagema, confesso, me pegou de surpresa. Cheguei a ficar legitimamente emocionado com o alívio que Daisy sentiu quando Mack diz que se lembra de tudo, que sabe quem ela é, somente para ter minhas expectativas despedaçadas por aquele microfone escondido. Mais um sinal de um roteiro bem feito, que usa as principais características dos personagens originais em suas versões no Framework: Mack e seu inefável bom-mocismo, Daisy e sua credulidade e May e sua natureza implacável.

Mas o filé mignon ficou mesmo por conta da dupla Madame Hidra/Ophelia e Fitz/O Doutor. Mallory Jansen está cada vez mais maligna compondo sua nova personagem e Iain De Caestecker parece que encontrou sua verdadeira vocação. Por melhor que ele seja como Fitz, seu Doutor é aterrorizante em frieza e fidelidade à Madame Hidra. A sequência em que os dois chegam no Zephyr One na ilha paradisíaca de Radcliffe não só parece ter sido inspirada em Darth Vader desembarcando na Estrela da Morte, como abre espaço para um dos momentos mais tensos e tristes da série até agora. Radcliffe, desesperado, tenta convencer Fitz do Mal sobre a falsidade daquele mundo, com a Madame Hidra usando um discurso de vitimização maquiavélica para manter seu amado a seu lado, tudo isso com sua versão original – Agnes – na mira de uma arma.

O desfecho é muito bem construído, pois vemos a escolha no rosto de Fitz. Ele decide ignorar o que Radcliffe diz para ficar ao lado de Madame Hidra e descarta Agnes quase que como um glitch na Matrix. E o mais interessante é imaginar o que esse ato significará para o Fitz do Bem quando ele inevitavelmente voltar para o mundo real. Se sua memória do tempo no Framework for mantida – e seria um desperdício narrativo se não fosse – esse momento será traumatizante para ele, talvez a única situação que possa separá-lo de vez de Simmons.

Se existe um “problema” em Identity and Change, este é Mack ou, mais precisamente, a história pregressa de Mack. Particularmente, achei interessante ele ser substancialmente a mesma pessoa no mundo digital que é no real, pois nem todo mundo precisa mudar radicalmente. A questão é que Hope, vivida pela simpaticíssima Jordan Rivera, foi introduzida de maneira atabalhoada na quarta temporada, como algo de última hora para permitir exatamente essa nova vida para Mack, ao lado da filha que perdera. Ou seja, não é um problema inerente ao episódio em si, mas sim à temporada, que cria esse passado para Mack e também apresenta conceitualmente o pai de Fitz (que não duvidaria se aparecesse também no Framework) como passes de mágica. No entanto, considerando que esses retcons são lugar-comum nos quadrinhos, seu uso, aqui, é razoavelmente justificável, ainda que continue sendo um detalhe que me incomoda.

A direção de Garry A. Brown é inspirada não só com a continuidade da fotografia acinzentada que permeou o episódio anterior e que, aqui, consegue transformar até o paraíso de Radcliffe em um lugar de atmosfera pesada, mas também com uma montagem bem compassada que dá ritmo ao texto de Kitson e não deixa a narrativa cair no lugar-comum. Vê-se uma preocupação estética rara para séries desse tipo, que só acrescenta qualidade ao comando de Whedon, Tanchaeron e Bell.

Identity and Change merece figurar juntamente com 4,722 Hours e Self Control no seleto panteão dos melhores episódios de toda a série. Dá até vontade que a ação continue no Framework por mais tempo do que só esse curto arco.

Agents of S.H.I.E.L.D. – 4X17: Identity and Change (EUA, 11 de abril de 2017)
Showrunner: Jed Whedon, Maurissa Tancharoen, Jeffrey Bell
Direção: Garry A. Brown
Roteiro: George Kitson
Elenco: Clark Gregg, Chloe Bennet, Ming-Na Wein, Iain De Caestecker, Elizabeth Henstridge, Henry Simmons, John Hannah, Mallory Jansen, Natalia Cordova-Buckley, Jason O’Mara, Parminder Nagra, Patton Oswalt, Artemis Pebdani, John Pyper-Ferguson, Zach McGowan, Brett Dalton, Manish Dayal
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.