Crítica | Agents of S.H.I.E.L.D. – 4X21: The Return

estrelas 3,5

Aviso: Há SPOILERS do episódio e da série. Leia as críticas dos outros episódios aqui e de todo o Universo Cinematográfico Marvel aqui.

Pensem com calma sobre The Return. Imaginem exatamente o mesmo episódio, sem tirar nem por, só que com sua estrutura sendo quebrada em dois episódios. Pensem no tempo que haveria para que os showunners desenvolvessem o choque da volta dos personagens do Framework, para vermos Ophelia deliciando-se e também sofrendo com o bombardeio sensorial que seu novo corpo lhe proporciona, com espaço, ainda, para ela explorar seus poderes inumanos com mais detalhes. Pensem, ainda, como seria bom ver, com mais calma, os sentimentos de Fitz e Simmons se desenvolverem e também a revelação a Yo-Yo sobre o que de fato aconteceu com Mack e sua consequente reação ou até mesmo a perseguição de Talbot aos agentes que ele considera que são androides. Haveria até mesmo tempo suficiente para desenvolver um pouquinho que fosse o Superior, agora M.O.D.O.K. (porque não, aquela menção de que seu corpo era Designed Only for Killing não foi aleatória), transformando-o em uma ameaça crível finalmente. Em suma, The Return, dividido em dois, seria o perfeito encerramento para a quarta temporada de Agents of S.H.I.E.L.D., incluindo os cliffhangers com Yo-Yo no mundo digital e a chegada para lá de aleatória – mas ótima como fechamento surpresa – do Ghost Rider.

Mas não. The Return foi comprimido em um episódio só. Um episódio com tudo isso acima que descrevi, só que na versão Twitter: 140 caracteres por assunto. O espectador é inclementemente bombardeado com uma profusão de situações que, por melhor que tenha sido o resultado final – e foi bom, não há dúvida – poderia ter sido muito mais interessante e relevante. A grande verdade, porém, é que tudo dependerá do episódio final. Se lá o status quo voltar ao que era, com Ophelia e Superior eliminados, Fitz e Simmons de volta juntos como se nada tivesse acontecido, Mack feliz ao lado de Yo-Yo e assim por diante, todo o drama terá sido perdido, toda a importância do que foi feito terá ido pelo ralo, especialmente se a volta de Robbie Reyes for usada como foi usada com seu tio, para tragar Ophelia para o inferno ou seja lá onde ele tenha ido. Se algo assim acontecer, será, no final das contas, um desserviço ao fenomenal arco Agents of Hydra.

Sei que estou me adiantando, pois em pouco tempo teremos a resposta. No entanto, isso não afasta a constatação de que The Return já tinha material suficiente para ser um excelente encerramento dessa jornada, equivalente ao magnífico Self-Control, que fechou o arco anterior, deixando belas pontas soltas para um possível quinta temporada (que ainda não foi anunciada oficialmente, apesar dos rumores de que será). Da mesma maneira, não há como deixar de lado os malabarismos que o roteiro de Maurissa Tancharoen e Jed Whedon tem que fazer para encaixar tudo em apenas 45 minutos. Se Ophelia ganha um bom desenvolvimento, tornando-se o ponto focal do episódio (mais sobre isso adiante), isso só acontece em detrimento dos demais acontecimentos. Daisy volta a ser subaproveitada, não sendo muito mais do que uma coadjuvante e as interações entre Coulson e May, ambos com memórias duplas, se dão naturalmente demais depois de eventos tão traumáticos. Foi bom ver que May não estava fisicamente bem – não poderia, pois seu corpo passou sei lá quanto tempo imóvel -, mas o roteiro teve quase que pular fases usando cheat codes para permitir que os dois agissem juntos, incluindo a injeção que ela toma (conveniente demais, com nenhuma consequência posterior, apesar de toda a hesitação) e diálogos que tentam ser engraçados, mas cujas funções são, na verdade, evitar a abordagem dos assuntos mais importantes e que poderiam afastá-los em um primeiro momento.

Além disso, o Superior robótico controlado por sua cabeça escondida em local incerto e não sabido poderia ter ganhado mais função do que aparecer em tela somente para morrer 10 ou 15 segundos depois (ainda que a primeira “morte”, com o escudo de energia de Coulson, tenha sido sensacional). Praticamente, pelo visto, a única vantagem desse vilão é ganhar pelo cansaço, pois suas versões androides fariam o T-800 chorar de vergonha. Um pouco mais de tempo e poderia ter havido uma construção mais interessante para o personagem, mesmo tardiamente, de forma que sua presença pudesse ser uma ameaça minimamente imponente.

Mesmo com esse problema… sistêmico, digamos, The Return ganha o status de episódio realmente bom pelo que ele faz com Ophelia e com sua relação com Fitz. Reagindo intensamente a cada nova sensação e sentimento, Ophelia (ou será que devo chamá-la de Aida novamente?) transforma-se em uma montanha-russa surpreendente e cheia de nuances. Mallory Jansen vive, na prática, a quinta versão de sua personagem, agora uma mente originalmente robótica em um corpo (in)humano tendo que aprender e ajustar-se a situações que, antes, eram linhas de programação para ela. Só essa versatilidade da atriz já é suficiente para chamar atenção para a série, mas, em The Return, ela tem a oportunidade de transformar aquele ser robótico em uma humana explosiva, que não tem meio-termo. Ou ela está completamente feliz ou completamente revoltada. O exagero teatral de Jansen não é um exagero na verdade, mas sim uma excelente maneira de se colocar na tela essas flutuações necessárias a um personagem que não sabe lidar com tantas sensações, que praticamente nasceu naquele minuto em que se “materializou” na base submarina do Superior.

Iain De Caestecker continua também dando seu show. Como o que cada pessoa que foi carregada para o Framework tem agora não são exatamente memórias, mas duas vidas vividas em sua plenitude, ele ainda é parte Fitz-Mengele que também é apaixonado por Ophelia. Sua outra parte – a original – ama Jemma e tem horror do que ele escolheu fazer no mundo digital (e torço para que o livre arbítrio que Ophelia afirma que houve dentro da criação de Radcliffe tenha sido mesmo livre arbítrio, pois, do contrário, tudo o que foi construído até aqui viria abaixo). Ao mesmo tempo, ele precisa lidar com os ataques de nervos de Ophelia, conseguindo reunir forças suficientes para focar nisso e conseguindo fazer com que ela salvasse o corpo inerte de Mack no processo. Com isso, vemos um Fitz torturado pelos fantasmas do que viveu digitalmente e pelo que precisa fazer no mundo real. Seu único momento de descanso, preso junto com Ophelia, é muito bem construído pelo roteiro, que mantém a dúvida sobre quem ele realmente ama (por alguns segundos, achei que o “ela” fosse a Madame Hydra, ou seja, nem Ophelia-humana, nem Jemma), ainda que sua decisão tenha provavelmente passado pelo racional de que, mesmo que ele tenha vivido sua vida no Framework, ele sabe que tudo foi um construto digital e, portanto, não efetivamente verdadeiro. Jemma era a única decisão possível, na verdade e o emocionante abraço dos dois ao final mostra muito bem isso.

E, quando o óbvio acontece e Ophelia revela que tem outros poderes inumanos (afinal, como eu disse na crítica anterior, para que se tornar humana se você pode tornar-se inumana e para que tornar-se uma inumana comum se você pode tornar-se uma inumana com todos os poderes possíveis?), especialmente o de Lincoln, uma grande vilã é novamente criada. Se ela já era sensacional antes como androide e depois como Madame Hydra, agora, então, temos alguém capaz de enfrentar até os Vingadores. Essa é mais uma razão por que tenho receio do episódio final da temporada, caso os showrunners decidam livrar-se em definitivo da super-Ophelia, já que ela poderia muito bem ser aproveitada mais para frente.

The Return traz a ação de volta à realidade, com a promessa de uma volta ao Framework e a reentrada do Ghost Rider na série. Em sua correria, acaba atropelando eventos e nos roubando situações que aguardávamos ansiosamente para ver. Mesmo que World’s End venha provar-se como o final que a temporada merece, receio que o subaproveitamento dos eventos em The Return permaneça em nossa mente.

Agents of S.H.I.E.L.D. – 4X21: The Return (EUA, 09 de maio de 2017)
Showrunner: Jed Whedon, Maurissa Tancharoen, Jeffrey Bell
Direção: Kevin Tancharoen
Roteiro: Maurissa Tancharoen, Jed Whedon
Elenco: Clark Gregg, Chloe Bennet, Ming-Na Wein, Iain De Caestecker, Elizabeth Henstridge, Henry Simmons, John Hannah, Mallory Jansen, Natalia Cordova-Buckley, Jason O’Mara, Parminder Nagra, Patton Oswalt, Artemis Pebdani, John Pyper-Ferguson, Zach McGowan, Brett Dalton, Manish Dayal, B.J. Britt
Duração: 45 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.