Crítica | Agents of S.H.I.E.L.D. – 4X22: World’s End

Episódio e temporada:

estrelas 4

Aviso: Há spoilers do episódio e da série. Leia as críticas dos outros episódios aqui e de todo o Universo Cinematográfico Marvel aqui.

O final da excelente quarta temporada de Agents of S.H.I.E.L.D. vem precedido da alvissareira notícia de que a série teve sua renovação oficializada pela ABC para mais uma temporada de 22 episódios. Ao mesmo tempo, porém, vieram as informações de que a série mudaria para sexta-feira nos EUA, que não é um dia bom para séries em geral e que a nova temporada começaria mais tarde, depois que a primeira temporada de Inumanos, com oito episódios, acabasse. Isso pode até significar que só teremos AoS novamente no começo de 2018.

Mas estou me adiantando. World’s End é o ansiosamente aguardado episódio que faz uma dobradinha como aquele que encerra o arco Agents of Hydra, a melhor história da série até agora, e também toda a temporada, usando, para fins de rima narrativa e de circularidade dos três arcos como um todo, a volta de Robbie Reyes (Gabriel Luna), o Ghost Rider, mais uma vez reunindo magia com tecnologia. Quem acompanhou minhas críticas sabe que eu via com ceticismo a volta do anti-herói, pois havia o sério risco de ele ser usado como a solução deus ex machina para a super-poderosa Aida humana com DNA inumano, resultado de suas maquinações por toda a temporada.

E, apesar de ele realmente ter sido usado da forma esperada – como um instrumento de extermínio de uma bela ex-androide – tenho que reconhecer que o roteiro do showrunner Jeffrey Bell teve desenvoltura o suficiente para não tornar o grande conflito fácil demais, simplista demais. Para começar, houve um claro cuidado para justificar a volta do Ghost Rider neste momento específico, atraído pelo Darkhold e pela formação dessa entidade híbrida que Aida se tornou. Além disso, Bell criou oportunidades críveis para protrair o conflito o máximo possível ao longo do episódio, sem se apressar e sem resolver tudo em cinco segundos com uma chicotada de corrente flamejante.

No processo, ele ainda foi capaz de escrever boas cenas de ação, em particular a que – muito brevemente, infelizmente! – Ghost Rider luta em dupla com Tremor, com uma bela fotografia em câmera lenta e ótimo uso dos esparsos, mas ótimos, efeitos em computação gráfica. A troca de hospedeiro do Espírito da Vingança também acrescentou uma nova camada, com Coulson fazendo um pacto que desconhecemos e que certamente reverberá em futuro próximo, além de toda a tensão na sequência envolvendo Fitz, Simmons e uma Aida completamente vilanesca e enlouquecida por vingança.

Do lado melancólico e provocador de lágrimas, o episódio conseguiu ser ainda melhor, usando bem o parco tempo para abordar, com tranquilidade, o dilema de Mack e Yo-Yo no Framework. Lá, ela é ajudada por Radcliffe e faz de tudo para trazer Mack ao mundo real, mas ele está decidido a ficar com sua filha Hope, apesar do mundo ao seu redor estar sendo completamente apagado. A força das atuações de Henry Simmons e Natalia Cordova-Buckley, além da pequena e simpaticíssima Jordan Rivera torna as sequências lancinantes, com Mack e Yo-Yo prontos a se sacrificarem por amor. Alguns podem até achar esse “chororô” brega e desnecessário, mas a construção, se perdoamos a introdução do conceito de uma filha para Mack do nada na temporada, foi muito bem trabalhada, encontrando ressonância na própria personalidade do agente grandalhão de bom coração e também na da durona inumana apaixonada.

Se repararmos, notaremos que há quatro quase-mortes de heróis neste curto episódio: Mack, Yo-Yo, Jemma e Talbot. Sempre fui defensor de que séries (e quadrinhos também) levassem a sério suas mortes e não tivesse medo em fazê-las acontecer na medida do necessário. Aqui, porém, no caso de Jemma, a primeira a “morrer”, é perfeitamente possível concluir que ela não levaria a lugar nenhum e que simplesmente  não cabia a eliminação da personagem neste ponto. Mack e Yo-Yo funcionam da mesma forma. Existe um potencial não-realizado na relação amorosa dos dois, além de suas respectivas contribuições à equipe, que suas mortes seriam gigantescas perdas para a série, especialmente depois da eliminação de Bobbi e Hunter.

No entanto, no caso de Talbot, ainda que a figura de alguém acima da S.H.I.EL.D., mas com relação afetiva com a entidade e com Coulson tenha seu uso, sua morte poderia ter sim acontecido. Não que ela fosse necessária para a narrativa, pois o efeito de um tiro na cabeça é o mesmo para colocar o mundo contar os inumanos. No entanto, também fico feliz que ele não tem falecido, ainda que tenha ficado extremamente incomodado com sua sobrevivência a um tiro na cabeça. Teria sido muito mais razoável, para fins da suspensão da descrença, que ele tivesse sido baleado no torso, mesmo que diversas vezes. Mas esse é um detalhe.

O que não é um detalhe é a subutilização ridícula de Anton Ivanov, o “Superior”. De um personagem absolutamente inútil, vimos um lampejo de redenção em The Return, com sua discreta conversão em M.O.D.O.K., clássico – e improvável – personagem vilanesco dos quadrinhos. Mas tudo não passou de enganação, fan service mesmo, pois ele continuou completamente inútil e ainda aparece acompanhado de outro russo aleatório robótico (R.A.R.?) cuja presença era 100% desnecessária. Realmente, a solução alcançada aqui para o personagem foi patética, daquelas de dar vergonha alheia. Se M.O.D.O.K. voltar, espero que seja completamente repaginado.

Além disso, há que se mencionar o sumiço de Ward e Trip. Ambos foram eliminados da temporada sem cerimônia. Uma hora eles estavam lá, na outra hora eles sumiram em um passe de mágica. Sem despedidas, sem nenhuma tentativa de encaixá-los em alguma situação que lhes desse um fechamento qualquer que seja. Vejo isso como uma das consequências causadas pela demora na confirmação da renovação da série, com a produção tendo que correr no episódio anterior – que, reitero, deveria ter sido dividido em dois – para poder fechar completamente o arco aqui, em World’s End.

Mas outros dois momentos quase me fazem esquecer dos problemas detectados. O primeiro deles é a reunião da equipe no restaurante em uma sequência mundana, em que, por alguns minutos, eles podem ser simplesmente “normais”. O segundo é, talvez, a mais bela tomada em toda a série até agora: a despedida de Radcliffe. Na praia do Framework, bebendo uísque e filosofando, ele simplesmente… desaparece. Um final poético, adulto e extremamente bem pensado para um personagem complexo e vivido com gosto pelo veterano John Hannah.

Não poderia encerrar a presente crítica, porém, sem abordar o cliffhanger que mostra Coulson acordando e olhando pela janela, somente para descobrirmos que ele está no espaço. A primeira impressão que dá é que ele está em uma cela de uma prisão espacial, depois que aqueles misteriosos soldados capturam sua equipe no restaurante. No entanto, ele não está preso e demonstra tranquilidade, com mais um dia de trabalho começando.

A se confirmar que ele está mesmo no espaço – e seria ridículo se não estivesse -, a primeira conclusão a que podemos chegar é que haverá um salto temporada entre esta temporada e a próxima, como houve em relação à terceira. Isso ajudaria a explicar a tranquilidade de Coulson ao acordar. Mas será que toda a equipe está lá também? Se estiver, será que isso faz parte de um plano maior dentro do Universo Cinematográfico Marvel para expandir Agents of S.H.I.E.L.D. para algo como Agents of S.W.O.R.D. (nos quadrinhos, S.W.O.R.D. é uma entidade que protege a Terra de alienígenas)? Isso combinaria perfeitamente bem com o lado mais cósmico para onde toda o universo compartilhado está caminhando e ajudaria a série a encaixar-se com mega-filmes como Vingadores 3 e 4.

Há pelo menos uma outra possibilidade: que o que tenhamos visto seja apenas Coulson em uma base espacial, sem sua equipe. Seria ele o equivalente, no UCM, do The Man on the Wall, cargo assumido por décadas por Nick Fury (o original) que nada mais é do que alguém que faz o que tem que ser feito para manter a Terra protegida? Se for esse o caso – que eu sinceramente duvido – o Coulson que vimos ao longo das temporadas seria um Coulson com uma riquíssima e complicada vida dupla. Mas chega de especular, senão a cabeça pifa. No entanto, fiquem à vontade para mandar suas teorias nos comentários!

Agents of S.H.I.E.L.D. pode ter começado sua quarta temporada de forma errática, ainda que nunca ruim. Mas, com o tempo e diante da brilhante decisão em se dividir a temporada em três arcos, a série alcançou o que parece ser o seu ápice. A ABC pode não estar confiante em sua série ao demorar para renová-la e alterá-la para as sextas lá fora, mas uma coisa é para lá de certa: o trabalho de Jed Whedon, Maurissa Tancharoen e Jeffrey Bell com AoS não tem paralelo em séries desse subgênero na estrutura de mais de 20 episódios.

Agents of S.H.I.E.L.D. – 4X22: World’s End (EUA, 16 de maio de 2017)
Showrunner: Jed Whedon, Maurissa Tancharoen, Jeffrey Bell
Direção: Billy Gierhart
Roteiro: Jeffrey Bell
Elenco: Clark Gregg, Chloe Bennet, Ming-Na Wein, Iain De Caestecker, Elizabeth Henstridge, Henry Simmons, Mallory Jansen, Natalia Cordova-Buckley, Jason O’Mara, Parminder Nagra, Patton Oswalt, Artemis Pebdani, John Pyper-Ferguson, Zach McGowan, Gabriel Luna, John Hannah
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.