Crítica | Agents of S.H.I.E.L.D. – 5X03: A Life Spent

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É, parece que os showrunners de Agents of S.H.I.E.L.D. resolveram apostar suas fichas em uma temporada para deixar os fãs de queixo caído. Talvez o pensamento seja esse: se, por um milagre, a quinta temporada atrair um número suficiente de novos espectadores para justificar sua renovação sem que a Disney tenha que literalmente “meter o joelho” no pescoço de sua subsidiária ABC, maravilha; mas, se o cancelamento acontecer, então que ele venha marcado por um trabalho inesquecível, ou seja, um encerramento em seu ponto mais alto.

Afinal, se A Life Spent sinaliza para algo é para exatamente isso, uma temporada memorável, algo que mostra o quanto a série cresceu gradativa e certeiramente ao longo dos anos e o quanto ela, por incrível que pareça, ainda tem a mostrar. Ao fugir da abordagem super-heroística com um fim em si mesma, mas mantendo-se firme dentro do Universo Cinematográfico Marvel, AoS é uma série que desde já pode ser considerada como uma das melhores de seu sub-gênero ainda pujante.

Claro, reconheço que estamos apenas no terceiro episódio de uma temporada de 22 e muita coisa pode mudar e, porque não, para pior. Acontece que, se observarmos o histórico do trabalho de Jed Whedon, Maurissa Tancharoen e Jeffrey Bell, a probabilidade de o contrário acontecer é bem maior.

Mas chega de elogios rasgados e vamos para a “vaca fria”, ainda que A Life Spent seja, como acho que já dei a entender, mais um belo exemplar da qualidade do trabalho dos showrunners nesse começo de temporada. Pois bem, o episódio não perde tempo em expandir a narrativa, com três linhas de desenvolvimento bem claramente definidas: a primeira envolvendo Coulson, May, Mack e Yo-Yo, juntamente com Tess, trabalhando para Grill, o mafioso da base Lighthouse, a segunda lidando com o conflito entre Daisy e Deke, com Daisy fazendo de tudo para chegar até Jemma e Deke, por outro lado, tratando de impedi-la e a terceira, claro, focada em Jemma como uma serva de Kasius, o Kree que manda no local. A clássica divisão do grupo não só funciona bem, como é necessária para manter a história como um todo fluindo bem.

Com isso, há espaço para histórias interligadas, mas suficientemente independentes que ajudam o passo da temporada, sem que haja espaço para enrolações ou esmorecimentos. O roteiro da dupla Nora e Lilla Zuckerman é muito eficiente ao lidar com cada elemento da ação, permitindo o tangenciamento apenas na excelente sequência em que vemos Yo-Yo usando seus poderes inumanos para furtar o tablet alienígena que permite o acesso de Daisy ao spa Kree. Aliás, essa sequência por si só, que é antecedida com diversos comentários sobre a lerdeza da inumana no trabalho, é um primor em sua execução por Kevin Hooks, que volta à série depois de dirigir o ótimo Afterlife, na já longínqua segunda temporada da série. Trabalhando apenas com aquilo que sabemos do poder de Yo-Yo para focar em um Grill que não faz a menor ideia do que está acontecendo, o diretor consegue arrancar boas risadas sem fazer piadas, sem fazer esforço para ser engraçado. Além disso, ao finalmente mostrar detalhes da velocidade com uma bela câmera lenta e múltiplas exposições do filme criando “fantasmas” da personagem, vemos um vislumbre do cuidado da temporada com seus efeitos.

Aliás, o cuidado também existe no destaque dado a Yo-Yo, que já merecia esse protagonismo há muito tempo e também em lidar com Daisy de forma independente, sem que ela seja dependente de ninguém para chutar bundas de quem quer que seja. Sua tentativa de infiltração na “cobertura” Kree é outro bom momento do episódio, que traz de volta as sempre excelente coreografias de luta da série, aqui com particular destaque à luta no elevador, depois que Tremor faz de tudo para passar despercebida. Também é ótimo ver que a temporada não tem se esquivado de mostrá-la esbanjando seu poder e, principalmente, em perfeito controle dele, usando-o aqui suavemente em relação a Deke e mais, digamos, assertivamente com os seres azuis.

Mas as sequências dedicadas a Coulson e seu grupo a bordo da nave em missão vigiada por um capanga de Grill para descobrir o que o finado Virgil queria com eles são, claro, os alicerces da narrativa. Vê-se claramente que os showrunners estão se divertindo ao tornar as informações disponíveis na base do conta-gotas, deixando seus espectadores desesperados para entender o que exatamente eles estão fazendo no futuro – e, ao que tudo indica, depois do diálogo expositivo de Deke e Daisy sobre o multiverso, em outra realidade – e, principalmente, o que se espera deles. Novamente, Mack rouba as cenas em que aparece tanto em suas aparições decisivas quanto com suas inspiradíssimas falas, aqui mais uma vez citando Alien, lógico.

No entanto, essa aparente vagarosidade nesse lado da história em breve precisará de um gás ou de algo mais orgânico para permitir com que as investigações continuem sem que Grill ou os Krees desconfiem que há algo errado por ali. Imagino que, não demorará e ou Grill será carta fora do baralho, com Coulson tomando seu lugar de “feitor” ou ele passará de alguma forma interesseira a ficar do lado dos agentes da S.H.I.E.L.D.

Mais uma vez, as sequências espaciais são deslumbrantes. Sim, claramente CGI, mas o que não é hoje em dia? O ponto é que o trabalho nos efeitos de computação gráfica são detalhistas e não deixam nada a dever a séries de altíssimo orçamento do gênero. Será interessante ver como aquele pedaço de nosso planeta completamente infestado por vrellnexians será explorado e quem está transmitindo de lá, com eco na bem batizada rocha 616.

Não posso encerrar a crítica, claro, sem abordar a prisão de Jemma e seu uso como “curandeira” de inumanos recém-descobertos que são vendidos como armas para alienígenas de olhos vermelhos comandados por uma tal de Lady Basha (Rya Kihlstedt). São momentos ternos que vemos entre Jemma e a jovem Abby, que tem o poder de alterar sua densidade corporal como o Visão. Uma pena que tenha havido tão pouco tempo para lidar com o treinamento dela, mas os momentos seguintes, na arena gladiatorial, foram particularmente corajosos. Afinal, não é todo dia que vemos uma série de TV mostrar detalhes de uma garota de 12 anos sendo espancada sem dó nem piedade por um brutamontes mascarado, somente para que ela abra um sangrento buraco no torso do sujeito, não é mesmo? Palmas para AoS que quebra mais alguns tabus televisivos.

No entanto, ainda considero o design de produção nesse lado hotelesco da base espacial desconfortável demais, quase ruim. Entendo que haja ali uma tentativa de se fazer uma crítica social entre os que têm e os que não têm, entre os poderosos que mandam e os fracos que obedecem, mas o tratamento visual dos aposentos é realmente artificial e mundano demais para alcançar a verossimilhança necessária. De certa forma, porém, poder-se-ia dizer que o local não é muio mais do que o reflexo da personalidade de Kasius e essa é melhor maneira de encarar as paredes brancas hospitalares do lugar onde ele vive como um César.

A Life Spent não deixa a série esmorecer ou mesmo dar um passo em falso. A continuar assim, teremos um final explosivo para a temporada e, se ele for também o da série como um todo, não teremos muito que reclamar.

Agents of S.H.I.E.L.D. – 5X03: A Life Spent (EUA, 08 de dezembro de 2017)
Showrunner: Jed Whedon, Maurissa Tancharoen, Jeffrey Bell
Direção: Kevin Hooks
Roteiro: Nora Zuckerman, Lilla Zuckerman
Elenco: Clark Gregg, Chloe Bennet, Ming-Na Wein, Iain De Caestecker, Elizabeth Henstridge, Henry Simmons, Natalia Cordova-Buckley, Jeff Ward, Eve Harlow, Pruitt Taylor Vince, Coy Stewart, Pruitt Taylor Vince, Rya Kihlstedt
Duração: 43 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.