Crítica | Agents of S.H.I.E.L.D. – 5X04: A Life Earned

Aviso: Há spoilers do episódio e da série. Leia, aquias críticas dos outros episódios e, aquide todo o Universo Cinematográfico Marvel .

A velocidade dos acontecimentos da nova temporada de Agents of S.H.I.E.L.D. exigia que os showrunners esfriassem um pouco o ritmo. A Life Earned é esse resfriamento, que claramente prepara esse primeiro arco para uma rebelião no Farol e o encontro da equipe com Fitz e com os moradores misteriosos do que restou da Terra, dentre eles o pai de Deke.

Mas, diferente do que acontece com outras séries, que teimam em transformar desaceleração em sinônimo de filler, o roteiro de Drew Z. Greenberg , já  veterano na série e que, dentre outros, escreveu o excelente Wake Up, foge da fórmula básica e do que se espera, trazendo-nos um episódio cheio de revelações que vão, aos poucos, construindo a lógica do lugar comandado pelos Krees, além de introduzir um novo e potencialmente importante personagem, o inumano telepata Ben (Myko Olivier) que, usando seus poderes, descobre que Kasius, ao conseguir o que deseja, não pretende deixar ninguém vivo por ali.

A dinâmica entre Daisy e Ben, estabelecida ali no spa Kree, é a principal do episódio, com uma vibe cúmplice que lembra Spartacus que vai vagarosamente sendo estabelecida para que, em futuro próximo, eles possam demonstrar seus poderes em toda sua extensão. Logicamente que o grande momento mesmo foi o cliffhanger em que descobrimos a identidade do ser mascarado que está ali para a demonstração e leilão de Kasius. Confesso que ver Fitz dentre os possíveis compradores sem ter envelhecido absolutamente nada foi uma surpresa que recebi ao mesmo tempo com estranheza e felicidade. Certamente haverá uma boa explicação para o ocorrido e as perguntas só se acumulam em minha cabeça, desde questões preliminares como “aquele é mesmo o Fitz da linha temporal principal?” até considerações do tipo “se ele viajou no tempo, então deve ter chegado bastante tempo antes de seus colegas ali nesse futuro”. Mas isso é algo que será respondido em breve, já que o título do próximo episódio é Rewind, ou “Rebobinar”, em que provavelmente veremos o que raios aconteceu na Terra a partir do momento em que Coulson e companhia sumiram.

Mas os ótimos momentos nos andares de cima (cujo design, vou repetir até cansar, é horroroso) não são os únicos. Impossível não se emocionar com a missão de Mack e Yo-Yo que funciona magistralmente para trazer à tona o trauma do grandalhão de coração maior ainda, fazendo-o reviver seus passados. Afinal, ele perdeu Hope por duas vezes e o diálogo dele com Yo-Yo, depois de descontrolar-se e surrar Stone, é de dilacerar qualquer um, já que ele constata como está sendo mais difícil lidar com a perda da Hope do Framework, a Hope falsa, algo certamente ainda vívido para ele, já que, para todos os efeitos, aconteceu há poucos dias, com uma vida (de mentira) inteira com ela. São momentos como esse, com uma direção sóbria e elegante, usando muito bem sombras e close-ups, com atuações inesperadamente tocantes, que realmente diferenciam Agents of S.H.I.E.L.D. de outras desse sub-gênero com estrutura de mais de 20 episódios. O drama não é barato, não é raso ou resolvido em poucas linhas de diálogo ou com um acontecimento bombástico. Muito ao contrário, ele é profundo e presente nas feições dos personagens afetados praticamente o tempo todo, funcionando como genuínos elementos de construção narrativa e não artifícios mequetrefes.

No lado da ação propriamente dita, depois que Deke leva May e Coulson para o nível 35, onde eles descobrem que os Krees manipulam geneticamente os humanos sobreviventes para aumentar a incidência de bebês com genes inumanos, a direção de Stan Brooks (debutando na série) nos presenteia com mais um belo exemplar da coreografia de luta que também é marca registrada de AoS. Aqui, vemos uma May ainda ferida em razão de sua materialização nesse futuro que lhe valeu uma perna perfurada lutando com ninguém menos do que a silenciosa e mortal Sinara e suas bolinhas de metal à la Magneto. Violenta e na medida certa considerando o problema físico de May, a pancadaria já estabelece uma interessante rivalidade entre as duas que, espero, ganhe um repeteco em episódio futuro com resultado diferente, claro.

Infelizmente, porém, Brooks não acerta todo o tempo. Sua direção é inquieta, por vezes irritante, especialmente quando ele mantém a câmera em movimento circular ou em travelling lateral com montagem cruzada em sequências em que os personagens estão parados, normalmente apenas conversando. Isso não acontece uma ou duas vezes, mas praticamente todo o momento em que a cena não tem movimentos bruscos, com a milagrosa e bem-vinda exceção do momento íntimo entre Yo-Yo e Mack. Com isso e alguns usos inexplicáveis de ângulo holandês, o diretor acaba chamando atenção para seu trabalho e não digo isso de forma elogiosa. Afinal, no lugar de permitir que acompanhemos as cenas, ele pede que acompanhemos a câmera sem que, porém, exista uma função que não seja encher a paciência do espectador.

A Life Earned, apesar dos problemas técnicos, funciona em sua proposta de ser um intervalo na velocidade vertiginosa que vinha sendo imposta à temporada, mas sem nem de longe realmente parar ou mesmo desviar-se da narrativa principal. Em outras palavras, Agents of S.H.I.E.L.D. continua em seus francos esforços de nos entregar uma temporada inesquecível.

Agents of S.H.I.E.L.D. – 5X04: A Life Earned (EUA, 15 de dezembro de 2017)
Showrunner: Jed Whedon, Maurissa Tancharoen, Jeffrey Bell
Direção: Stan Brooks
Roteiro: Drew Z. Greenberg
Elenco: Clark Gregg, Chloe Bennet, Ming-Na Wein, Iain De Caestecker, Elizabeth Henstridge, Henry Simmons, Natalia Cordova-Buckley, Jeff Ward, Eve Harlow, Pruitt Taylor Vince, Coy Stewart, Pruitt Taylor Vince, Rya Kihlstedt, Myko Olivier, Dominic Rains, Florence Faivre
Duração: 43 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.