Crítica | Agents of S.H.I.E.L.D. – 5X12: The Real Deal

Aviso: Há spoilers do episódio e da série. Leia, aquias críticas dos outros episódios e, aquide todo o Universo Cinematográfico Marvel .

Aqueles que, como eu, acompanham Agents of S.H.I.E.L.D. desde o seu nascedouro mal recebido e ainda detestado por muitos lá no já longínquo ano de 2013, sabem que essa jornada foi tensa. A cada final de temporada, desde a primeira, ficava a torturante dúvida se a série seria renovada e, a cada suado anúncio, vinha o alívio. Na medida em que as temporadas progrediam e melhoravam exponencialmente, essa tensão naturalmente aumentava, deixando-nos realmente preocupados com o fim prematuro das aventuras de Phil Coulson e sua equipe de agentes que aprendemos a amar. É, portanto, com muita felicidade que vejo a série chegar ao mítico e muito desejado marco de 100 episódios em um crescendo de qualidade que é impressionante e, arriscaria dizer, sem precedentes no sub-gênero. Mesmo que estejamos diante da última temporada – se os rumores tornarem-se realidade finalmente – os apreciadores de AoS podem ter a certeza de que o fim será no auge, algo que não pode ser dito de muitas e muitas séries aí que acabaram mais por apatia, apagadas e enfraquecidas em um mercado competitivo e que não perdoa.

E The Real Deal, diferente do que muitos imaginavam, não é Agents of S.H.I.E.L.D. se curvando ao “quanto mais melhor”, aos fogos de artifício vazios e completamente esquecíveis que costumam marcar episódios comemorativos dessa natureza. The Real Deal lida com o coração metafórica e realisticamente. No lugar de mais pancadaria e mais explosões, temos uma viagem pela memória desses cinco anos tendo Phil Coulson como pilar.

Reparem como as coisas acontecem de maneira discreta, quase muda. A explosão no depósito causada pela General Hale ao final do episódio anterior funcionou, como esperado, como um gatilho para que os três monólitos lá localizados fossem ativados. O resultado disso foi a abertura de uma fenda espaço-temporal que deixou sangrar para a Terra uma “dimensão do medo” que materializa os maiores temores de cada um dos agentes. Trata-se de um artifício para lá de conveniente para justificar a presença de Chibata (Lash), Colmeia (Hive) e de Mike Peterson (J. August Richards voltando brevemente para a série) em sua versão 100% humana, mas é também um elemento narrativo que não tem apenas um fim em si mesmo, já que fica claro que a fenda pode ser a causa da destruição da Terra em algum momento do futuro e que o “Band-Aid” que Fitz inventou é só isso mesmo, um paliativo temporário. Ou seja, o episódio que festeja o marco é também funcional para a história macro sendo contada.

Mas o que interessa mesmo, de verdade, é tudo aquilo que gira em torno de Coulson. Começando pela revelação discreta e finalista de seu pacto com o Motoqueirorista Fantasma que já ali nos faz voltar no tempo para o uso experimental de tecnologia Kree por Nick Fury para salvar o agente da morte pelas mãos de Loki, passando por seu emocional diálogo com Daisy – sua filha, sua herdeira, o símbolo que ele quer para a S.H.I.E.L.D. – e culminando com seu enfrentamento de seu maior medo, bem no estilo O Vingador do Futuro, em que tudo o que vimos até agora, na verdade, não passaria da mente de Coulson lidando com sua morte anos atrás. Ou seja, que tudo o que ele fez, tudo o que ele significou, na verdade, nunca existiu. Não poderia haver medo maior do que esse.

Fazendo-nos viajar por todos esse anos de Agents of S.H.I.E.L.D. desde que o logotipo múltiplo aparece, os showrunners Jed WhedonMaurissa Tancharoen e Jeffrey Bell, que escreveram o roteiro, nos colocam em um lugar confortável e agradável, trazendo-nos as memórias de tudo o que a série representou. Primeiro spin-off não cinematográfico do Universo Cinematográfico Marvel, somos tratados com as imagens da lança de Loki, menções a Tony Stark e Fury e flashes da família que Coulson cultivou desde o início, tendo Daisy como ponto focal. Creio que a possibilidade de que tudo tenha se passado na mente do agente não foi criada para ser levada a sério pelos espectadores ou para enganá-los mesmo que por um segundo. Seria incongruente e completamente frustrante. O que os showrunners queriam era estudar Phil Coulson como a rocha que dá coesão à equipe. Ao mesmo tempo, eles nos preparam para a possibilidade de ele vir mesmo a falecer ao final da temporada, quebrando o loop temporal que levaria ao futuro aterrador que viram. Está tudo ali presente: a aceitação de Coulson da situação, quando ele diz que não quer uma terceira chance, pois seria ganancioso demais e que ele precisa “passar a tocha”; a fidelidade de seus agentes – de sua família – ao que ele representa, com a recusa, representada por May, de deixá-lo ir sem luta.

Na verdade, tudo foi construído para que Coulson morresse em The Real Deal. Diria que uma das minhas pequenas reclamações do episódio seja justamente esse aspecto. O roteiro peca um pouco pelo melodrama excessivo ao redor da morte dele e não entrega o que parece prometer. Seria impensável que matassem o líder da equipe em um episódio comemorativo? Sim. Mas é exatamente por isso que realmente achei que a trinca de showrunners pagaria para ver. Do jeito que ficou, pareceu aquele blefe anticlimático que chega a desapontar. E eu não quero necessariamente que ele morra, mas a questão é que esse era o desfecho que estava sendo construído e esse é o desfecho cíclico e lógico para a série como um todo.

Outro ponto negativo, que se relaciona diretamente com a sobrevida de Coulson, é seu salvamento, no último segundo, por um saltitante Deathlok, com nova – mais ainda feia – armadura. Deke ser enviado em uma missão secreta por Coulson e conseguir magicamente trazer uma equipe de agentes que fora resgatada pelo ciborgue e Deathlok basicamente teletransportar-se para onde Coulson estava pareceu-me demais em pouco tempo, em um uso um tanto estabanado do deus ex machina. Claro que foi divertido ver Deathlok 3.0 agir, mas as ameaças em nenhum momento pareceram ter peso ou perigo, estando ali somente para cumprir sua função explícita de fan service em um 100º episódio. Nada de errado não fosse todo o trabalho anterior lidando com a futura morte de Coulson.

Mesmo com seus problemas, o episódio foi palco para mais uma excelente atuação de Clark Gregg que, quando ganha espaço, sabe aproveitá-lo ao máximo. Seu Coulson evoluiu muito e, aqui, alcança o que possivelmente é seu ponto alto. O mesmo se pode dizer de Chloe Bennet, apenas um rostinho bonito na primeira temporada que vem despontando na construção de sua personagem em contínuo fluxo transformativo. O momento Daisy-Coulson sozinhos foi memorável, portanto.

O final, com o tão esperado casamento de Fitz e Simmons no Holodeck, digo floresta idílica extradimensional criada pelo medo, foi a “fofura” para fechar o capítulo de forma leve e positiva, mesmo que o tom fatalista tenha sido sublinhado em comentários semi-jocosos na linha do “vamos casar logo, antes que uma desgraça se abata sobre esses dois mais uma vez”. Ainda espero que o lado “genocida da Hidra pós-Framework” de Fitz seja abordado na temporada, mas, pelo momento, foi a maneira como o episódio precisava acabar, inclusive a também esperada revelação de que Deke, no final das contas, é neto da dupla se não nessa, pelo menos em alguma realidade.

The Real Deal, como episódio comemorativo, foi uma ótima surpresa. Tivemos o passeio pela história da série que é padrão em roteiros festivos, mas, por outro lado, tivemos foco na vida do personagem que é a força motriz da equipe e que faz a ponte direta com o UCM. Um digníssimo e belíssimo capítulo que celebra a série, seu elenco e, principalmente, seus fãs. Vou parar de escrever, pois entrou um cisco em meu olho…

Agents of S.H.I.E.L.D. – 5X12: The Real Deal (EUA, 09 de março de 2018)
Showrunner: Jed Whedon, Maurissa Tancharoen, Jeffrey Bell
Direção: Kevin Tancharoen
Roteiro: Jed Whedon, Maurissa Tancharoen, Jeffrey Bell
Elenco: Clark Gregg, Chloe Bennet, Ming-Na Wein, Iain De Caestecker, Elizabeth Henstridge, Henry Simmons, Natalia Cordova-Buckley, Jeff Ward, Catherine Dent, Dove Cameron, Briana Venskus, Joel David Moore, Brian Patrick Wade, Patrick Warburton
Duração: 43 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.