Crítica | Agents of S.H.I.E.L.D. – 5X14: The Devil Complex

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Quando a “dimensão do medo” foi mencionada por Fitz no 100º episódio de Agents of S.H.I.E.L.D., nem mesmo ele levou o problema a sério. O texto do roteiro tratava a questão de maneira incrédula, jocosa mesmo, literalmente como algo tão exagerado e bobo que não era para ninguém levar muito a sério. As ameaças que viram fumaça depois de levar uns tiros corroboravam isso, algo repetido em Principia. Era a típica ameaça que encontramos em HQs não particularmente muito boas, ainda que todos os acontecimentos ao redor mantivessem alta a qualidade da temporada.

Mas toda essa invencionice multidimensional, pelo que parece, tinha The Devil Complex como objetivo. Tudo vem desaguar aqui, neste que certamente é o episódio mais sombrio, mais pesado de toda a série até agora, algo que eu sinceramente duvidava que os showrunners realmente tivessem coragem de fazer. Quando o Doutor Leopold, a persona genocida da Hydra de Fitz dentro do Framework, aparece logo em seguida à inócua ameaça do astronauta, minha primeira reação foi de alegria, algo que durou brevíssimos milissegundos até eu descartá-la como mais uma bobagem que seria um desserviço desse absolutamente fascinante personagem. Estava preparado para descascar o episódio em razão disso.

E, mais uma vez nesta realmente impressionante temporada da série, quebrei a cara.

Quando vem a revelação de que Leopold não é um construto da “dimensão do medo” e nem mesmo uma segunda personalidade de Fitz que se sobressaiu em razão de seu estresse combinado com uma consequência tardia de seus ferimentos na cabeça das já longínquas primeira e segunda temporadas (algo explicitamente referenciado), mas sim o próprio Fitz plenamente consciente do que fez, o que incluiu nocautear Deke, ferir Mack e arriscar uma paralisia física em Daisy com o objetivo de comprimir o gravitonium para fechar de uma vez por todas a dimensão do medo. São os fins justificando os meios levado às últimas consequências em um reviravolta climática muito bem construída e muito bem trabalhada que, em retrospecto, funciona de maneira harmônica para o personagem, de longe o que mais evoluiu na série inteira.

Quem acompanha minhas críticas sabe que nunca escondi meu fascínio pelo lado sombrio de Fitz e que eu queria muito ver isso de volta à série de alguma maneira. Mas jamais, de forma alguma, imaginei algo assim tão insidioso, tão terrível, tão pesado. Leopold não existe mais mesmo. Só que a experiência de Fitz no Framework parece ter revelado a ele quem ele é de verdade. E não, ele não é um genocida louco. E sim, seus sentimentos por Simmons e também pela equipe são genuínos. No entanto, ele é alguém que fará o que for preciso pelo bem maior, nem que isso signifique ferir, torturar e também provavelmente matar quem quer que seja, como ele já mencionou em arroubos impensados em episódios anteriores, especialmente em Past Life.

Mesmo que a desculpa da necessidade de compressão do gravitonium seja meio jogada e um tanto esfarrapada, uma vez que ela é aceita – e não é necessário muito esforço para isso – todo o restante faz completo sentido e, se pensarmos friamente (mas bem friamente mesmo), era necessário. Diria tão necessário que os atos de Fitz – desse novo Fitz – era mesmo essenciais. Afinal, seu plano não era “matar todo mundo para dominar o mundo”, mas sim conter a equipe pelo tempo necessário para realizar uma cirurgia cranial em Daisy (que não queria os poderes de volta) de forma que ela pudesse novamente usar seus poderes sísmicos para um objetivo específico. Claro que fica a pergunta: será que é a fenda que seria responsável pela destruição da Terra ou ela é apenas a catalisadora para que Daisy voltasse a ser Tremor e, por alguma razão ainda incerta e não sabida, a Destruidora de Mundos? Creio que a resposta seja a segunda, que a fenda é uma peça do dominó sendo derrubado vagarosamente e que mantém o loop temporal em que eles estão intacto. Nada ainda foi quebrado de fato e o futuro da humanidade no Farol ainda é o único futuro.

É muito interessante notar como o roteiro de Matt Owens não se furta de ir além ainda, colocando Fitz e Simmons em um confronto verbal em que ela reconhece que, de fato, talvez as ações de seu marido tenham sido mesmo necessárias. As tonalidades de cinza que passam a permear a série depois desse episódio são um atestado da qualidade do trabalho da equipe criativa em fazer o melhor e o mais inesperado possível – dentro de uma lógica interna inabalável – mesmo com seus personagens mais amados.

Mas é claro que essa trama não teria funcionado não fosse a performance assustadora de Iain De Caestecker, inicialmente fazendo dois papeis distintos e, depois, a perfeita amálgama de Leopold com o Fitz do começo da série, resultando em um personagem complexo e inédito em séries de super-herói dessa natureza. O ator convence em todos os momentos, seja na frieza absoluta de um Leopold obsessivo em alcançar seu objetivo, seja no temor em reconhecer-se como alguém diferente de quem Fitz sempre achou ser. É um caminho para o lado sombrio que é raro de se ver por aí, especialmente se considerarmos que o personagem resultante não é um louco furioso e descontrolado, mas sim um cientista que destrava e abraça um traço de personalidade que sempre guardou lá escondido no fundo da mente.

O epílogo dessa montanha-russa de emoções foi feito cuidadosamente para emocionar ainda mais o espectador. Deke hesitantemente sentando-se ao lado de uma Simmons arrasada e usando a revelação de que ele é o neto dela para mostrar-lhe o caminho da luz é um momento singular que, sozinho, já justifica a inserção de Deke na temporada, algo que começou de um jeito genérico e acabou magistralmente. E posso estar enganado, mas quando a reação de Simmons não é abraçar Deke, mas sim passar mal, creio que o objetivo foi mostrar que a mãe do viajante do tempo já está ali em seu ventre.

Toda a trama envolvendo Fitz me fez quase que literalmente esquecer da outra parte do episódio, lidando com a dança de cadeiras entre Coulson e a general Hale, com direito à volta de Anton Ivanov e a primeira missão de Crusher Creel como membro da nova equipe. Com a virada de mesa da general, que leva Coulson para seu QG, creio que finalmente saberemos mais detalhes de seus sinistros planos que, pelo que foi mostrado na cena pós-logotipo, incluem a volta da Hydra, agora com tentáculos alienígenas, provavelmente Kree considerando o odium entregue pelo ser nas sombras à ela.

The Devil Complex é mais um ponto alto da temporada. Um episódio que reitera algo que já estava bem óbvio: Agents of S.H.I.E.L.D. não é mais aquela sériezinha leve e fácil de se ver. Dor, sombra, traição e transformação são as palavras de ordem. E que continue assim!

Agents of S.H.I.E.L.D. – 5X14: The Devil Complex (EUA, 23 de março de 2018)
Showrunner: Jed Whedon, Maurissa Tancharoen, Jeffrey Bell
Direção: Nina Lopez-Corrado
Roteiro: Matt Owens
Elenco: Clark Gregg, Chloe Bennet, Ming-Na Wein, Iain De Caestecker, Elizabeth Henstridge, Henry Simmons, Natalia Cordova-Buckley, Jeff Ward, Catherine Dent, Dove Cameron, Briana Venskus, Brian Patrick Wade, Spencer Treat Clark, Zach McGowan, Peter Mensah
Duração: 43 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.