Crítica | Águas Rasas

Quando lançado em 2016 nos cinemas, Águas Rasas tornou-se um fenômeno cultural. O filme demonstrou que um argumento simples pode dar vazão a uma história interessante: a jovem Nancy Adams (Blake Lively) é surpreendida numa praia paradisíaca enquanto surfava, tendo que lutar por sua vida em um recife de corais. Ela está próxima à beira da praia, mas a presença do tubarão branco que a circunda impede o seu retorno.

Dirigido por Jaume Collet-Serra, tendo como base um roteiro de Anthony Jaswinski, Águas Rasas é um filme que ganha destaque por oxigenar um subgênero decadente, repleto de produções insignificantes e pífias. Ao abrir precedentes para novos filmes com os tubarões, talvez a criatura marinha mais “amada” e “temida” da literatura e do cinema, a produção que tem o veterano Marco Beltrami na composição musical consegue estabelecer-se como aventura, drama e suspense, além de acionar um extenso repertório cultural de referências que pede ao espectador um background mínimo para acompanhar a produção em seus pormenores.

Aos que não detém nenhuma informação sobre Moby Dick, O Velho e o Mar, Tubarão (livro e filme), bem como algumas características do movimento literário romântico, provavelmente compreenderá o filme apenas como uma aventura sobre uma mulher atacada por um tubarão insistente. Águas Rasas é mais que isso, pois se apresenta também como uma história de sobrevivência, aos moldes de 127 Horas, de Danny Boyle, drama bastante tenso com James Franco a segurar o filme do começo ao fim, sem auxílio de diálogos e coadjuvantes.

Para acessar o potencial dramático de Águas Rasas, cabe ao espectador listar os elementos básicos dos roteiros de cinema: o enredo, os atos, a relação da história com a necessidade dramática do personagem, bem como a sua dimensão física, psicológica e social. Estes são requisitos mínimos para que possamos entender a carga emocional proposta pela narrativa que já nos oferece aspectos visuais suficientes para a aderência total: a eficiência da direção de fotografia de Flavio Martinez, a montagem equilibrada de Joel Negron e os enquadramentos e planos abertos regidos pelo cineasta que assina a produção, contemplativos do espaço cênico, além de metafóricos no que concerne a pequenez da personagem principal diante da natureza.

O enredo trata da sua ida ao local que no passado, foi visitado por sua mãe, uma mulher forte e aventureira que batalhou contra o câncer durante bastante tempo. Somos informados detalhadamente que Nancy Adams é uma estudante de Medicina que abandou temporariamente o seu curso, aparentemente descrente, haja vista a não possibilidade de salvar a vida de sua mãe. Ela chega ao local sozinha, depois que a amiga e companheira de viagem desiste de surfar para descansar da noite anterior, marcada por longa comemoração.

Em busca de memórias que a levem para uma zona de conforto diante do luto persistente, Nancy Adams contempla o lugar, antes de entrar na água e pegar as primeiras ondas radicais. Depois que é deixada por Carlos (Óscar Jaenada), motorista que lhe forneceu carona até o local, Nancy mergulha, volta para a areia, entra em contato com Chloe (Sedona Legge), sua irmã mais nova, dialoga com o pai (Brett Cullen), homem que insiste na transformação do luto em força para continuar a sua trajetória como médica.

Nancy despede-se dos familiares num interesse jogo visual entre a ligação e a cena, poucas vezes visto no cinema, para logo depois, entrar no mar novamente. Após uma breve radiografia do espaço, Nancy encontra dois surfistas que aconselham sobre a maré e o recife de corais. Juntamente com os aventureiros, ela surfa mais alguns instantes. Os rapazes vão embora, mas Nancy decide curtir um pouco mais o lugar.

Antes do conflito se estabelecer, ela é surpreendida numa cena divertida com alguns golfinhos, animais que a atraem para um animal morto alguns metros à sua frente: uma baleia Jubarte, ferida em diversas partes. Ela observa de longe, aproveita uma onda para voltar, mas é surpreendida por um enorme tubarão branco que a golpeia, provocando-lhe ferimentos por conta do contato com os corais e por uma mordida na perna que a deixa bastante debilitada.

Sem ter a possibilidade de voltar para a praia, Nancy desloca-se para o recife de corais, local onde a sua vida será testada e o segundo ato do filme se estabelecerá. Até este ponto já sabemos as suas necessidades dramáticas, o seu perfil social e psicológico, bem como as características físicas de uma mulher esportista e bem saudável que, mesmo acometida por um ferimento, apresentará a destreza necessária para bifurcar-se pelo mar e engendrar o seu plano de sobrevivência.

Carregado de tensão, o segundo ato é repleto de cenas angustiantes, tais como a costura do ferimento com brincos e um pingente, o frio, a fome e a sede, além da falta de perspectiva. Os três personagens que poderiam salvá-la são dizimados pelo tubarão, em cenas bem orquestradas, por sinal, o que culminará com o embate entre o humano e a natureza, no estabelecimento do terceiro ato: a “luta final” entra Nancy e o tubarão. A tensão é elevada ao máximo e a protagonista precisará demonstrar a destreza que a sua dimensão física apresenta.

Analisadora dos detalhes de sua situação, Nancy elabora um plano envolvendo a boia salva-vidas e os sinalizadores, o que culmina numa luta feroz e eletrizante, desfecho que solicita aos espectadores o que Samuel Taylor Coleridge chamou de suspensão da descrença, isto é, a vontade própria de um leitor ou espectador em aceitar como possíveis, as premissas de uma obra ficcional, mesmo que a abordagem seja muito fantasiosa ou contraditória. É um pacto entre obra artística e contemplador, muito eficiente para quem se submete ao exercício diletante e, principalmente, analítico de uma produção ficcional.

Com orçamento de US17 milhões, Águas Rasas rendeu bastante e foi considerado um sucesso de bilheteria e crítica. Filmado em parte na Austrália, numa região considerada reserva ecológica, altamente burocrática para qualquer acesso, a produção também contou com uma piscina em um tanque enorme, construído em estúdio. Nancy segue em busca de paz e se depara com uma situação extrema. Sendo assim, retorna mais reflexiva acerca da sua própria existência, no que chamamos de “evolução do personagem” nos manuais de roteiro.

Marcada pela lembrança da aventura aterrorizante, a heroína demonstra superação e possui uma trajetória bem próxima aos demais personagens das aventuras marinhas citadas neste panorama. Martin Brody, em Tubarão, acometido pela hidrofobia (medo patológico de entrar na água), precisou vencer os seus medos diante de uma situação extrema, tendo em vista salvar a si mesmo e aos seus conterrâneos. Nos filmes e obras literárias citadas anteriormente, as trajetórias são bastante similares, alguns com mais sortes, outros nem tanto, mas todos ligados por um fio condutor: o temível encontro com um animal marinho responsável por materializar ou metaforizar os seus maiores medos.

Águas Rasas (The Shallows, EUA – 2016)
Direção: Jaume Collet-Serra
Roteiro: Anthony Jaswinski
Elenco: Blake Lively, Óscar Jaeneda, Brett Cullen, Sedona Legge, Sully Seagull
Duração: 86 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.