Crítica | Águas Rasas

estrelas 3,5

Ah, os tubarões. Foram um tema de grande interesse meu na infância, quando grande parte do tempo era dedicado a sessões escondidas de Tubarão, de Steven Spielberg, o trash eficiente Do Fundo do Mar e muitas horas de Semana do Tubarão no Discovery Channel. Até hoje o grande predador marinho representa um ícone do terror e da cultura pop muito marcante para mim, o que também explica minha decepção com todos os longas que tentaram repetir o sucesso de Spielberg em 1975. As próprias sequências de Tubarão são pavorosas, e o Syfy confunde trash com abominável em seus insuportáveis Sharknados. Eis que Jaume Collet-Serra surge das profundezas com Águas Rasas, enfim injetando vida nova a um gênero tão sofrível.

A trama é simplíssima. A surfista Nancy (Blake Lively) enfim encontra uma praia paradisíaca que fora visitada por sua mãe na gravidez, na costa de Tijuana. Enquanto pratica suas manobras nas belas ondas do mar, sofre um repentino ataque de um tubarão branco que a encurrala para uma rocha. Enquanto trata de seus ferimentos, Nancy precisa bolar um jeito de voltar à praia e despistar seu perseguidor.

É uma premissa limitada e que exige muito de seu diretor e atriz central, e felizmente temos acertos em ambos. A começar com Jaume Collet-Serra, que nos últimos anos tem se mostrado como um dos nomes mais interessantes a se acompanhar: do terror A Órfã até os thrillers de ação com Liam Neeson Sem Escalas e Noite Sem Fim, vemos uma inventividade visual notável no estilo do cineasta espanhol, que á particularmente eficiente em retratar o uso de smartphones e multi-câmeras. Aqui, temos diversas cenas em que Nancy troca mensagens com alguém ou usa  a vídeo chamada do celular, e Serra traz elaboradas tomadas onde a imagem do celular é projetada ao lado da personagem, rendendo ainda momentos mais inspirados como aquele em que temos a imagem dos pés de Nancy caminhando na praia enquanto vemos dois quadradinhos projetados com seu rosto e o de seu pai durante uma conversa do tipo.

O diretor só peca ao levar o estilo ao extremo ao exagerar na câmera lenta, o que praticamente transforma as primeiras cenas de surf em um vídeo publicitário nada discreto, sem falar no fato de o diretor ser apaixonado pelo corpo de Blake Lively (não o culpo, sinceramente) e constantemente explorá-lo de diversos ângulos. E por falar em primeiro ato, é onde o roteiro de Anthony Jaswinski tem mais dificuldades, já que temos uma exposição um tanto problemática e diálogos que a pioram, o que torna a construção da ação nesses minutos iniciais um tanto lenta.

E finalmente chegamos a Blake Lively, que entrega aquela que sem sombra de dúvidas é a melhor performance de sua carreira. Saída dos dramalhões e das comédias românticas adolescentes, ela revela seu lado badass em uma atuação que exige muito de sua performance física e de expressões que não envolvem diálogo, mas sensações de medo, ideias e qualquer outro tipo de reação que Nancy tenha em seu limitado ambiente. A atriz se sai muito bem, e Serra deposita confiança em seu talento na excelente tomada em que a protagonista testemunha um homem sendo brutalmente devorado pelo tubarão, mas o diretor inteligentemente mantém a cena toda em um plano longo da reação de Blake.

Mas vale apontar que Lively não está sozinha o tempo todo, tendo a companhia indispensável da gaivota vivida por Sully Seagull (JURO que os créditos finais trazem o nome do animal, e isso é genial), o que cria uma dinâmica agradável entre Nancy e esta única forma de vida que não tenta devorá-la. E já que tocamos no assunto, o tubarão digital que antagoniza o longa deve ser um dos mais realistas e bem feitos que já vi e Serra segue com cuidado a escola Spielberg de como revelar a criatura aos poucos.

Com seus curtos 86 minutos, Águas Rasas certamente é uma das experiências mais satisfatórias de 2016. Em meio a blockbusters imbecis e infinitas adaptações de super-heróis, temos aqui um filme pipoca simples e que não trata o espectador como burro, entregando justamente o que promete em um filme intenso e eficiente.

Águas Rasas (The Shallows, EUA – 2016)
Direção: Jaume Collet-Serra
Roteiro: Anthony Jaswinski
Elenco: Blake Lively, Óscar Jaeneda, Brett Cullen, Sedona Legge, Sully Seagull
Duração: 86 min


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LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.