Crítica | Águia de Aço

estrelas 2,5

Há determinados anos em Hollywood que filmes com temas semelhantes acabam sendo produzidos simultaneamente e, muitas vezes, um deles acaba sendo esquecido nas brumas do tempo. Esse foi o caso de Vida de Inseto e Formiguinhaz, em 1998, Garotos Perdidos e Quando Chega a Escuridão, em 1987 e Top Gun: Ases Indomáveis e Águia de Aço, em 1986. Nem é necessário dizer que filmes, por uma razão ou outra (não necessariamente qualidade) ficaram na mente coletiva do público, não é mesmo?

Águia de Aço, assim como Top Gun, é uma bobagem divertida, cheia de bromance e coreografias aéreas com um dos mais icônicos aviões caça já feitos, o F-16 (o outro, o F-14, ficou com Top Gun) e regada com uma trilha sonora de hits inesquecíveis. Para quem viveu a época, esses dois filmes certamente marcaram o ano, ainda que o veículo para o estrelado de Tom Cruise tenha se saído bem melhor no quesito fama. O interessante, porém, é notar que o filme que ganhou não uma, mas três tenebrosas continuações foi Águia de Aço, enquanto que Top Gun não foi “laureado” assim.

Acho que a qualificação de “bobagem divertida” que usei acima já encapsula a linha da presente crítica. E o filme é isso mesmo: um fiapo de história como desculpa para combates aéreos e uma ligação de mestre/aprendiz entre o experiente Coronel Charles ‘Chappy’ Sinclair, vivido pelo sempre simpático Louis Gossett, Jr. e o jovem impetuoso Doug Masters, vivido pelo super-canastrão Jason Gedrick. Esses dois personagens-clichê são o foco da trama clichê em que Doug, depois de saber que seu pai piloto foi abatido e capturado pela nação árabe fictícia Bilya (fazendo as vezes, obviamente, da Líbia, pois a base história para a trama foi o incidente do Golfo de Sidra), faz de tudo para resgatá-lo por conta própria, contando com a hesitante ajuda de Chappy.

O filme tem aquela estrutura básica de obras oitentistas que telegrafa os acontecimentos do começo ao fim, dando conforto ao espectador que pode relaxar e simplesmente divertir-se com os ótimos e convincentes combates aéreos entre um piloto inexperiente em um F-16 que massacra todos os mais experientes pilotos de MiG-23 que aparecem em sua frente. Certamente essa fita incomodaria muita gente partidária do politicamente correto e também aqueles que viram o nariz para o “imperialismo americano”, mas, na década de 80, essa militância chata não existia (ainda bem!). O que existia era pancadaria descerebrada.

Mas voltando aos combates aéreos, eles foram filmados in loco em Israel, com F-16s do exército israelense, o que dá um bom grau de veracidade a eles. A coreografia é de Jim Gavin, que havia trabalhado em Trovão Azul. Arrisco dizer, sem muito medo de errar, que as tomadas aéreas comandadas por Sidney J. Furie, com fotografia de Adam Greenberg, tem muito mais peso dramático e carregam muito mais veracidade do que as que vemos em Top Gun.

Em termos de atuação, mesmo a canastrice de Gedrick acaba funcionando, tamanha é a unidimensionalidade de seu personagem. Com isso, quem rouba as cenas é Louis Gossett, Jr., com aquele ar de experiência e paciência que só ele sabe passar. Aliás, o ator seria o único a voltar nas três continuações nos anos seguintes. É interessante notar que seu personagem foi baseado no General Daniel “Chappie” James, Jr., um dos pilotos da aclamada e heroica esquadrilha dos Tukegee, que lutou na Segunda Guerra Mundial e que era formada integralmente pelos primeiros negros a tornarem-se pilotos das Forças Armadas dos EUA. Uma bela, ainda que insuficiente, homenagem.

Águia de Aço também notabilizou-se pela trilha sonora e nas duas vertentes, a instrumental e a de músicas cantadas. No lado instrumental, temos um bom trabalho de Basil Poledouris (compositor das trilhas de Conquista Sangrenta, Conan, o Bárbaro e RoboCop) que logo nas primeiras notas já imprime um tom heroico muito apropriado à fita, mantendo-se vibrante e bem cadenciada por toda sua duração, graças à uma boa sincronização. Mas é pelo lado não instrumental que Água de Aço gera mais lembranças. Afinal, ela é repleta de ótimas canções pop como Iron Eagle (Never Say Die) de King Kobra, Maniac House de Katrina and the Waves e Love Can Make You Cry de Urgent. No entanto, a cereja no bolo é mesmo a magistral e potente One Vision do Queen, que faria parte do excelente álbum A Kind of Magic.

Sem dúvida alguma considerado o “patinho feio” dos filmes de avião de 1986, Águia de Aço não deixa nada a dever a seu primo mais famoso. É diversão descompromissada, leve e movimentada como muitos filmes oitentistas do gênero.

Águia de Aço (Iron Eagle, EUA/Canadá/Israel – 1986)
Direção: Sidney J. Furie
Roteiro: Kevin Alyn Elders, Sidney J. Furie
Elenco: Louis Gossett, Jr., Jason Gedrick, David Suchet, Larry B. Scott, Caroline Lagerfelt, Tim Thomerson
Duração: 117 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.