Crítica | Akira (Mangá)

Nos dias atuais enxergamos o mangá e o anime já como parte da cultura pop, com gerações inteiras tendo obras como Dragon BallCavaleiros do Zodíaco, dentre outras como marcas de sua infância e juventude, sem falar nas produções do Studio Ghibli, já tidas como exemplares de qualidade, com suas produções sempre concorrendo a prêmios em todo o mundo. Embora obras orientais tenham influenciado centenas de filmes no ocidente, a popularidade de mangás e animes nem sempre estivera em alta e Akira, de Katsuhiro Otomo, foi um dos responsáveis a ocidentalizar essas mídias, mesmo que todo seu enredo esteja enraizado na própria história do Japão.

É bastante comum enxergarmos como o impacto das duas bombas atômicas profundamente influenciou a ficção japonesa, gerando ícones como Godzilla e os outros kaijus, além de plantar as sementes das narrativas distópicas, que tomariam conta da segunda metade dos anos 1980 e 1990. Podemos citar Battle Royale e, é claro, Akira, como algumas dessas obras que tomaram as profundas mudanças geradas pelo fim da Segunda Guerra como base para seus universos. Foi a de Otomo, contudo, que, junto de Blade Runner, influenciou profundamente o estilo a ser seguido pelo cyberpunk nas produções japonesas, como em Ghost in the Shell. Aqui vemos o auge do conflito de gerações que marca a cultura nipônica, estabelecendo o existencialismo como a grande questão vivida pelos jovens do país.

Desde cedo o mangá estabelece esse conflito entre o velho e o novo, através da destruição da velha capital, através de uma nova bomba, que dá lugar a Neo Tóquio. Apesar disso, o antigo ainda continua ali, como lembrança do passado, com seus destroços podendo, ainda, ser visitados. Nesse cenário temos Kaneda e sua gangue, jovens vistos como delinquentes que percorrem as ruas das cidades com suas motocicletas, com as luzes da grande nova metrópole pairando como um aterrador gigante, que suprime a individualidade de todos. Durante uma dessas jornadas, Tetsuo, membro da gangue, acaba sofrendo um acidente e desperta seus poderes telecinéticos – seu complexo de inferioridade em relação a Kaneda, então, o faz ir contra seu velho companheiro, o que escalaria em uma guerra envolvendo os grupos de motoqueiros da cidade.

Akira lida constantemente com a falta de perspectiva sentida pelos jovens, algo que pode ser observado com clareza pela retratação da escola que o protagonista e seus amigos frequentam. Repleto de pichações, mal-cuidada e com salas de aulas que denotam que a última coisa que fazem ali é receber algum aprendizado, o local se estabelece como hostil, refletindo a cultura nipônica em eterno conflito. De um lado temos a honra, o bushido da era dos samurais, com os valores familiares acima de tudo, vide a importância dos sobrenomes nessa sociedade, enquanto que do outro temos a rebeldia, os avanços tecnológicos, a necessidade de libertação, tão presente na moda contemporânea e em outras manifestações artísticas.

Não é por mero acaso que Kaneda e seu grupo são órfãos, eles simbolizam a ruptura com o velho e, acima de tudo, o abandono, com os adultos os enxergando como marginalizados em um mundo no qual o coletivo suplanta o individual. Um dos maiores choques que sentimos nas páginas de Akira ocorre logo nos capítulos iniciais, quando os estudantes são espancados pelo professor de educação física à mando do diretor da escola – dessa forma, a figura do sistema é vilanizada, algo que apenas aumenta quando enxergamos o controle exercido pelo governo e as grandes corporações, todos profundamente corruptos. O anti-herói que protagoniza a história, portanto, se torna um símbolo de libertação, de luta pelos seus próprios sonhos, a fim de estabelecer o “eu” como algo mais que apenas parte de um todo.

Embora trabalhe com questões sobrenaturais, algo recorrente nas obras de Otomo, o mangá tem como seu foco principal o crescimento de seus personagens. Presenciamos claramente a evolução de suas personalidades, com velhas mágoas sendo trazidas à tona ao passo que a alienação dos jovens em relação a todo o sistema se torna mais evidente. O autor, então, aos poucos, vai inserindo a luta contra esse governo, colocando em suas páginas movimentos rebeldes, manifestações e mais, que dialogam perfeitamente com a nossa atualidade, cada vez mais decepcionada com o rumo que os governantes nos levam. Dito isso, embora tenha sido escrita entre 1982 e 1990, Akira é uma obra que se mantém atual, possibilitando que nos identifiquemos imediatamente com sua narrativa.

Esse fator, contudo, somente é possibilitado pelo traço, repleto de identidade, de Katsuhiro. Fugindo da costumeira arte de quadrinhos japoneses da época, o artista se apoia no realismo de seus personagens, os retratando com fisiologia mais próxima da população nipônica. Os grandes olhos e formas esguias dão lugar a formas mais arredondadas, que trazem consigo um grande teor de expressividade, a tal ponto que conseguimos enxergar com clareza a emoção de cada um dos personagens. Chega a ser curioso observar como o autor consegue diferenciar cada um dos indivíduos da história sem se apoiar em cabelos muito diferenciados entre si ou características físicas que fogem da realidade. Esse fator se prova essencial para construir nossa proximidade com a arte, por mais que tudo esteja inserido em um contexto cyberpunk.

Com isso em mente, fica fácil enxergar o porquê de Akira ter alcançado sua posição no imaginário popular, se estabelecendo como um dos mais importantes mangás já produzidos. Dialogando com os conflitos pertinentes não só à sociedade japonesa, como aos de todo o mundo, estamos falando de uma obra atemporal, que lida profundamente com a luta pela individualidade, enquanto explora a eterna briga entre o velho mundo e o novo. Tendo influenciado centenas de obras, tanto orientais, quanto ocidentais, o mangá verdadeiramente merece ser lido, ao passo que dialoga perfeitamente com nossa atual situação.

Akira – Japão, 1982/90
Roteiro: Katsuhiro Otomo
Arte: Katsuhiro Otomo
Editora (no Japão): Kodansha
Data de publicação original: 7 de dezembro de 1982 a 11 de junho de 1990
Editora (no Brasil): Editora JBC

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.