Crítica | Alcatraz – Fuga Impossível

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Frank Morris (Clint Eastwood) foi um criminoso que alcançou a fama através de suas fugas de presídios; ele passou por diversos, até que foi mandado para a prisão de Alcatraz, localizada em uma ilha de mesmo nome que se encontra na bacia de São Francisco. E é neste contexto relativamente simples que este Alcatraz – Fuga Impossível se passa: na estadia de Morris na aparentemente infalível prisão.

Alcatraz – Fuga Impossível é um filme mais preocupado em colocar seus personagens em situações que deixem o espectador na beira da poltrona do que em explicar porque exatamente estes personagens estão vivenciando tais situações. Dito isto, o roteiro de Richard Tuggle baseado no livro de J. Campbell Bruce fornece pouca coisa (ou quase nada) a respeito da personalidade de seus personagens para o público, o que é algo muito evidente – por exemplo, basta apenas ver ao filme e tentar responder as seguintes perguntas sobre o protagonista: porque Morris foi preso? Porque ele quer fugir, para voltar à sua rotina de bandido ou voltar para alguém que lhe espera? E quem é Frank Morris, exatamente?

Assim, a única característica que o roteirista faz questão que nós saibamos a respeito de Morris é a de seu Q.I. elevado – mas, evidentemente, apenas porque isto está intimamente relacionado com o desenrolar de toda a trama do filme. Da mesma forma, a narrativa pouco investe em relacionamentos entre personagens que fujam do grande foco do filme (a tentativa de escapar da prisão), e, quando o faz, é meramente para desviar um pouco a atenção da plateia de toda a esquematização por trás desta tentativa de fuga.

Mas este vácuo na personalidade dos personagens pouco afeta no grande objetivo desta obra: promover uma experiência tensa e envolvente para o espectador – e, neste aspecto, o trabalho do diretor Don Siegel é fabuloso. Se na primeira metade do longa o cineasta (junto de seu roteirista) é hábil ao estabelecer a rotina da prisão e demonstrar para nós o funcionamento da mesma, é na metade final que Alcatraz atinge seu auge. Seja pelas improvisações e estratégias de Morris que fascinam, seja pelas inúmeras situações que promovem desconforto e inquietação, Siegel garante que seu público não pisque da metade da projeção em diante, graças à atmosfera tensa e sufocante que constrói.

Mas o cineasta não estabelece o suspense apenas com o ritmo ágil e envolvente que fornece ao seu trabalho, mas também ao fazer uso de recursos sonoros e visuais para a construção da atmosfera. Veja como ele é hábil ao usar os próprios sons do ambiente (a cena na serralheria ilustra muito bem isto) e uma trilha sonora sutil e por vezes acanhada; da mesma forma, a ausência de qualquer som também é muito bem utilizada pelo diretor, tornando o silêncio um aliado (ou inimigo) poderosíssimo dos personagens. Também, como recurso visual, o design de produção de Allen E. Smith é bem utilizado por Siegel e se mostra fundamental não apenas na composição de ambientes angustiantes, claustrofóbicos e pequenos – vide as minúsculas celas dos prisioneiros e o estreito corredor entre as paredes que separam internamente umas celas das outras –, mas também ao estabelecer uma lógica visual coerente para o histórico presídio.

Assim, se o roteiro pouco oferece para a personalidade do personagem principal, a escalação de Clint Eastwood não podia ser mais certeira, já que o ator tem uma presença forte e marcante, bem como um ar de confiança em si mesmo, o que garante que Frank Morris funcione enquanto protagonista da história, de tal forma que nunca desconfiemos de que ele é capaz de arquitetar soluções para todas as circunstâncias improváveis que surgem ao longo da projeção. Também, é interessante observar a maneira quase mítica com que o ator, ao lado de seu diretor, constrói o personagem, o que foi e continua sendo fundamental para que Morris seja visto praticamente como uma lenda.

Portanto, além de ser uma experiência tensa e angustiante, o trabalho de Siegel e Eastwood (que também foram parceiros no excelente Perseguidor Implacável) se revela como sendo um filme pipoca que funciona de forma mais que eficiente, em um passatempo despretensioso que merece figurar nas listas dos filmes de prisão que merecem ser conferidos.

Alcatraz – Fuga Impossível (Escape from Alcatraz, EUA, 1979)
Direção: Don Siegel
Roteiro: Richard Tuggle (baseado no livro de J. Campbell Bruce)
Elenco: Clint Eastwood, Patrick McGoohan, Roberts Blossom, Jack Thibeau, Fred Ward, Paul Benjamin, Larry Hankin, Bruce M. Fisher, Frank Ronzio, Fred Stuthman
Duração: 112 min.

LUIS EDUARDO BERTOTTO . . . Quando vi pela primeira vez Marty McFly viajar para 1955, passei a me interessar pelo fabuloso e caótico processo construtivo de um filme. Desde então, venho me fascinando e me surpreendendo cada vez mais pela composição das mise-en-scènes e a forma com que elas enriquecem o universo de uma produção cinematográfica. Não apresento restrições a gêneros e épocas – pelo contrário, apenas tenho uma leve queda pela explosão criativa dos anos 70 e possuo uma adoração descomunal pela obra de Scorsese. Em suma, um estudante de engenharia civil que, em meio à correria do dia a dia, encontra abrigo na arte das imagens em movimento e no som psicodélico e poético de Floyd.