Crítica | Além da Escuridão: Star Trek

estrelas 3

Obs: Leia, aqui, as críticas dos demais filmes da franquia.

J.J. Abrams soube provar seu valor para a franquia Jornada nas Estrelas quando a resgatou de um limbo criativo e, em um filme muito bom, deu um sopro de vida a ela, levando-a, literalmente, a onde nunca antes havia ido. É bem verdade que ele transformou Star Trek (por alguma razão, escrever o nome em português tornou-se algo estranho), de uma série com aspectos transcendentais e filosóficos, em um filme de ação desenfreada, mas ele soube fazer isso, graças à criatividade de Roberto Orci e de Alex Kurtzman, sem trair tudo o que veio antes, apaziguando os ânimos dos fãs do cânone da longeva série e trazendo para debaixo do guarda-chuva do Capitão James T. Kirk e sua tripulação, novos fãs, mais acostumados com o passo acelerado das produções atuais.

E Abrams tenta repetir a dose com Além da Escuridão: Star Trek (vai entender essa inversão no título em português, o único de toda a franquia a fazer isso, o que ativa meu T.O.C.), mas não consegue chegar aos pés de seu trabalho anterior, ainda que não desaponte completamente. Com trama profundamente (mesmo!) galgada na mitologia da série, com citações aos Gorns, Tribbles e até cenas inteiras de outros filmes e séries, a continuação peca por banalizar sentimentos e sacrifícios, além do roteiro preferir encontrar soluções fáceis para tudo, com devoção exagerada ao que veio antes, talvez por Orci e Kurtzman, agora acompanhados de Damon Lindelof, terem desnecessariamente se sentido presos à criação original de Gene Roddenberry.

A trama gira em torno de um vilão com nome propositalmente genérico, John Harrison (Benedict Cumberbatch) que ameaça a Federação dos Planetas Unidos com ataques terroristas. Cabe ao Capitão Kirk (Chris Pine), Spock (Zachary Quinto) e o resto da equipe sair para caçar o bandido em uma missão estilo black ops, autorizada pelo Almirante Marcus, vivido por Peter Weller, o eterno RoboCop. Mas é evidente que nada é o que parece ser e, reviravolta atrás de reviravolta, a trama vai se desenrolando.

Ainda que todas as surpresas reservadas pelo roteiro sejam dolorosamente óbvias, o maior problema de Além da Escuridão reside na incapacidade dos roteiristas de se livrarem da âncora representada pela mitologia da saga. É bem verdade que os fãs da série devem ter se refestelado encontrando easter eggs espalhados por todo o filme, mas uma obra cinematográfica precisa ser muito mais do que isso, não é mesmo? Uma coisa é o chamado fan service bem inserido e que não atrapalha a narrativa, outra completamente diferente é a inserção de referências forçadas, tornando a fita refém da compreensão maior de elementos narrativos de material anterior.

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Pensem aqui: para que esconder a identidade de John Harrison? Esqueça por um momento que você saiba quem é Khan na mitologia da série e tente ver a “grande revelação” primeiro pelos olhos dos personagens e, depois, pelos dos espectadores que nunca viram a série anterior.

Se Kirk e companhia não têm um passado com Khan – como era o caso em A Ira de Khan – a revelação de que Harrison é Khan tem o mesmo efeito para eles do que se ele fosse revelado como sendo um irmão perdido e esquecido da Bruxa Má do Oeste voltando para se vingar. Ou seja, o impacto narrativo dentro da estrutura do próprio filme é completamente nulo e, portanto, injustificável dentro do roteiro.

Sob o ponto de vista do espectador ignorante sobre quem é Khan, exatamente o mesmo acontece. Quem não conhece Khan e o que ele significou para o “outro Kirk” em uma “outra dimensão”, provavelmente sentirá que está perdendo alguma coisa importante e coçará a cabeça perguntando a si mesmo o porquê de todo o mistério. A reação do espectador comum é igual a da tripulação da Enterprise, o que reitera a conclusão de que todas as voltas do roteiro feitas para esconder a identidade do vilão é um exercício que tem como objetivo agradar única e exclusivamente o fã da série original e isso é o pior tipo de fan service que se pode fazer.

Para começar, fan service tornou-se sinônimo de hermetismo. É a desculpa que comunidades minúsculas precisam para criar suas próprias seitas que identificam cada detalhe e cada referência de um filme. Chega a ser doentio. No entanto, é também divertido. Mas uma coisa é a diversão proporcionada por referências jogadas aqui e ali (como, no caso, a dos Tribbles ou como foi a inclusão do Capitão Pike no filme anterior, dentre várias outras), outra coisa muito diferente é quando a referência dirige a obra e determina sua evolução. E não é necessário ir muito longe para lembrar de exemplos perfeitamente contrários ao que a trinca de roteiristas fez aqui. Os próprios Orci e Kurtzman souberam como ninguém oferecer fan service no filme anterior sem atrapalhar seu desenvolvimento. E, ainda dentro da franquia, o próprio A Ira de Khan trabalha muito bem a reinserção de vilão clássico da série, assim como Primeiro Contato que foi, talvez, o exemplo máximo dessa mescla perfeita entre mitologia e história nova que serve de maneira equânime ao fã e ao novo espectador.

Mas o problema continua e se agrava. Uma das mais belas sequências dramáticas da ficção científica é, sem medo de errar, o sacrifício de Spock ao final de A Ira de Khan. Vemos um amigo de décadas salvar toda a tripulação da Enterprise e especialmente Kirk, em um momento emocionante e importante para solidificar o relacionamento entre os dois. E a volta de Spock da morte é algo trabalhado ao longo de À Procura de Spock, encerrando-se completamente somente em A Volta para Casa, ou seja, foram necessários dois filmes inteiros para o processo, dando importância e gravidade ao ocorrido em A Ira de Khan.

No entanto, o que vemos em Além da Escuridão é o exato oposto (em tudo, aliás). O sacrifício torna-se banal, corrido e é resolvido magicamente. Não só Kirk e Spock ainda não têm, nessa linha temporal, os laços de amizade dos Kirk e Spock originais, como a velocidade e conveniência com que tudo é tratado retira qualquer tipo de impacto dramático da sequência. É como mortes em quadrinhos: não ligamos, pois sabemos que determinado personagem reviverá em breve.

O que Abrams acaba fazendo é diluir o poder de diversas cenas, como um importante sacrifício que acontece mais para o terço final da película. Trata-se de uma inversão de famosa cena de filme anterior da franquia, mas sem nenhum impacto dramático. Em literalmente menos do que 10 minutos, o status quo anterior ao sacrifício é restabelecido, como se absolutamente nada tivesse acontecido. Assim, toda a cena é construída unicamente para que os fãs da série apontem o dedo e digam “é igual ao filme tal” ou para os que não são fãs sejam manipulados – enganados, na verdade – para terem um choque fácil, que depois é convenientemente corrigido.

Aliás, haja correção! A solução narrativa para o que acontece é, sem meias palavras, um soro que cura a morte. Como é que pode existir algum tipo de carga dramática em um filme que cria um universo onde a morte é uma doença que pode ser curada com uma injeção? Seria uma bênção se em uma continuação fosse revelado que os eventos de Além da Escuridão, na verdade, não passaram de um elaborado pesadelo de Kirk…

E os roteiristas, ainda tentando citar a mitologia anterior, dão-se ao trabalho de construir uma enorme sequência em que os heróis combatem um pequeno destacamento Klingon, com excelente jogo de câmera por Abrams. Ainda que a lógica para o combate seja perfeita, o fato é que, cumprida a tarefa de mesmerizar a plateia, essa linha narrativa simplesmente desaparece e nunca mais é citada. Mesmo que o objetivo tenha sido introduzir vilões que potencialmente serão usados em continuações, o problema é que o desaparecimento dos Klingons do restante do filme é inverossímil e incômodo, como se parte do filme tivesse sido cortado e jogado fora na mesa de montagem.

Além disso, muitos reclamaram de Tom Hooper em Os Miseráveis no ano anterior em razão da câmera esquizofrênica e ângulos estranhos. No entanto, Abrams faz exatamente a mesma coisa, usando e abusando de ângulos holandeses, câmera na mão e filmagens estranhas só para serem estranhas, algo que já estava presente no primeiro filme, mas que, agora, ganha contornos realmente irritantes, especialmente com uma profusão impressionante (negativamente, claro) de cortes rápidos desnorteadores. E isso permeia toda a projeção e, ainda que não seja um fator determinante para a falta de qualidade dessa fita, ele contribui bastante.

O 3D convertido foi um dos piores de 2013, com falta de profundidade de campo na maioria das sequências – o que tira o objetivo do uso da tecnologia – e o uso de um primeiro plano próximo demais à lente que não só cria incômodo, como, também, retira, sem senso narrativo, parte da visão das cenas. Um caso impensado de uso da tecnologia apenas para arrancar mais dinheiro do público incauto.

Mas o filme de certa forma compensa com uma ação eficiente e efeitos especiais deslumbrantes, literalmente um dos melhores apresentados nos últimos anos. A atuação da equipe principal – Chris Pine, Zachary Quinto, Zoe Saldana, Karl Urban e Simon Pegg – é excelente e o tempo de tela de cada um é razoavelmente bem equilibrado. Peter Weller mastiga a tela com sua imponente presença e Cumberbatch faz um eficiente vilão, ainda que – tentando manter a crítica sem spoilers – depois da revelação de quem ele realmente é, o impacto dramático seja fortemente reduzido.

Consideravelmente inferior ao primeiro, Além da Escuridão ainda é uma diversão só, especialmente para quem conhece a mitologia e pode perdoar a câmera tresloucada. Uma típica aventura espacial descompromissada com bons efeitos e bons atores, que poderia ter se beneficiado de uma montagem mais econômica e um pouco mais de parcimônia na autocitação.

Além da Escuridão – Star Trek (Star Trek Into Darkness, EUA – 2013)
Direção: J.J. Abrams
Roteiro: Roberto Orci, Alex Kurtzman, Damon Lindelof (baseado em criação de Gene Roddenberry)
Elenco: Chris Pine, Zachary Quinto, Zoe Saldana, Karl Urban, Simon Pegg, John Cho, Anton Yelchin, Benedict Cumberbatch, Anton Yelchin, Bruce Greenwood, Peter Weller, Alice Eve, Noel Clarke, Nazneen Contractor, Amanda Foreman, Jay Scully, Jonathan Dixon
Duração: 132 min.


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RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.