Crítica | Além das Nuvens (1995)

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__ E se eu me apaixonasse por você?

__ Seria como acender uma vela em um quarto imensamente iluminado.

Em 1985 Michelangelo Antonioni sofreu um derrame cerebral. Sua produção cinematográfica daí em diante seria fortemente afetada por sua saúde frágil e pela dificuldade de levar projetos adiante. Entre seu último longa antes do AVC, Identificação de uma Mulher (1982) e Além das Nuvens (1995), o diretor realizou apenas três curtas-metragens e só conseguiu o financiamento para este “último grande projeto” porque aceitou a condição imposta pelo estúdio: que fosse escolhido um diretor-assistente que o acompanhasse durante toda a produção e estivesse de prontidão para assumir a continuidade do filme, caso o italiano tivesse algum agravamento em quadro de saúde.

A substituição não foi necessária, mas o escolhido por Antonioni, o alemão Wim Wenders, guiou o prólogo, o epílogo e todas as cenas de ligação entre as 4 histórias de amor assinadas pelo velho mestre. Nas cenas de Wenders, temos a introdução, a jornada pela Europa e a despedida do personagem de John Malkovich, um diretor que está buscando inspiração para a criação de um personagem em seu próximo filme. Nessa empreitada, ele acaba encontrando algo maior, uma longa uma história. Infelizmente, o roteiro que exibe essas situações, escrito pelos dois cineastas e por Tonino Guerra, sofre dos males comuns de filmes organizados em episódios ou blocos dramáticos fortemente delimitados.

À medida que este “Diretor” diegético viaja, surgem novos momentos de desencontro romântico, algum mistério e a sempre cara dificuldade de comunicação presente nos filmes de Antonioni (é como se víssemos uma “consequência distante” de Blow-Up – Depois Daquele Beijo). Em cada um desses episódios, um novo item da grande ciranda de amores que cerca jovens e adultos é apresentado e isso aparece no filme sob uma poesia inquieta, nunca satisfeita com seu atual momento, sempre em busca algo, procurando imitar (ao menos a desnecessária e deslocada cena — uma espécie de fan service ao referenciar A Noite — de Marcello Mastroianni e Jeanne Moreau serve para suscitar essa deixa do roteiro), tentando lidar com sonhos e desejos que muitas vezes são frustrados pelo parceiro/parceira ou por si mesmo.

A busca do “Diretor” é como uma tentativa de mostrar para o público o filtro de histórias, a relação com o real, a mescla de exagero e ficção, as escolhas narrativas e o peso que a melancolia da própria vida tem durante a concepção de um filme, ainda mais um filme que trata de histórias separadas pelo tempo, espaço e por sentimentos em constante estágio de mudança. Os personagens aqui parecem se esquecer que as pessoas mudam ou não apresentam toda a verdade sobre si para seus pares. Ninguém se conhece o bastante, mas cobra do outro um comportamento que indique isso, como se uma falta pessoal pudesse ser compensada pela “resposta definitiva” daquele que está próximo. Notem que a cada episódio, a direção de arte vai criando micro “Universo particular” dentro das casas e apartamentos; os figurinos vão dando sinais apressados sobre quem são aquelas pessoas e os poucos (e não tão marcantes) momentos de trilha sonora cimentam essa tão frágil linha que mal costura a caminhada de desesperados em busca de felicidade.

De todos os atos, o último é o mais denso, narrativamente forte e que consegue não só apresentar a luta que é o foco central do roteiro (a busca pelo amor e outras coisas em par com desejos ocultos e incomunicabilidade) mas também desenvolver os personagens, tendo um final desalentador, belissimamente fotografado por Alfio Contini — as cenas na igreja e a subida do rapaz pelas escadas do prédio se destacam –, e muito, muito real. É o encerramento mais refinado possível para um filme que é uma pequena tapeçaria de padrões confusos e ajustados de maneira pouco harmônica. A mensagem, porém, é clara, a habilidade dos diretores é inquestionável (assim como a do excelente elenco) e, deixando de lado qualquer comparação com as obras-primas de outro momento da carreira de Antonioni, Além das Nuvens tem um valor em si mesmo. Não chega a ser nem um “filme menor”. É apenas um “bom filme” — o último longa! — de um gigante do cinema.

Além das Nuvens (Al di là delle nuvole) — França, Alemanha, Itália, 1995
Direção: Michelangelo Antonioni, Wim Wenders
Roteiro: Michelangelo Antonioni, Wim Wenders, Tonino Guerra
Elenco: Fanny Ardant, Chiara Caselli, Irène Jacob, John Malkovich, Sophie Marceau, Vincent Perez, Jean Reno, Kim Rossi Stuart, Inés Sastre, Peter Weller, Marcello Mastroianni, Jeanne Moreau, Enrica Antonioni, Carine Angeli, Alessandra Bonarotta
Duração: 112 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.