Crítica | Aliados

estrelas 2,5

Apesar da violência, a Segunda Guerra Mundial foi palco para vários ótimos romances, como, por exemplo, A Um Passo da Eternidade, contudo, o mais famoso deles é, e sempre será, o maravilhoso Casablanca. Claramente inspirado pela obra citada acima, Robert Zemeckis, responsável por filmes como Contato e Forrest Gump, decidiu criar seu próprio romance desenvolvido no período, no entanto, qualquer comparação com o longa de Michael Curtiz deve ficar apenas no campo da inspiração, pois tratam-se de obras completamente distintas em qualidade.

O longa conta a história dos espiões Max Vatan (Brad Pitt) e Marianne Beausejour (Marion Cotillard), que se apaixonam perdidamente durante uma missão em Marrocos e decidem se casar. Os problemas começam anos depois, com suspeitas sobre uma conexão entre Marianne e os alemães. Intrigado, Max decide investigar o passado da companheira.

No início, o roteiro, escrito por Steven Knight, mostra-se extremamente apressado em estabelecer o relacionamento entre Max e Marianne. Vemos, por exemplo, ele dizendo em uma cena que espiões não devem transar porque acabam morrendo, para logo após ter relações com sua parceira e ao término da missão pedi-la em casamento, resultando em uma enorme falta de naturalidade na construção da relação. Aliás, quando o pedido de casamento ocorre, soa muito mais surpreendente do que emocionante.

Além disso, Brad Pitt e Marion Cotillard não têm muita química contracenando juntos, dificultando ainda mais a indentificação com o casal principal. No entanto, há que se destacar a eficiência de Cotillard em inserir uma aura misteriosa em sua personagem, enquanto Pitt demonstra muito bem a instabilidade de Max com suas descobertas sobre a esposa.

Já no segundo ato, com um brusco salto temporal, somos surpreendidos ao descobrir que ela está grávida e prestes a ter o bebê, dando indícios de que a obra continuaria com sua apresentação de informações sem nenhuma preparação prévia. Contudo, quando o dia a dia do casal começa a ser abordado, o longa cresce, não deixando de ser interessante acompanhar a adaptação de Marianne com a rotina doméstica e Max tentando conciliar a vida militar com a de marido.

Até que, quando as dúvidas sobre o lado da espiã na guerra começam, o filme ganha ares de suspense (há claras referências à filmografia de Hitchcock), prendendo instantaneamente o espectador, provocado pela roteiro que trabalha muito bem a dúvida na mente de quem assiste. Repare como o longa deixa em aberto até a possibilidade daquilo tudo ser um teste, resultando em um impactante e surpreendente final, ainda que seja bastante anticlimático.

Apesar dos deslizes do roteiro, a direção de Zemeckis é visualmente atraente, com uma fotografia dinâmica, repleta de movimentos de câmera característicos do diretor e que aposta em uma paleta de cores contrastante, ou seja, calorosa e romântica nas cenas em Casablanca e fria nos momentos em Londres, encaixando bem com a crescente sensação de suspense do filme. Já o figurino representa perfeitamente o estado emocional do casal, na cena que antecede a primeira relação sexual deles, por exemplo, ambos utilizam branco, destacando sua sintonia; enquanto há cenas mais adiante em que eles vestem cores diferentes, ressaltando suas dúvidas sobre a honestidade do parceiro. Por fim, a direção de arte e design de produção é impecável em recriar belos cenários dos anos 40 belos, seja através de locações ou do uso de efeitos digitais.

Aliados é eficiente em deixar uma boa impressão no término da projeção, resultado de sua surpreendente conclusão, contudo, se analisado como um todo, deixa a desejar, principalmente por seu início atropelado. Imagino o quão satisfatória poderia ser a obra, se Zemeckis utilizasse do mesmo cuidado técnico para conduzir sua narrativa.

Aliados (Allied) – EUA/ Reino Unido, 2016
Direção: Robert Zemeckis
Roteiro: Steven Knight
Elenco: Brad Pitt, Marion Cotillard, Jared Harris, Matthew Goode, Lizzy Caplan, Anton Lesser, August Diehl, Camille Cottin, Charlotte Hope, Marion Bailey, Simon McBurney, Daniel Betts, Thierry Frémont
Duração: 124 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.