Crítica | Alias Grace

Assim como no caso de Stephen King, 2017 foi o ano das adaptações de obras da escritora canadense Margaret Atwood, começando com a aclamada e premiada The Handmaid’s Tale pelo Hulu, baseada no romance O Conto da Aia, passando pela série animada infantil Wandering Wenda pela CBC Television, a televisão pública canadense, baseado no livro infantil Wandering Wenda and Widow Wallop’s Wunderground Washery e encerrando com Alias Grace, também pela CBC, que adapta o romance baseado em fatos históricos Vulgo Grace e que ganhou distribuição internacional pelo Netflix. A fascinante bibliografia de Atwood já vinha ganhando versões cinematográficas e televisivas desde a década de 80, mas somente recentemente é que seu enfoque eminentemente feminino do mundo, desnudando preconceitos, é que ganhou elã de verdade.

E isso depõe muito contra o mundo em que vivemos, na verdade. Mas calma. Não quero de forma alguma dizer que as obras literárias da autora não deveriam ganhar adaptações, pois elas mais do que devem, mas sim que é triste constatar como elas são particularmente relevantes hoje, em pleno século XXI, com histórias que poderiam facilmente se passar em nosso cotidiano, sejam elas transcorridas no futuro ou no passado. Afinal, se O Conto da Aia vai para o futuro para denunciar o extremismo religioso como ferramenta para dar azo à misoginia, machismo e preconceito em geral em relação à mulher, transplantando situações que efetivamente ocorrem em diversos países teocráticos do mundo para uma situação hipotética depois que um golpe de estado toma conta dos EUA, Vulgo Grace volta algo como 200 anos no tempo para lidar com a exata mesma situação, a partir da extrapolação e romanceamento da história de Grace Marks, condenada em 1843 pelos assassinatos de seu empregador Thomas Kinnear e da governanta Nancy Montgomery.

Nos livros, as duas histórias, além de compartilharem temáticas semelhantes, também são contadas a partir da narração da protagonista, sempre na condição de narradora não-confiável. Curiosamente, as duas adaptações em formato serializado mantiveram essa mesma estrutura, o que, juntamente com figurinos que têm clara correlação – afinal, The Handmaid’s Tale pode se passar em futuro distópico, mas esse futuro representa um retrocesso de centenas de anos, incluindo, claro, o vestuário feminino – e fotografia com luz natural que trabalha muito o close-up nos personagens, aproximam sobremaneira as duas produções. Mas enquanto aquela protagonizada por Elisabeth Moss tem maior complexidade narrativa e pretensões mais abrangentes, além de lidar com as difíceis questões que aborda mais direta e graficamente, Alias Grace, que tem Sarah Gadon como a personagem titular, é muito mais sutil em suas críticas – mas é importante não confundir sutileza com ineficiência – e bem mais focada em apenas uma narrativa, sem grandes desvios e sem uma multitude de personagens.

Na série, o Dr. Simon Jordan (Edward Holcroft), psicólogo americano, é convidado por uma junta de cidadãos canadenses liderados pelo Reverendo Verrenger (David Cronenberg, em uma bela ponta), para estudar Grace Marks 15 anos depois de sua condenação, com o objetivo de balizar seu perdão. Os episódios, então, lidam com as sessões entre Simon e Grace na mansão do diretor da prisão, onde ela trabalha durante o dia em razão de seu bom comportamento e, principalmente, por ser uma “curiosidade” para a aristocracia local. No primeiro episódio, o único fortemente marcado por uma montagem não-linear para capturar de imediato a curiosidade do espectador, somos apresentados às incertezas que marcam toda a minissérie. Incertezas sobre o ocorrido no passado, sobre as intenções de Grace, sobre o que Simon pensa de Grace. Esse artifício narrativo, no entanto, logo deixa de ser utilizado, o que faz com que os episódios seguintes melhorem substancialmente, já que a não-linearidade dificulta o foco na magnífica interpretação de Sarah Gadon, sempre o foco das câmeras de Mary Harron, diretora de todos os episódios.

Quando Grace efetivamente começa a contar sobre o que lembra de sua trágica história – ou o que quer lembrar -, o roteiro de Sarah Polley estabelece uma delicada convergência entre os dois principais personagens em polos opostos, ainda que fortemente dependente de uma narração em off que nem sempre se justifique ou apresente elementos dissonantes daquilo que estamos vendo. De um lado, Grace oscila entre a mulher inocente, a assassina cruel, a manipuladora, a vítima de abusos, a mentirosa contumaz e a amnésica sem que pareça que Gadon está fazendo algum esforço para nos passar essas características. A atriz está perfeitamente dentro de seu personagem e Harron sabe o quanto de cada situação mostrar, entre as sessões carregadas de diálogos longos e os flashbacks para o passado de Grace desde que deixara a Irlanda com seus pais e quatro irmãos em uma longa e terrível viagem de navio até as intermitentes lembranças das mortes que popularam sua vida, de uma forma ou de outra. Do outro lado, Simon vai discretamente se deixando levar por sua atração por Grace, deixando de dormir, ganhando enormes olheiras, tentando obsessivamente desvendar os mistérios da mente da mulher, ao mesmo tempo que tenta fugir dos avanços da dona da casa que lhe aluga um quarto. A costura narrativa entre uma ponta e outra é o grande chamariz dramático de Alias Grace, com Gadon e Holcroft, apesar de sempre manterem uma hesitante e desconfortável distância, demonstrando uma química invejável desde os primeiros minutos em que vemos Simon, visitando Grace pela primeira vez na prisão, oferecer a ela uma maça, ao que ela retruca se ele a considera um mero animal.

Mas Alias Grace é populada por um elenco coadjuvante mais do que inspirado. Rebecca Liddiard, que vive Mary Whitney, a única amiga de Grace, que ela conhece em seu primeiro emprego, é, talvez, o maior destaque. Uma espécie de antítese à calma, timidez e passividade de Grace, Mary é, em muitos aspectos, o que Grace gostaria de ter sido não fossem as circunstâncias do que acontece ao redor. Rebelde, desbocada, fogosa e livre, Mary mantem-se presente na narrativa mesmo quando não a vemos em tela, estabelecendo um interessante elemento psicológico que ganha ênfase mais para frente, quando Simon capitula diante da pressão de Verrenger e permite que Jeremiah (Zachary Levi) faça uso de uma técnica menos ortodoxa para sacudir a memória de Grace, em um capítulo que foge da estrutura básica dos demais, mas que ao mesmo tempo sacode o status quo e joga mais dúvidas ainda na mente do espectador, em um fascinante jogo mental investigativo. Levi, aliás, apesar de não fazer muito mais do que uma ponta glorificada, é outro que se mostra muito convincente em seu papel, quase como um personagem fabulesco. Quem não se encaixa com exatidão em seu papel de Nancy Montgomery é Anna Paquin, que não se mostra à vontade aqui, por diversas vezes “saindo” de seu personagem e deixando Paquin sobressair-se à Montgomery, o que quebra levemente a imersão do espectador.

Essa imersão, alás, é muito ajudada por uma reconstituição de época verdadeiramente excepcional, digna de obras da BBC como Call the Midwife e Life on MarsNão só há um cuidado grande com os figurinos (por Simonetta Mariano), que são cruciais para estabelecer as diferenças entre as castas sociais, como também em toda a ambientação, como com a direção de arte comandada por Arvinder Grewal, que se esmera em ser detalhista, mas sem chamar atenção para si além do que é efetivamente importante para a narrativa, como as diversas colchas de retalhos – simbolizando a memória enevoada de Grace – que populam os episódios. A fotografia de Brendan Steacy usa a iluminação natural quando pode, emulando-a quando não é possível obter o mesmo resultado, o que ajuda no naturalismo dos episódios. No entanto, usando um filtro que esmaece os tons claros, Steacy ao mesmo tempo empresta uma atmosfera onírica à narrativa, o que amplifica a sensação de inexatidão daquilo que está sendo contado, atiçando ainda mais a curiosidade do espectador por uma resposta definitiva sobre os eventos calmamente desvelados ao longo do episódio.

No entanto, o final é muito menos importante do que a jornada. Ao longo da história contada por Grace a Simon é que absorvermos aquilo que Alias Grace realmente quer abordar. Não é realmente importante sabermos se a protagonista é culpada ou inocente, mas sim que seu lugar na sociedade foi pré-determinado desde seu nascimento como uma mulher e restringido ainda mais por sua condição econômica desfavorável. Sofrendo abusos das mais diversas naturezas e, pior, internalizando-os como algo natural, que fazem parte da vida, Grace se vê aprisionada não depois que é condenada pelos crimes que pode ou não ter cometido, mas sim desde que se conhece como gente. Seu horizonte sempre foi muito próximo, não indo muito além da bondade do próximo (ou de sua maldade) ou de amizades que consegue cultivar aqui e ali. Esse claustro à que Grace é submetido, porém, não é algo particular à ela ou a alguém de sua classe social apenas. Ele é determinado por seu gênero, em uma sociedade patriarcal não muito diferente da nossa. É aqui que a sutileza do texto de Atwood e da atuação de Gadon entram fortemente no jogo, deixando claro, a cada minuto que passa, que esse passado não muito longínquo não é tão distante assim como gostaríamos de imaginar.

Alias Grace é um impressionante tour de force de Sarah Gadon e um belo exemplo de substância e forma fundidas quase que à perfeição pela direção de Mary Harron e roteiros de Sarah Polley. Uma série que merece ser assistida com calma, para que cada elemento dos fortes recados de Margaret Atwood sejam devidamente absorvidos.

*Apesar de muitos sites indicarem esta como a 1ª temporada de Alias Grace, a série é anunciada como uma minissérie ou série limitada. Além disso, pela natureza de seu final, não me parece que haja espaço para uma continuação. Portanto, tomei a decisão de não usar qualquer indicação de temporada no título.  

Alias Grace (Canadá/EUA, 2017)
Lançamento: 25 de setembro a 30 de outubro de 2017 (Canadá), 03 de novembro de 2017 (mundialmente)
Direção: Mary Harron
Roteiro: Sarah Polley (baseado no romance Vulgo Grace, de Margaret Atwood)
Elenco: Sarah Gadon, Edward Holcroft, Rebecca Liddiard, Zachary Levi, Kerr Logan, David Cronenberg, Anna Paquin, Paul Gross, Martha Burns, Will Bowes, Sarah Manninen, Stephen Joffe, Michael Therriault
Duração: 270 min. (seis episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.