Crítica | Alice No País das Maravilhas (2010)

estrelas 3

Tim Burton é um diretor amado e odiado por cinéfilos ao redor do mundo. É totalmente legítimo o sentimento de ambos os lados. Eu sou do time que adora os filmes de Burton e normalmente estou na primeira fila de tudo que ele faz. Não foi diferente com a refilmagem ao seu estilo do clássico Alice no País das Maravilhas. O clássico infantil de Lewis Carrol já havia ganhado as telonas pela Disney com um filme que enlouqueceu muitas crianças na época, inclusive eu quando vi o filme pela primeira vez. Sendo assim, Alice seria a história ideal para as loucuras de Burton. O mundo doido que se escondia no buraco que o coelho mostra para a garota combinava bem com seus filmes anteriores e Burton parecia ter uma ótima ideia na mão. O problema é que o filme simplesmente não flui como o esperado e apesar de tecnicamente bem feito, a Alice de Tim Burton é facilmente esquecida.

Diferentemente do conto original, agora Alice (Mia Wasikowska) é uma jovem adulta, com pouco mais de 19 anos, e que descobre meio sem querer que está prestes a ser pedida em casamento em frente a centenas de pessoas que ela mal conhece. Angustiada com a escolha, a menina foge sem olhar para trás e no meio do caminho dá de cara com um certo, e velho conhecido, coelho branco de colete e relógio na mão muito atrasado e nervoso. A cena curiosa leva Alice de volta ao buraco que vai levá-la mais uma vez ao País das Maravilhas.

Na história de Burton, Alice já havia estado nesse lugar antes, mas não se recorda de forma clara, apenas com fragmentos de sonhos que ela teve ao longo da vida mas que nunca levou a sério. Desde que a menina esteve no País das Maravilhas pela primeira vez, o lugar passou por uma intensa transformação encabeçada pela Rainha de Copas (Helena Bonham Carter) que agora dá as cartas no poder e segue praticando seu esporte preferido: cortar cabeças. Do outro lado, estão o Chapeleiro Maluco (Johnny Depp) e a Rainha Branca (Anne Hathaway) que esperam com esperança a volta de sua heroína para que a paz e a tranquilidade volte a reinar por ali.

Linda Woolverton, veterana da Disney, assina o roteiro com base no conto já conhecido de todos. O trabalho de Linda não chega a comprometer o andamento do longa, mas também está longe de outros trabalhos da roteirista como O Rei Leão e A Bela e a Fera que ela assinou o roteiro juntamente com outros grandes nomes da Disney. Talvez o maior problema do roteiro de Alice seja a necessidade que a Disney tem de criar rótulos em seus personagens: bons e maus, mocinhos e vilões. O ápice desse problema é pontuado com uma batalha “épica” no final do longa que em nada lembra o conto tão suave e cheio de realismo de Carrol. Parece que aquela batalha, o cenário e a motivação dos personagens não combina com a essência da história e acaba não funcionando nada bem para o andamento do longa.

o elenco é um velho conhecido do público e dos fãs de Burton. Johnny Depp, que faz sua sétima parceria com o diretor, entrega um Chapeleiro Maluco muito afetado, com olhos esbugalhados e que contribuiu pouco para o ritmo da narrativa. Parece que ele está ali apenas como mais um adereço bem feito. que faz parte dos cenários e da direção de arte caprichada que o longa entrega. O mesmo acontece com Helena Bonham Carter, ex-mulher do diretor que é figura carimbada em seus longas. Apesar de estar se divertindo muito com sua Rainha de Copas, Helena é subaproveitada e seu talento se resume a alguns gritos histéricos e também afetados. Mas talvez ninguém esteja tão desnecessária quanto Anne Hathaway e sua Rainha Branca que mais parece saída de um castelo da Disney. A grande surpresa fica mesmo a cargo da protagonista, a então novata Mia Wasikowska que batalhou e ganhou de grandes nomes para conseguir o papel de destaque do filme. Seu olhar perdido em meio a todas as maravilhas daquele mundo subterrâneo entrega uma verdade a personagem que aos poucos vai ganhando a nossa simpatia e a nossa torcida (apesar da batalha desnecessária do final).

Mas todos esses deslizes não compromete em nada a experiência visual que é Alice no País das Maravilhas. Os cenários e os figurinos são absurdamente encantadores e de fato nos transportam para um mundo único e cheio de mistérios. Os efeitos especiais são a cereja do bolo, com a Alice crescendo e diminuindo como na história original, além da criação de personagens épicos como o Coelho Branco e a Lagarta. A Direção de Arte e os Figurinos, merecidamente receberam o Oscar em 2011. De fato, um prêmio merecido e que só deixa esse filme tecnicamente ainda mais belo e deixando no público a vontade de ver e rever, como uma obra de arte na parede de um museu.

Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, EUA- 2010)
Direção: Tim Burton
Roteiro: Linda Woolverton baseado no conto de Lewis Carrol
Elenco: Johnny Depp, Mia Wasikowska, Matt Lucas, Helena Bonham Carter, Anne Hathaway, Crispin Glover, Frances de la Tour, Geraldine James, Michael Sheen, Alan Rickman
Duração: 110 minutos

GISELE SANTOS . . Gaúcha de nascimento, mas que não curte bairrismos nem chimarrão! Me encantei pelo cinema ainda criança e a paixão só cresceu ao longo dos anos. O top 1 da vida é "Cidadão Kane", mas tenho uma dificuldade enorme de listar os melhores filmes da minha vida. De uns anos para cá, os filmes alternativos têm ganhado espaço neste coração que um dia já foi ocupado apenas por blockbusters pipoquentos.