Crítica | Alien, o Oitavo Passageiro

estrelas 5

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No espaço, ninguém pode ouvir você gritar.

A tagline acima é, talvez, uma das mais lembradas do cinema ao mesmo tempo que é uma das que melhor descreve o terror que é o filme que identifica: Alien, o Oitavo Passageiro. O alienígena sem nome, que pouco vemos durante o filme, manteve muita gente acordada à noite por uma geração e iniciou de verdade a carreira de seu diretor, Ridley Scott, que antes só fizera uma obra: Os Duelistas.

De todas as qualidades de Alien, a que mais impressiona quando olhamos para trás, é que o filme, lançado nos cinemas em 1979, não emprega nem uma gota de computação gráfica. Reparem hoje em dia: o CGI nos deixou mal-acostumados. Literalmente qualquer coisa pode povoar as telas de cinema e com um realismo impressionante. Pensaram em qualquer monstro? Ele está lá. Querem ver um homem derreter e transformar-se em outro? Feito. Gostariam de uma cena de batalha com milhares de soldados de cada lado? Nada que um ou dois botões não resolvam. Em linhas gerais, a liberdade que os efeitos especiais em computador proporciona pode ser um instrumento maravilhoso, mas, com uma frequência maior do que é aceitável, ela é usada, apenas, para hipnotizar os espectadores, deixando-os entorpecidos e incapazes de julgar se o que estão vendo faz sentido, tem roteiro razoável, se os personagens são bem construídos e por aí vai. Ou seja, os efeitos acabaram substituindo a preocupação com o que é realmente importante em um filme.

Por isso ver e rever Alien é tão refrescante e animador. Ridley Scott, em uma produção impecável, preocupou-se com o que ele não mostra. Além disso, investiu tempo na construção de uma sensação de solidão e confinamento que não vemos facilmente em obras atuais do gênero. Logo na abertura, por exemplo, nos deparamos por breves segundos com a enorme nave rebocadora Nostromo flutuando no espaço e, então, somos remetidos ao seu interior. Em cortes sucessivos, mas nunca desorientadores, com câmera a meia altura e fazendo um lento movimento de lado a lado, passamos a ver os detalhes da estrutura. É tudo muito envelhecido, mal cuidado, dando a perfeita impressão de que estamos vendo uma nave muito utilizada, algo que transpira realidade. Mas onde estão as pessoas? Esse sentimento de desolação passado pelo longo tempo que Scott nos deixa apreciar os cenários cuidadosamente desenhados por Chris Foss e Ron Cobb ficam conosco por toda a obra. A ausência de humanos e o uso parcimonioso de trilha musical são aspectos que preparam o espectador para o que está por vir, sem, porém, esfregar na cara que é um filme de monstro.

E, então, somos apresentados aos sete tripulantes acordando das câmaras de estase. Aos poucos eles se levantam do longo sono espacial e começam a tomar seus postos, crentes que estão finalmente chegando em casa. Mas logo aprendemos que o cérebro computadorizado da nave, MU-TH-R (lido como mother ou “mãe”, em inglês), desviou sua trajetória e os tripulantes estão, na verdade, próximos de um planetoide desconhecido de onde, aparentemente, vem uma mensagem de origem extraterrestre. Desanimados com a novidade, mas forçados a verificar o que é por força de seus contratos, eles desengatam a Nostromo de sua carga e pousam na superfície do planeta.

O que segue daí todos conhecem: um dos tripulantes é infectado, dá à luz famosamente a um monstrinho que logo vira um monstrão e, no melhor estilo de filme de terror, vemos os demais sendo pegos um a um pela misteriosa e furtiva criatura. Em termos de roteiro, o filme é simples assim.

Mas em termos de execução, a produção é inacreditável.

Não só temos a vagarosa mas eficiente construção da atmosfera da obra por Ridley Scott, como, também, temos o cuidado extremo com o design de tudo que é alienígena.  Para isso, Dan O’Bannon, o roteirista, apresentou o artista suíço H.R. Giger para Scott e, quando o diretor viu o perturbador desenho Necronom IV, sabia que havia encontrado seu monstro. Mas Giger fez muito mais do que o mais famoso alienígena do cinema (talvez empatado com o simpático E.T. de Steven Spielberg). Ele criou, literalmente, outro mundo. A impressão que temos quando os tripulantes aventuram-se dentro da estranha nave que encontram no planetoide é que estamos em algo meio tecnológico, meio orgânico, com uma textura e com detalhes que o cinema não havia visto antes e, arrisco dizer, não veria depois.  E o subtexto sexual dos desenhos de Giger não deixa que o espectador se acomode e relaxe. Há orifícios vaginais, estruturas fálicas e uma espécie de sensualidade doentia, meio sadomasoquista, em todas as curvas. Fica até difícil imaginar como os executivos da Fox, horrorizados com o que viram, acabaram deixando que os desenhos fossem aproveitados no filme. Outro tempos! O imaginário criado pelas perfeitas, mas sinistras, criações de Giger encaixa-se como uma luva com o que vemos na tela: um monstro que basicamente nasce de um estupro de um dos tripulantes e que passa a sensação de uma horrorosa lascívia a cada nova vítima.

E o que falar da trilha sonora? Jerry Goldsmith, apesar de ter ficado contrariado com o resultado de seu trabalho (afinal, foi muito modificado pela produção que acabou usando outras composições do próprio autor em determinados momentos), criou algo assombroso que usa tão bem as notas tensas como o silêncio total. São poucas as músicas de filme que estão ligadas de maneira indelével ao personagem – a de Tubarão é um exemplo clássico, talvez o mais relevante deles – mas Goldsmith consegue exatamente isso: personificar, com sua composição, o monstro. E não esperem aqueles sustos fáceis, típicos de filmes de terror que são feitos em linhas de produção. O autor, aqui, é brilhante em criar, vagarosamente, um nervosismo no espectador sem telegrafar o que vai acontecer.

O elenco também merece destaque. Ainda que seis dos sete personagens humanos tenham a função básica de morrer, Scott não caiu na armadilha da unidimensionalidade total.  Dallas (Tom Skerritt) é o capitão da Nostromo e, como esperamos de um cargo assim, é corajoso, sabe dar ordens e sacrifica-se pelo grupo, praticamente o personagem que o clichê cinematográfico dita que será o único sobreviente. Mas notem essa evolução vai sendo construída aos poucos durante o filme, sem que a progressão do personagem seja empurrada goela abaixo, mas ao mesmo tempo subliminarmente nos dando pistas de que Dallas talvez não chegue até o final. E o mesmo vale para cada um dos demais tripulantes: Lambert (Veronica Cartwright), Brett (Harry Dean Stanton), Parker (Yaphet Kotto) e Kane (John Hurt).

Obviamente, porém, os destaques ficam mesmo com Sigourney Weaver como a hesitante heroína Ripley e Ian Holm como o frio androide Ash. Weaver, oriunda  do teatro e em seu primeiro papel no cinema, vai, muito ao seu tempo, saindo da sombra dos demais personagens – notem como ela pouco tem destaque no começo – e ganhando, a cada morte, um pouquinho mais de foco, até que a sequência final, de 17 minutos sem nenhum diálogo e somente com ela, mostra uma atriz em sua plenitude, completamente tomada pelo seu personagem.

Ian Holm, por outro lado, nos faz acreditar em sua humanidade até quando ela não é mais necessária e o choque da revelação de que é um ser artificial afeta o espectador da mesma maneira que os demais tripulantes. Mas o que é realmente surpreendente é a cena em que ele ataca Ripley. É mais um daqueles momentos em que vemos uma forte conotação sexual (afinal, qual seria a razão de uma revista dobrada como um canudo e enfiada na boca do personagem?) e o prazer doentio que o androide tem com isso. Holm nos faz acreditar em uma fagulha de sentimento – ainda que macabro – por trás da programação fria de um robô. Outros atores tentaram o mesmo efeito, mas poucos conseguiram chegar próximo ao que o vemos em Alien.

Vista como ficção científica, a obra de Ridley Scott é perfeita. O mesmo acontece se a virmos sob o ponto de vista do terror. E, novamente, a conclusão é idêntica quando vemos Alien somente como um filme, sem necessariamente classifica-lo como isso ou aquilo. É uma fita obrigatória para qualquer cinéfilo.

*Crítica originalmente publicada em 11 de junho de 2012 (atualizada e corrigida).

Alien, O Oitavo Passageiro (Alien, Estados Unidos, 1979)
Direção: Ridley Scott
Roteiro: Dan O’Bannon e Ronald Shusett
Elenco: Tom Skerritt, Sigourney Weaver, Veronica Cartwright, Harry Dean Stanton, John Hurt, Ian Holm, Yaphet Kotto, Bolaji Badejo, Helen Horton
Duração: 117 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.