Crítica | Alien vs. Predador

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Esqueça o título que nos revela os protagonistas: a premissa de AVP está mais próxima de querer elevar um texto realista de arqueologia e revelar cadenciadamente o aspecto irreal que o próprio filme assume. Senão é uma história sobre lidar com deuses e perceber sua insignificância no mundo, o que Alien vs. Predador seria? Paul W. S. Anderson celebra o real significado de cinema ao intuir em sua filmografia a noção desmembrada de verossimilhança, e por meio de sua encenação celebrar um ritual religioso que pouco tem a ver com a noção naturalista de cinema de ação que cresceu no imaginário popular americano, revisitando a noção Rivettiana de cinema ao usar do espaço para exprimir o drama.

Sequestrando duas franquias conhecidas, Anderson trabalha com seu material a partir de um movimento de deglutição de outras obras para reelaborá-las com autonomia. Pouco da estética de Ridley Scott, diretor de Alien, o Oitavo Passageiro, ou John McTiernan, diretor de O Predador, é preservado, dando lugar à sofisticação estética destes cosmos dentro de uma nova perspectiva, assimilando tendências do diretor e deixando de lado a ação desenfreada para dar luz a pegada estratégica e elegante que marca seus filmes.

O que é instituído é esse jogo de caça que acompanha os protagonistas, mas que na verdade está longe de ser o primeiro plano do filme. A história é vista pelo olhar desprezível dos humanos que não são capazes de acompanhar o que acontece ou de interferir. Esse sentimento de impotência e de ser inapto a interferir neste duelo natural é o primeiro motor do filme, que nada mais é que a inquietação do ser-humano ao deparar-se com o desconhecido. Frente à algo maior, somos diminuídos à menor partícula do universo, nossas conquistas são insignificantes e os personagens sentem-se confinados, não apenas no ringue que as criaturas os prendem, mas também na sua própria insignificância em relação mundo, uma reação quase religiosa de inaptidão ao saber que existe algo muito maior que você.

E o que resta quando você não é nem presa nem caçador e só lhe resta o dom do olhar? Reagir às imagens virtuais dos Predadores e Aliens lutando porque elas não pertencem a esse mundo, portanto não seria justo retratá-las da mesma maneira. O desprezo de um cineasta pelas suas peças em um jogo nunca foram tão claras quanto as que Paul W. S. Anderson opera, criando um jogo onde nunca é claro o protagonismo: o duelo entre os monstros ou a dor que habita nas desgraças e fraquezas humanas. A iconografia fantasiosa e labiríntica revela a turbidez da alma por mais refinada e contemplativa seja a encenação. Nunca haverá um cineasta de ação tão preocupado visualmente com seus filmes quanto Anderson, e aqui é onde ele consegue tecer sua tese sobre a encenação reveladora da fraqueza humana diante da metafísica e do oculto.

Alien vs. Predador (AVP: Alien vs. Predator) — EUA/Reino Unido/República Tcheca/Alemanha/Canadá, 2004
Direção:
 Paul W.S. Anderson
Roteiro: Paul W.S. Anderson
Elenco: Sanaa Lathan, Lance Henriksen, Raoul Bova, Ewen Bremner,  Colin Salmon, Tommy Flanagan, Joseph Rye,  Agathe de La Boulaye
Duração: 101 min.

BRUNO DOS REIS LISBOA PIRES . . . Escrevo sobre cinema e falo ladainha, as vezes os dois ao mesmo tempo. Entusiasta do cinema vulgar. John Carpenter, Howard Hawks e Neville de Almeida me ensinaram tudo que eu sei, pena que eu matei muita aula. Geralmente minha opinião é contrária a dos outros, mas eu sou a favor de termos a mesma só pra ser do contra. Ao caminhar entrevi lampejos de beleza.